OPINIÃO

A pós-verdade e as mentiras na política

Em 2016 o Dicionário Oxford definiu ‘pós-verdade’ como a palavra do ano. Ela era usada para referir-se às “circunstâncias na qual os fatos objetivos têm menos influência na formação da opinião pública que aquelas que apelam para a emoção e à crença pessoal”. Pós-verdade se refere ao fato de que a verdade já não é mais importante.

Em tempos de pandemia é importante distinguir o que é falso do que é verdadeiro, até porque mentiras podem ter consequências trágicas, como, entre outros exemplos, afirmar, defender e estimular uso de remédios sem qualquer eficácia e base cientifica, profilaxias inócuas para o vírus como cloroquina e ivermectina ou estupidez sobre ineficácia de vacinas (como a da possibilidade de conter um chip…) e tornam-se muito mais danosas quando são ditas e defendidas por autoridades que deveriam dar o exemplo oposto, de sensatez, equilíbrio e se de pautar pela ciência, até porque o que diz influencia seus seguidores. E, como se sabe, para um público leigo, sem educação científica, crenças influenciam mais do que evidências ou argumentos racionais. Acrescente-se, nessa aspiral da estupidez, a anticiência, o negacionismo climático e as teorias da conspiração.

Em meio a tantas mentiras e desinformação, o que isso tem a ver com a pós-verdade? No artigo A arte de manipular multidões: Técnicas para mentir e controlar as opiniões se aperfeiçoaram na era da pós-verdade, publicado no dia 28 de agosto de 2017 o jornalista espanhol Álex Grijelmo, autor do livro La Información del Silencio. Cómo se Miente Contando Hechos Verdaderos (A Informação do Silêncio. Como se Mente Contando Fatos Verdadeiros) afirma que a chamada era da pós-verdade é na realidade a era do engano e da mentira e que “a novidade associada a esse neologismo consiste na popularização das crenças falsas e na facilidade para fazer com que os boatos prosperem. A mentira dever ter uma alta porcentagem de verdade para ser mais crível. E terá ainda maior eficácia a mentira composta totalmente por uma verdade. Parece uma contradição, mas não é”. (https://brasil.elpais.com/brasil/2017/08/22/opinion/1503395946_889112.html

E analisa como isso pode acontecer, ou seja, como a mentira se configura: “Hoje em dia tudo é verificável e, portanto, não é fácil mentir. Mas essa dificuldade pode ser superada com dois elementos básicos: a insistência na asseveração falsa, apesar dos desmentidos confiáveis; e a desqualificação de quem a contradiz. E a isso se soma um terceiro fator: milhões de pessoas prescindiram dos intermediários de garantias (previamente desprestigiados pelos enganadores) e não se informam pelos veículos de comunicação rigorosos, mas diretamente nas fontes manipuladoras (páginas de Internet relacionadas e determinados perfis nas redes sociais)”.

Para ele, esse tipo de inquisição contribui para formar uma espiral do silêncio “que acaba criando uma aparência de realidade e de maioria cujo fim consiste em expulsar do debate as posições minoritárias. Nesse processo, as pessoas se dão conta logo de que é arriscado sustentar algumas opiniões, e desistem de defendê-las, para maior glória da pós-verdade, da pós-mentira e da pós-censura. Assim, o círculo da manipulação fica fechado”.

São muitos os exemplos de como isso ocorre. Ele cita dois que são emblemáticos porque tiveram impactos significativos, levando milhões de pessoas a acreditarem que fosse verdade: os exemplos são o uso de mentiras nas eleições dos Estados Unidos em 2016 e na votação do Brexit no Reino Unido. Nos Estados Unidos, dá como exemplo uma das afirmativas do mitômano Donald Trump que em sua campanha eleitoral de 2016 afirmou que Barak Obama era muçulmano e tinha nascido no estrangeiro e no Reino Unido cita a propaganda em defesa do Brexit que afirmava que com sua aprovação o Serviço Nacional de Saúde teria por semana 350 milhões de libras (1,4 bilhão de reais) adicionais. Foi apenas uma das muitas mentiras, na campanha a favor da saída da União Européia, como a massiva propaganda para culpar imigrantes como se todos fossem parasitas ameaçadores que privariam os britânicos de moradias, escolas, empregos etc., assim como mentiras de que o país não controlava suas fronteiras. Como diz Matthew D’ancona foi à política da pós-verdade em seu estado mais puro: o triunfo visceral sobre o racional, do enganosamente simples sobre o honestamente complexo“(Pós-verdade: a nova guerra contra os fatos em tempos de fake news”, Faro editorial, 2018).

