OPINIÃO

A nova doutrina (e o novo discurso) da direita

Em coletiva de imprensa (nesta quarta, 16) sobre o plano nacional de vacinação, do qual não constam garantias sobre as compras para formar os estoques de doses necessárias nem prazos para iniciar a imunização em massa da população, o presidente Jair Bolsonaro disse (descaradamente) que “desde o início” se preocupou com a pandemia do Covid-19. Os mitômanos que o seguem acreditam no novo discurso e no plano anunciado; vão celebrar o Natal e o Ano Novo em grupos sem qualquer controle eficaz anti-contágio. O cidadão que tem o sentimento de estar refém de um pesadelo chamado desgoverno, teme pelo futuro e ficará em casa.

Como esquecer o que foi dito – “é apenas uma gripezinha”, “e daí? um dia todos morrem, não sou coveiro” – por Bolsonaro no auge da pandemia? Não como gracejos, mas como expressões da mais firme convicção do que ele pensa ser seu papel, responsabilidade e dever como político e chefe do Estado brasileiro. Como ignorar ou considerar como “deslizes, mal-entendidos e distorções fora do contexto feitas pela imprensa” as reiteradas declarações do ministro Pazuello sobre as dificuldades para registros, dúvidas contra a eficácia e desnecessária urgência do Brasil em adquirir as vacinas?

Do “fatalismo” com que Bolsonaro pensa reafirmar a própria virilidade ao “anticientificismo” das ações, projetos e posições de parte considerável da equipe do atual governo (mais explícito no grupo próximo à família Bolsonaro), há uma linha ideológica ainda não de todo definida, mas coerente com uma visão de mundo negativa, destrutiva, anti humanista. O objetivo é um só:  minar as bases democráticas e liberais da sociedade, propondo um novo pacto social baseado na personalização da autoridade, no purismo político e no retorno aos valores das tradições quanto aos gêneros, ao sexo, ao conhecimento e à religião.

Exagero? Não, se considerarmos o quanto já foi possível implementar, via brechas legais e outras nem tanto, vários pontos de um programa conservador, autoritário e discriminatório na Educação, na Cultura, no Meio Ambiente, nas políticas de apoio às minorias e qualquer outra área que, de forma depreciativa, os seguidores desse governo consideram haver “muito mimimi”. Alarmismo? Sim, mas só se receamos analisar, denunciar e combater agora essas iniciativas por considerar que tudo não passa de esquisitices de malucos no poder e, em 2022, teremos oportunidade de tirá-los de lá.

Uma derrota eleitoral no futuro do presidente Bolsonaro não significará, necessariamente, uma vitória sobre os ideais que ele (acidentalmente) encarna no Brasil, assim como a derrota de Trump não representa nos EUA o fim das forças da corrente alt-rigth. A situação político-ideológica que permitiu personagens como Bolsonaro e Trump chegarem ao poder é bem mais complexa, tem raízes bem mais profundas e implicações que deverão perdurar além da atual geração de eleitores.

“Há uma frustração e uma insatisfação política que vai fazer com que essas pessoas (a classe média conservadora e intelectualizada, trabalhadores ameaçados pelas crises econômicas,  liberais frustados etc) continuem procurando ideólogos e pensadores que querem alternativas e mudanças radicais, que querem repensar nossa democracia. E isso pode acontecer via Tradicionalismo ou outra ideologia, mas eu acredito que continuaremos vendo essa tendência.”

É o que alerta o pesquisador da extrema direita e etnógrafo norte-americano Benjamin Teitelbaum, autor do livro Guerra pela eternidade (Editora da Unicamp. Entre R$ 52 e R$ 66, 288 páginas).

O Tradicionalismo (com T) é a ideologia difusa, pendular e paradoxal que, segundo Teitelbaum, tem inspirado governos de ultra direita ao redor do mundo. É uma ideologia, afirma ele, mais radical em suas concepções antimodernistas do que o próprio fascismo. “Há um elemento de destruição no Tradicionalismo que não necessariamente existe no fascismo”.

Em entrevista ao El País, Teitelbaum discorre de forma didática sobre sua teoria do Tradicionalismo e como essa é uma ideologia que “legitima desde o racismo até a propagação de teorias conspiratórias em relação à pandemia do coronavírus.” “O Tradicionalismo oferece uma motivação religiosa. E esse é um elemento importante. No caso de Olavo de Carvalho, por exemplo, ele não expressa apenas um ódio às elites, desprezo à ciência, à mídia, às universidades. Existe também a visão, um certo mandato espiritual, com o desejo de destruir grandes organizações, como a União Europeia, as Nações Unidas. A seus olhos, a destruição é uma coisa boa. Isso é assustador e preocupante”, afirma.

Entre estes e outros alertas, está o real perigo que o Tradicionalismo representa por ser subestimado como uma doutrina política, em parte pelo fato dos seus seguidores não atuarem como um grupo funcional e coordenado. Essa última característica explica, inclusive, as relações entre figuras como Olavo de Carvalho, Steven Bannon e Aleksandr Dugin. O primeiro dispensa apresentações; o segundo foi crucial para a campanha e os primeiros anos de Trump na Casa Branca, até ser preso por desvio de fundos do governo; o terceiro é o guru de Vladimir Putin.

Para saber mais, recomendo ler a entrevista (link abaixo) e, se possível, o livro.

https://brasil.elpais.com/brasil/2020-12-12/benjamin-teitelbaum-destruicao-e-a-agenda-do-tradicionalismo-a-ideologia-por-tras-de-bolsonaro-e-trump.html#?sma=newsletter_brasil_diaria20201214

 

 

 

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