DEMOCRACIA

A preescrição de Ivermectina pode levar à flexibilização do isolamento social e aumento de mortes, alerta Spinelli

Um dos principais porta-vozes do governo do Rio Grande do Norte no combate a Covid-19, o médico e secretário-adjunto de Saúde Pública Petrônio Spinelli se disse “extremamente preocupado e surpreso” com declarações públicas recentes do prefeito de Natal Álvaro Dias e do presidente do Sindicato dos Médicos do Rio Grande do Norte Geraldo Ferreira Filho, orientando a população a se automedicar com Ivermectina e Hidroxicloroquina na contramão de órgãos sanitários reconhecidos no Brasil e no mundo, a exemplo da Agência Nacional de Saúde (Anvisa) e da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Nesta entrevista à agência Saiba Mais, Spinelli critica as declarações não apenas por partirem de profissionais de saúde, mas de autoridades com repercussão na cidade. Ele afirma que ainda não está seguro de que há um controle sobre a tendência de redução na taxa de ocupação dos leitos de UTI no Estado. E pede para que a população se mantenha alerta, respeitando o isolamento social e não use medicamentos como Ivermectina ou cloroquina.

Confira a entrevista:

Agência Saiba Mais: Como o viu as declarações do prefeito de Natal Álvaro Dias e do presidente do Sindicato dos Médicos, Geraldo Ferreira, defendendo o uso da Ivermectina no combate a Covid-19?

Petrônio Spinelli: Eu vejo com extrema preocupação e de, certa forma, com ingrata surpresa. Uma coisa é o médico na sua relação médico/paciente acreditar numa determinada terapêutica e passar para o paciente e o paciente tomar mesmo sabendo que as evidências científicas não são suficientes para dar segurança que aquela medicação vai agir naquela doença. Mas quando se trata de autoridades, sejam sindicais ou públicas, isso é de uma repercussão muito maior e com gravidade de potenciais em dois aspectos.

Quais ?

Primeiro, o que mais preocupa, é propagandear uma cura de uma coisa – ou redução de risco – que não está comprovada cientificamente. Do ponto de vista científico a própria Anvisa desautorizou o uso da Ivermectina e consequentemente colocou cientificamente que não existem estudos suficientes para garantir a eficácia médico e terapêutico. A segunda é que autoridades falando isso pode criar – e aí mora o grande perigo do problema – uma falsa sensação de segurança, e realmente minar a única coisa o que o mundo todo comprova que é eficiente no combate ao Coronavírus, que é o isolamento social. Tem que lembrar que o isolamento social é mais que uma atitude normativa de decretos, é muito mais uma ação psicológica e social da sociedade que qualquer sensação de segurança pode levar ao relaxamento com consequências nefastas e imprevisíveis para a saúde pública e para a mortalidade das pessoas.

Essa orientação para o uso da Ivermectina, do ponto de vista médico, já que tanto o prefeito como o presidente do Sinmed são médicos não é uma precipitação, até mesmo uma irresponsabilidade?

Na verdade, como eu disse, mais do que uma atitude de médicos, é uma atitude de autoridades que vão para público defender as posições como posições oficiais o que consequentemente pode sim levar uma ação de flexibilização, de relaxamento da população, minando o principal instrumento de combate ao Coronavírus, que é o isolamento social. Se você analisar por esse ângulo, sim, tem uma responsabilidade muito grande, uma consequência gigantesca. Uma autoridade tem sempre que pensar que suas atitudes não são individuais, elas representam sim um risco com consequências que podem ser extremamente nefastas aumentando a possibilidade do relaxamento social, consequentemente o número de pessoas que vão adoecer de forma grave, impactando inclusive na taxa de mortalidade.

Tendo em vista que em termos científicos não se tem estudos sobre a eficácia desse medicamento no combate a Covid-19, qual a recomendação do senhor como médico ?

Como médico quero dizer à população que eu não preescrevo Ivermectina nem hidroxocloroquina ou cloroquina para a Covid-19. As ações têm que ser de vigilância e principalmente de prevenção para evitar que as pessoas se contamine. Agora respeito, óbvio, que o médico que decide apostar nessa terapêutica e faz isso de forma individual na relação médico/paciente, não publicizando nem generalizando para toda uma população. Essa é uma questão fundamental como médico. Minha preocupação aqui não é se medicação A, B ou C tem algum tipo efeito. Com todas as dúvidas colocadas pela Avisa e por várias autoridades e cientistas, mas não entro nesse mérito. Para mim, a preocupação maior, é criar nessas prescrições uma falsa ilusão de segurança e levar à ruptura do isolamento social, aí sim com consequências imprevisíveis e nefastas.

