ENTREVISTA

“A saída de jornalistas das redações da mídia corporativa para a independente será comum”, prevê Sérgio Miguel, da Marco Zero Conteúdo

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A semana “Manual de Sobrevivência da Mídia Independente e Alternativa”, em comemoração aos 3 anos da Agência Saiba Mais, terminou hoje (5) com uma conversa bem nordestina entre Sérgio Miguel Buarque, co-fundador da Marco Zero Conteúdo, sediada em Recife (PE), e Michelle Ariany, uma das fundadoras do site Elo Jornal.

“Fazer jornalismo independente não é fácil”. A frase é de Sérgio Miguel, mas foi dita de diferentes formas por, praticamente, todos os convidados que participaram dos debates realizados essa semana. Uma das dificuldades em comum entre os veículos potiguares e os vizinhos de Recife, é o difícil acesso a recursos. “Fazer jornalismo não é fácil! Ainda mais no nordeste, na periferia do sistema, com menos acesso a recursos e financiamentos! Sobreviver esses três anos é um feito importante que merece ser comemorado, ainda mais da forma que foi, trazendo gente de peso, pessoas inspiradoras e debatendo, já que o momento não tá muito pra festa. Isso ajuda muito a fortalecer”, parabenizou o jornalista.

No caso do Elo Jornal, criado por estudantes do curso de Jornalismo da UFRN em 2017, a situação não foi diferente. O site foi fundado contando com a boa vontade dos amigos, que continuam colaborando até hoje.

A ideia era criar um espaço para colocar o material que produzíamos, diante das dificuldades de entrar no mercado. O site cresceu, justamente, no período da pandemia. Depois vieram as lives, que deram uma visibilidade bacana, mas, infelizmente, ainda não conseguimos ter uma renda. O site é mantido por nós mesmos. É uma batalha, mas sabemos que estamos no caminho certo”, relata Michelle.

Já o Marco Zero foi criado por jornalistas bem experientes, vindos das redações da mídia corporativa. Alguns com cargos de chefia e outros até com prêmios no currículo:

“A união entre esses diferentes profissionais veio da insatisfação com o jornalismo praticado na mídia corporativa, da crise no modelo de negócio que não funcionava e, que além da ameaça do desemprego, gerava queda na qualidade do produto. Não havia mais aquelas reportagens de qualidade e muitos jornais estavam fechando. Já víamos que aquele modelo não tinha futuro. Era preciso resgatar a função social do jornalismo. Desde o início tomamos algumas decisões que devem ter muito a ver com quem tá começando, que é fazer um projeto coletivo, uma organização sem fins lucrativos, o que não era muito comum na época (2015), mas vimos que fora do Brasil já funcionava dessa forma. A Agência Pública também nos ajudou muito”, conta Sérgio sobre os primeiros passos do Marco Zero, que tornou a Agência uma referência.

Planejamento

Saber onde estavam pisando foi importante para criar a infraestrutura sobre a qual a Marco Zero foi construída.

“A gente não tinha experiência de gestão e tivemos que aprender muito rápido. Não aceitamos publicidade do estado, nem de empresas privadas. A gente achava que era uma maneira de reafirmar nossa independência, também no setor econômico. Não acreditávamos nesse modelo de negócio baseado na publicidade e sabíamos que era preciso diversificar nossas fontes de recursos. Todo mundo trabalhou voluntariamente no início. Só em 2017, o grupo conseguiu apoio institucional e montou uma estrutura com redação, contratou repórteres. No começo a gente só buscava recursos para jornalistas, mas decidimos contratar uma consultoria que é referência em terceiro setor. Seguramos um pouco aquela ânsia de produzir conteúdo para que possamos produzir de forma mais duradoura e consistente”.

O papel da universidade

Pra quem se formou pensando em virar peão de redação, se depara agora com um novo momento, de desafios e possibilidades. Mas, será que as universidades tem preparado os estudantes pra isso? Em Pernambuco, tem nascido algumas iniciativas interessantes.

“Temos uma relação muito próxima com a universidade e temos sentido essa mudança. Queremos disputar esses jovens que saem de lá e antes só tinham a opção de um jornal, tv ou rádio. Em 2017 abrimos edital para 2 vagas e tivemos uma repórter que saiu da mídia corporativa para trabalhar conosco. Esse é um movimento que vai ser muito comum daqui a alguns anos, diferente da nossa geração. Nossa presidente é coordenadora do curso de pós-graduação em jornalismo independente da Universidade Católica de Pernambuco. É o primeiro voltado pra jornalismo independente e o currículo foi muito montado em cima das experiências do Marco Zero. A gente sabe da importância dessa nova formação. Também temos parceria com a Universidade Federal e com a Universidade de Caruaru. Tentamos nos aproximar para aprender e ajudar às pessoas que estão na universidade. Mas eu entendo essa questão da dificuldade que a universidade tem em não acompanhar as mudanças. Ela não pode seguir a velocidade e a moda dos mercados. O conhecimento científico exige tempo”, avalia Sérgio, que também falou sobre a necessidade de uma formação preocupada com a leitura crítica da mídia, da sociedade, para que os profissionais tenham ferramentas para o diálogo e para a construção do conhecimento.

Diversidade

Outro ponto levantado durante o bate-papo foi a diversidade dentro das redações, para que haja um jornalismo mais próximo das pessoas. “Nessa relação com a universidade o que a gente observa é o resultado da política de cotas. Quando eu estava na redação de um certo jornal, em determinado momento, os repórteres que trabalhavam comigo eram todos brancos, de classe média, não andavam de ônibus, tinham uma visão muito estreita do que acontece na sociedade. Acho que esse movimento de jovens que estão produzindo conteúdo, narrando suas histórias a partir dos seus territórios vai contribuir muito para o jornalismo. Muitos já faziam isso fora da universidade e, agora, estão chegando ao ensino superior. Fico muito feliz quando vou numa turma de jornalismo e encontro as meninas negras, iradas, de periferia, com posição”, disse, empolgado, o jornalista pernambucano.

A semana “Manual de Sobrevivência da Mídia Independente e Alternativa” começou na última segunda (31) e também contou com a participação de Leandro Demori (The Intercept Brasil), Jana Sá (Contrafluxo), Carolina Oms (Azmina), Lara Paiva (Brechando), Laura Capriglione (Jornalistas Livres), William Robson (Agência Moscow), Kátia Brasil (Amazônia Real), Edna Ferreira (Nossa Ciência), Pedro Borges (Alma Preta) e Venâncio Pinheiro (Casa de Mídia).

Redes Sociais dos entrevistados:

@marcozeroconteudo
@michellearian
@elojornal

Assista na íntegra a entrevista com o jornalista do Marco Zero Conteúdo Sérgio Miguel Buarque

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