TRABALHO

A reforma trabalhista piorou as condições de vida antes da pandemia, destaca diretora do Dieese

Uma grande parte dos trabalhadores formais e informais tiveram, durante o período de pandemia, perdas nos seus postos de trabalho. Como consequência da necessidade do isolamento social, o setor comercial necessitou passar por adaptações. Com isso, além da precarização nas condições trabalhistas, muitos desses trabalhadores necessitaram sair do mercado de trabalho, ou seja, suspenderam a procura por emprego. Precarização que tem efeito direto na vida dos trabalhadores agravada pela reforma trabalhista, em vigor desde novembro de 2017.

No Rio Grande do Norte, aproximadamente, 16 mil pessoas tiveram suas atividades formais dispensadas no período de janeiro a junho de 2020. Em todo o país, o número ultrapassou 1,2 milhão de demissões no mesmo período.

No entanto, o estado potiguar se destacou em junho como um dos estados que mais abriu vagas com carteira assinada em relação aos demais estados do Nordeste. Foram 1.679 empregos formais gerados. No mesmo período, a Paraíba ofertou apenas 58 oportunidades de trabalho e o Ceará perdeu 1.740 empregos com carteira assinada.

Os dados são do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do Ministério da Economia.

Em entrevista ao Programa ContraFluxo, a supervisora técnica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) Lilian Marques se surpreendeu com a recuperação do Rio Grande do Norte, principalmente levando em conta o resultado negativo dos estados vizinhos. Ela acredita, no entanto, que o início da flexibilização dos medidas de distanciamento social, com a reabertura gradual do comércio no Estado, tem relação.

Lilian também destaca que o auxílio-emergencial de R$ 600 conseguiu evitar uma explosão de desemprego no Estado. No estado potiguar, segundo o IBGE, mais de 50% das famílias acessaram o benefício, o que fez muitos trabalhadores permanecerem em casa, suspendendo a procura por uma vaga de trabalho. Quando as parcelas do auxílio forem interrompidas, a especialista prevê uma mudança nesse quadro, com o retorno de muitos trabalhadores ao mercado e com dificuldade para encontrar uma vaga.

“A taxa de desemprego só não está maior porque muita gente saiu do mercado do trabalho por medo da pandemia. Alguns receberam o auxílio emergencial e outros não estão buscando devido não ter oferta de emprego. A busca por emprego tem alto custo, e a pessoa não vai gastar com alimentação e passagem para buscar emprego”, afirmou.

Apesar da tragédia social e econômica provocada pela pandemia, Lilian Marques lembrou que a precarização do trabalho no Brasil foi agravada antes da maior crise sanitária do século, com a reforma trabalhista. Para ela, em razão da reforma, que teve como relator o ex-deputado federal potiguar e atual ministro do Desenvolvimento RegionalRogério Marinho, os efeitos da pandemia provocaram ainda mais prejuízo aos trabalhadores:

“A precarização no trabalho aumento muito, principalmente após a reforma trabalhista. Essa reforma permitiu uma série de contratações precárias, terceirização em qualquer setor. Se uma empresa vai contratar alguém, será em cima das novas regras, o que implica que ela pagará menos por jornada proporcional”, esclareceu.

Teletrabalho

Lilian também citou que o aumento do teletrabalho durante a pandemia teve efeito, principalmente, entre empregados com melhores condições financeiras. A maioria, que ganha um salário mínimo ou próximo desse valor, segue pegando transporte público e se expondo aos perigos do novo Coronavírus:

“O isolamento do teletrabalho tem um recorte de renda. É internet, mesa, um computador para executar o trabalho. Infelizmente, a maioria dos trabalhos de baixa renda é braçal, como o trabalho doméstico”, pontuou.

Além disso, a técnica do Dieese chamou a atenção também para o serviço de entregadores de deliverys cadastrados em plataforma de entrega online. Nesse setor, os trabalhadores não possuem quaisquer assistências, seja em relação à segurança de vida ou uma remuneração adequada. Lilian Marques adiantou inclusive que o Dieese já vem acompanhando a categoria para orientar os trabalhadores sobre formas de organização, seja via sindicatos ou associações.

Segundo ela, há uma divisão visível nesse segmento que conta com trabalhadores que se reconhecem como vítimas da exploração do mercado enquanto outros se veem como empreendedores, apesar da falta de direitos e garantias trabalhistas:

“São pessoas que saem para trabalhar, mas sem saber nem a perspectiva de quantas entregas irão realizar. Além de não ter uma assistência da empresa caso algo aconteça, como um acidente”, esclareceu.

O programa Contrafluxo foi exibido nesta terça-feira (11) e está disponível no Youtube.

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Allan Almeida
Jornalista potiguar em formação pela UFRN.

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