CIDADANIA

A mulher que driblou o preconceito e foi derrubada pela ditadura

Foi numa cidade pequena, na divisa do Triângulo Mineiro, onde o futebol feminino no Brasil teve uma de suas nuances iniciais. Raimunda Maria Ribeiro, hoje aos 69 anos, carrega nas memórias alguns trechos desse pioneirismo, em Campos Altos, onde nasceu. Observadora e visionária, Raimunda protagonizou a revolução que é ser mulher e gostar de futebol – ao mesmo tempo, para que não fiquem dúvidas – num país em que por quase 40 anos um decreto proibiu essa simultaneidade. A ex-jogadora teve o sonho interrompido pela ditadura militar.

Filha de um comerciante com uma quitandeira, a menina que sonhava ser pianista cresceu brincando com as crianças na rua onde morava, no município de menos de 15 mil habitantes. O pai seguia a rotina semanal: acordava cedo todos os dias, pegava a prancheta e montava equipes de treino para os três times que supervisionava, dois de vôlei (feminino e masculino), e um de futebol, composta por homens. À tarde, os técnicos das equipes chegavam e o comerciante passava as instruções do que deveria ser feito. Somente às sextas ele assistia aos treinamentos, que aconteciam no campo cujo dono era ele mesmo.

Anos mais tarde, a afeição por esportes se estendeu à filha. Na escola, Raimunda praticava vôlei, queimada e diversas outras atividades esportivas. Em algum período de 1965, quando tinha cerca de 15 anos, teve a chance de pôr a bola nos pés. Zé Alves, que era, na época, fiscal do IBGE, substituiu o professor titular de educação física, na escola de Raimunda, porque o titular precisou viajar de última hora para os Estados Unidos. Nessa troca, o novo educador físico teve a ideia de criar um time de futebol com as meninas que praticavam vôlei, algo inédito na região. A ideia foi bem recebida pelo grupo, que logo passou a ser um time de futebol, o Campeão, que treinava no gramado do pai de Raimunda.

Na pequena cidade, Raimunda gastava dez minutos, a pé, da casa onde morava até o campo de treinamento. A estreia do time em competições aconteceu pouco tempo depois de criado, contra uma equipe masculina juvenil. Segundo ela, os jogadores mais fracos foram escalados para o campo. As meninas perderam de 7 a 1. A garota gostava de usar a camisa nove, embora fosse meia-direita, e o time contava com apenas 11 jogadoras, o que impedia substituições. Por serem mais altas, as jogadores do time de vôlei ficavam na defesa.

Diferente da Seleção Brasileira de 2019, que ganhou uniformes feitos exclusivamente para a equipe, o Campeão feminino tinha de se contentar em usar as camisetas do time masculino do pai de Raimunda, que tinha o mesmo nome.

Raimunda é a segunda jogadora agachada, da direita pra esquerda.

Durante os três anos em que o time existiu, as jogadoras só disputaram contra um time feminino uma única vez, em Bambuí, também no interior de Minas Gerais. Segundo Raimunda, as dificuldades da época são semelhantes às dificuldades encontradas ainda hoje, como o preconceito por ser mulher e a formação de outro time feminino para competições.

Apesar do cenário, as meninas do Campeão venciam nos gramados e driblavam o preconceito. A iniciativa, no entanto, não conseguiu convencer o regime militar, que endureceu a proibição de mulheres jogarem futebol. Só em 1983, quando finalmente a modalidade foi regulamentada, o jogo por elas foi aceito no Brasil. Nenhuma das jogadores do time, no entanto, retornou ao esporte.

“Aprendi a jogar futebol a partir dos esquemas táticos que meu pai montava. Por isso quando eu gosto de ver futebol, eu gosto de ver primeiro como estão montadas as equipes. Era bom, mas nós paramos porque a ditadura proibiu a formação de times femininos. Como meu pai comandava esses times, ele disse que as mulheres não poderiam mais, caso contrário ele perderia a concessão de ter os times dele”, explica.

Filha única, Raimunda conta que com o tempo o grupo de jogadoras começou a se destacar na partida contra os homens:

“Quando os meninos perdiam ficavam com muita raiva, acho que por isso o regime militar decidiu cortar”, brinca, rindo. “A gente estava tirando o poder dos homens, e aí não pode, né? Segundo a palavra da moda, a gente ainda não tinha o empoderamento que as mulheres têm hoje de lutar e enfrentar o preconceito”, continua.