Me parece oportunista a fala do prefeito de Natal na hora em que o Governo anuncia a baixa ocupação de leitos em todo o estado. O senhor concorda?

Olha, eu não vou fazer julgamento de valor, quais são os motivos que levam o prefeito a tomar atitudes que são no mínimo precipitadas e sem base científica pelo menos em cima dos dados que eu tenho. Mesmo considerando que esse é um ano eleitoral e que isso poderia estar levando algum tipo de dividendo eleitoral sob um risco muito grande. O que chama a atenção é que os dados epidemiológico devem ser analisados na evolução da própria doença. Cada medida que for tomada que leve a um nível de flexibilidade da mobilidade social precisa ser avaliada com muito rigor e com período considerando o ciclo da doença. Então qualquer coisa que se avalie com menos de 10 dias é muito precipitado e pode levar a decisões equivocadas com consequências graves. Então não vou entrar no mérito… o que é que motiva o prefeito.. eu queria até entender, já que ele é médico e já que ele tem um comitê técnico que também assessora ele, com alguns profissionais de um nível de compreensão e de gabarito muito alto. Isso é muito estranho, esse dado de taxa de ocupação e índice de transmissão tem que se mostrar sustentável. Não é uma taxa num dia ou no outro suficiente para analisar. O ideal é que se analise como tendência de uma semana tanto a taxa de ocupação como a de transmissibilidade. Até para poder achar que a situação está sob controle. Eu mesmo não tenho segurança que existe uma tendência de baixa sustentável. Precisamos aguardar as próximas horas para ter certeza que as medidas tomadas há 14 dias não tiveram impacto para não ter um cenário tão favorável como nós queremos e esperamos.

O senhor vem ressaltando nas coletivas do Governo a necessidade de se manter o isolamento social, mesmo diante da flexibilização da economia. Por que o senhor entende que o isolamento social ainda é o mais viável neste momento em que muitas cidades no Brasil e no exterior já adotam uma flexibilização maior?

Essa pergunta, apesar de ser fácil de responder, reporta uma questão extremamente complexa: qual é a viabilidade, a forma e a essência do combate ao Coronavírus que cada país tomou em razão da sua realidade social. O Brasil fez um opção terrível em função da sua dificuldade social e de um governo central que subestima a doença e que coloca os interesses econômicos acima dos interesses da saúde pública. Então essa decisão levou a gente trabalhar pela lógica da imunidade de rebanho, e não na lógica de bloqueio da epidemia. Essa explicação dá luz à compreensão de que porque o Brasil é o segundo país em número de mortes em detrimento de outros países menores ou grandes, como China ou Cuba, que conseguiram fazer o bloqueio da doença, e não a imunidade de rebanho. Esse é um aspecto importante, mas objetivamente independente da opção, viável em algumas cidades, a ação mais importante é o isolamento social, a restrição da mobilidade, a redução da taxa de transmissibilidade. A “flexibilização”, ou seja, as retomadas, não podem ser confundidas com flexibilização social. Na verdade, quando se abre determinado comércio, é para a pessoa só usar aquilo que for imprescindível e mesmo assim com todos os cuidados, não é uma autorização para a flexibilização geral da sociedade, para o oba opa, para o “abre tudo” nem para o relaxamento das prevenções. Temos que lembrar que essa doença é muito grave e que mesmo que as pessoas doentes diminua, uma faixa dessas pessoas terão a doença grave e vão morrer. Por isso nossa responsabilidade é muito grande e insisto, com muita veemência, para as pessoas ficarem em casa, só saírem se for imprescindível, usarem máscara sempre que saírem e protegerem seus idosos e vulneráveis.

Que o recado daria hoje para população?

É um recado muito claro: além do tradicional “fique em casa, use máscara, proteja seus idosos e vulneráveis” é imaginar que a população deve tomar para si a consciência da responsabilidade do Coronavírus, independente do que tiver nos decretos. Esses decretos tem uma ação geral para a sociedade, mas se cada cidadão tomasse conscientemente a ação do combate ao coronavírus nas suas mãos, com certeza, independente dos decretos, a gente teria um aumento na evolução do combate a essa pandemia. Então cada um tem seu papel individual e coletivo, já que minha atitude protege ou desprotege a mim e a sociedade aos meus entes queridos. Então o recado é: faça de você a estratégia também do combate ao Coronavírus a partir das ações individuais.

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