Nos Estados Unidos o The New York Times fez alguns levantamentos das falsidades difundidas pelo então presidente Donald Trump. Só em janeiro de 2017, primeiro mês de governo já havia constatado 99 mentiras. No livro A morte da mentira : notas sobre as mentiras da era Trump (Editora intrínseca, 2018), Michiko Kakutani diz Trump “mente de forma tão prolífica e com tamanha velocidade que o Washington Post calculou que ele fez 2.140 alegações falsas ou enganosas no seu primeiro ano de governo – uma média de 5,9 por dia” e continuou mentindo ao longo do mandato, até o final do governo, como quando foi derrotado nas eleições de 2020 e disse, sem qualquer prova, que tinha havido fraudes nas urnas (aliás, mentiras que foram repetidas por outros que como ele, sem apresentar uma única prova nesse sentido).

Matthew D’ancona argumenta que a mentira está intimamente ligada à política, e tem sido ao longo da história, objeto de reflexões de muitos especialistas (psicanalistas, filósofos, cientistas políticos, etc.,) e que hoje se potencializa com o desenvolvimento tecnológico, a expansão e influência das redes sociais e que na chamada pós-verdade, crenças e convicções têm se sobreposto aos fatos: “Na longa decadência do discurso público que conduziu à era da pós-verdade, a classe política e o eleitorado conspiraram em favor da degradação e debilitação do que dizem um ao outro. Promessas irrealizáveis são compatibilizadas com expectativas absurdas; os objetivos inalcançados são ocultados pelo eufemismo e pela evasão; o hiato entre retórica e realidade gera desencantamento e desconfiança. E em seguida, o ciclo recomeça. Quem ousa ser honesto? E quem ousa dar importância a honestidade?”.

Nas eleições de 2018 no Brasil houve também o uso sistemático de mentiras na campanha eleitoral, entre outras, sobre o chamado kit gay e mamadeira em forma de pênis, duas grandes mentiras que certamente influenciou parte do eleitorado.

É fato, como diz Grijelmo que hoje a tecnologia permite usar a mentira de forma muito mais eficaz, como, entre outros exemplos, manipular digitalmente documentos e imagens. Mas há também outros aspectos relevantes nesse processo de manipulação destacado por ele que é a omissão ou o silenciamento. Para ele “a mentira sempre é arriscada, e requer formas muito potentes para sustentar-se e que por isso as técnicas de silêncio costumam ser mais eficazes: emite-se uma parte comprovável da mensagem, mas se omite outra igualmente verdadeira. Há também o uso da insinuação: “Não é preciso usar dados falsos. Basta sugeri-los. Na insinuação, as palavras e imagens expressadas se detêm em um ponto, mas as conclusões inevitavelmente extraídas delas vão muito mais além. O emissor, entretanto, poderá se defender afirmando que só disse o que disse que só mostrou o que mostrou. A principal técnica da insinuação na imprensa parte das justaposições: ou seja, uma ideia situada ao lado de outra sem que se explicite a relação sintática ou semântica entre ambas. Mas sua contiguidade obriga o leitor a deduzir uma ligação”.

E dá como exemplo o que ocorreu em 4 de outubro de 2016 quando Iván Cuéllar, goleiro do Sporting de Gijón, saía do ônibus de sua equipe para jogar no estádio Riazor. Recebido com vaias pela torcida do La Coruña, Cuéllar parou e olhou fixamente em direção aos torcedores. A câmera só enfocou ele, o que levava à dedução de uma atitude desafiadora diante das vaias. E a situação foi apresentada dessa forma em um vídeo de um veículo de comunicação asturiano. Dessa forma, foram mostrados, justapostos, dois fatos: a torcida rival que vaiava e o jogador que olhava fixamente em direção aos torcedores. Não demorou a chegar á acusação de que Cuéllar havia sido um provocador irresponsável. Ocorreu algo que aquelas imagens não mostraram: entre os torcedores, uma pessoa havia sofrido um ataque epilético e isso chamou a atenção do goleiro do Sporting, que olhou fixamente nessa direção para comprovar que o torcedor estava sendo atendido (pelo próprio serviço médico do clube). Ao verificar que o atendimento foi feito, seguiu seu caminho. Tanto a presença dos torcedores como suas vaias e o olhar do jogador foram verdadeiros. “A mensagem, entretanto, foi alterada – e, portanto, a realidade percebida – ao se justapor os acontecimentos ocultando um fato relevante”.

Há também a pressuposição e o subentendido que “possuem traços em comum, e se baseiam em dar algo como certo sem questioná-lo”, assim como a falta de contexto que contribui para manipular os fatos “Nessa falta de dados de contexto se pode incluir a omissão cada vez mais habitual das versões e das opiniões – que deveriam ser recolhidas com neutralidade e honestidade – daquelas pessoas atacadas por uma notícia ou opinião”.

Outro componente importante é o emocional, usado para reforçar preconceitos, manipular emoções como o medo (da violência, do comunismo, etc.,) que são muito eficientes e praticadas não apenas em períodos eleitorais.