Raimunda compara as dificuldades que teve nos anos 1960 com as enfrentadas pelas mulheres que buscam jogar futebol hoje

Fã de Chico Buarque, a ex-jogadora diz ter sido perseguida no período ditatorial brasileiro, considerada terrorista por parte do governo da época. Como ela, diversos amigos também foram alvos das ações autoritárias:

“O ano de 1968 pra mim não acabou. Eu lembro de uma vez em que eu estava indo para a escola e dei de cara com a cavalaria e três amigos meus acorrentados na esquina, dois rapazes e uma moça, acusados de terroristas pelo regime militar. Também fui perseguida. Esse ano encerramos o time. 1968 pra mim não acabou até hoje”, relembra.

Para além das quatro linhas, a meia reconhece a importância das mulheres se mobilizarem hoje em busca de espaço, independente de uma hierarquização camuflada ainda ditar socialmente quem deve fazer o quê:

“Hoje eu vejo uma grande valorização da mulher em qualquer setor. A mulher tem tido mais argumentação para se posicionar”, comemora.

Atualmente, quando pensa em futebol, lembra de Formiga, a jogadora de 41 anos ainda em atividade. Não à toa. A volante baiana é a única jogadora, entre homens e mulheres, a disputar sete mundiais. Ela é também a jogadora que vestiu mais vezes a camisa da Seleção e a mais velha a marcar um gol em Copas do Mundo. Brasileira, negra e discreta, como Raimunda, Formiga é um fenômeno exibido com orgulho, que a meia também poderia ter sido, se tivesse tido chance.

No domingo (9), a Seleção Brasileira venceu, com três gols de Cristiane, a seleção da Jamaica, que diferente do que disse o técnico brasileiro Vadão, em entrevista, fica na América Central, e não na África.

Antes da exibição da partida, o Coletivo Marias do Rio Grande do Norte, que busca dar visibilidade às discussões em defesa dos direitos da mulher, promoveu uma roda de conversa com a ex-jogadora, que mora numa clínica em Natal desde julho de 2011. A mineira tem dois filhos, um de 38 anos, que mora em Toronto, e outro de 28 anos, que vive em São Paulo. Esse último, gerado depois de Raimunda ser vítima de estupro.

Raimunda após o bate-papo promovido pelo coletivo Marias do RN, na Casa da Resistência

Embora seja difícil precisar as primeiras equipes de futebol feminino que surgiram no país, em razão da falta de documentos e fotos (há registros de times só de mulheres nos anos 1940), alguns relatos contribuem para que as jogadoras também tenham seu lugar na história salvaguardado, como dona Raimunda.

As marcas no rosto, em razão do tempo vivido, traduzem também os esforços de quem ousou tocar o futebol feminino num contexto social pouco preparado pra essa quebra de paradigma. Talvez o legado de Raimunda e sua turma não sejam conhecidos por muita gente. Mas ainda assim transformou a pequena escola onde estudava, os adversários homens com quem competiu e as ruas do município mineiro, hoje representadas pelas diversas – e ainda pouco conhecidas – equipes de futebol feminino que voltaram a surgir.

Histórico das proibições

1941 – No ano de criação do Conselho Nacional de Desportos, na época vinculado ao Ministério da Educação, instituiu-se um decreto-lei (3199, art 54) que proibia que mulheres praticasse esportes que não fossem adequado para elas. O futebol, mesmo sem ser citado de maneira clara, estava incluso.

1965 – Durante o regime ditatorial militar, o decreto-lei foi novamente publicado. Dessa vez, o futebol foi citado nominalmente como modalidade proibida para as mulheres.

1979 – A lei que proibia as mulheres de jogarem futebol foi revogada, mas as mulheres seguiram enfrentando proibições.

1983 – Nesse ano, a modalidade foi finalmente regulamentada. Dessa forma, foi permitido que as mulheres pudessem competir, criar calendários, utilizar estádios, entre outros. Também nessa época, surgira clubes profissionais pioneiros, como o Radar e Saad, de onde saíram anos mais tarde as principais jogadoras para compor a primeira Seleção de Futebol Feminina.

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