Em relação ao uso da mentira na política, no livro Entre o passado e o futuro (São Paulo, Editora Perspectiva, 1997) a filósofa alemã Hannah Arendt (1906-1975) e mais especificamente no ensaio Verdade e política, trata da política da perspectiva da verdade. Para ela “a verdade factual não é mais auto-evidente do que a opinião, e essa pode ser uma das razões pelas quais os que sustentam opiniões acham relativamente fáceis desacreditar a verdade factual com simplesmente outra opinião” (p.301) e que “A veracidade nunca esteve entre as virtudes políticas e mentiras sempre foram encaradas como instrumentos justificáveis pelos governantes”.

No artigo A mentira na política e o ideário fascista, publicado no jornal o Estado de S. Paulo no dia 11 de abril de 2019, Eugenio Bucci, jornalista e professor da Escola de Comunicação da USP (ECA) se refere a “Uma indústria das mentiras”, como afirmar que o nazismo era de esquerda e que a tomada do poder pelos militares em 1964 não foi um golpe de Estado e sim uma Revolução. Para Bucci as “mentiras não são infâmias isoladas, pronunciadas por alguém que aposta na polêmica. Associadas umas às outras, elas cumprem um papel que não é gratuito, nem casual, nem humorístico: servem para desmoralizar os direitos humanos, a cultura da paz e a normalidade institucional numa democracia. Vieram o público para promover um ideário, hoje anacrônico, tosco e iletrado, mas renitente: o ideário do fascismo”.

E nesse sentido, o papel das redes sociais é fundamental na difusão desse ideário e de mentiras e manipulações. Se por um lado, como diz Lucia Santaella “não se pode haver dúvida de que as tecnologias das redes digirais abriram caminhos para a democratização do uso e consumo das mídias, mudando sobremaneira o que, na era pré-redes, se costumava chamar de espaço público e formação de opinião”(A pós-verdade é verdadeira ou falsa?”(Editora Estação das Letras e Cores, 2018), por outro, como disse Umberto Eco a web e as redes sociais deram direito de falar a legiões de idiotasque antes não tinham voz, ou seja, a tecnologia possibilitou a ampliação do seu alcance, e é usada não apenas pelos que não tinham voz, como por tiranos, governantes autoritários, populistas e seus seguidores no sentido de manipular, mentir e agredir quem discorda deles.

No artigo “O império da pós verdade” publicado no dia 25 de abril 2017 (revista Época) Teresa Perosa analisa, entre outros aspectos, o papel das fake news, afirmando que as noticias falsas transformaram “em verdadeira indústria de alta produtividade, tornando-se terreno fértil para o império da pós-verdade e destaca alguns fatores, entre eles, a alta polarização política que impossibilita o debate racional e abre espaço para todo tipo de mentiras e manipulação. Ela destaca também o papel da emoção: “Como mostra a ciência da psicologia, o ser humano, por sua própria natureza, é inclinado a reagir mais com base na emoção do que na razão. Essa tendência associada à crescente polarização política das sociedades contemporâneas tornou mais complicado o exercício do debate público e da construção do consenso nos fóruns políticos”. (https://epoca.globo.com/mundo/noticia/2017/04/o-imperio-da-pos-verdade.html).

Sobre as redes sociais, o jornalista peruano Fernando Berckemeyer afirmou, com razão, na revista Uno n.27 (março de 2017) que “As redes sociais deram megafone e audiência, no debate público, a milhões de pessoas que, antes, podiam participar dele apenas dentro dos alcances limitados de suas casas, trabalhos e bairros. Pessoas que, hoje em dia, podem colocar-se em contato, em tempo real, com todos aqueles que pensam – ou não pensam – da mesma forma que elas e criar verdadeiras “tendências” de opinião, capazes de mudar os rumos do debate público“(https://www.revista-uno.com.br/numero-27/a-mentira-da-pos-verdade/).

O problema é que, mesmo emitidas no anonimato, quando mentiras são tornadas públicas e questionadas, ou como diz Grijelmo “se manifesta à margem da tese dominante recebe uma desqualificação ofensiva que serve como aviso para outros navegadores”, e assim, “a censura já não é exercida nem pelo Governo nem pelo poder econômico, mas por grupos de dezenas de milhares de cidadãos que não toleram uma idéia discrepante, que se realimentam uns com os outros, que são capazes de linchar quem, a seu ver, atenta contra o que eles consideram inquestionáveis, e que exercem seu papel de turba mesmo sem saber muito bem o que estão criticando”.

Creio que isso resume bem o grande desafio de se combater, com eficácia, a “pós-verdade”, ou seja, mentiras, desinformação, não apenas, mas especialmente na política, e mais ainda quando associadas à ignorância e preconceitos.

 

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