OPINIÃO

A saudade como presença

Não é vestígio, a saudade. É cunho. Cada relevo faz doer a linha opressa ainda pelo paciente estudo com que o tato da sapiência a guia.

Tacto unilateral. Cujo percurso institui a ciência no sombrio reino onde a efígie ordena o mundo do peso do fenômeno e do brilho.

E, além, se acaso se vislumbra o acto de pensamento que oprimiu o cunho, apaga-se o relâmpago do tacto

na repentina incendiação do punho.

E o relevo da linha se incendeia.

Arde a saudade em seu clarão de ideia.

(11ª lição. Fernando Echevarría)

Tendo dedicado os últimos anos ao estudo dos vários sentidos atribuídos ao sentimento da saudade, às mutações históricas de sua significação, dos rituais e das práticas em que esse sentimento se expressa, eis que sou colocado diante de um ritual que tem a saudade como tema e que tem a mim como o agente e o sujeito, na dupla acepção do termo, das manifestações saudosas. Diante disso, creio que sou convocado, hoje, a deixar de dizer o que é a saudade, o que significa sentir saudade para um ou outro personagem, para falar da minha própria concepção sobre e da minha própria relação com esse sentimento. Iniciei citando esse poema de Fernando Echevarría pois ele resume o que seria minha própria maneira de entender e de me relacionar com a saudade. A saudade normalmente é associada à perda e à ausência. A saudade adviria do fato de que nós humanos não lidamos bem com o perder, com o ausentar-se das coisas e dos outros. Para Freud, o humano se define pelo apego. Como um dos seres mais frágeis e desamparados que a natureza deu origem, nós humanos descobrimos cedo nossa dependência do outro para poder sobreviver. Apegados à própria vida, apego fundante de nosso próprio ser, desde cedo descobrimos que para nos mantermos vivos precisamos de outros que nos cuide, nos proteja, nos alimente, nos torne humanos. É dessa necessidade do outro, do apego ao outro que surge o amor. Como seres sociais que somos, estar junto ao outro é a condição necessária e inultrapassável de nossa existência. Disso resulta o caráter traumático que pode ter para nós a perda do objeto de nosso amor. Ficar sem o outro, ver o outro se ausentar, ver o outro deixar de ser objeto de nosso amor e desejo pode acarretar, inclusive, mágoa, raiva, ódio e hostilidade. Mas, normalmente é a essa perda do outro, é a essa ausência do outro que se dirigem nossas saudades. A saudade seria um sentimento nascido da recusa em perder, em aceitar a ausência do outro, uma tentativa de capturar ou salvar algo ou partes desse objeto de desejo e de amor que se retira. Daí, porque, para muitos, a saudade seja da ordem do vestígio, a saudade remeteria aos restos, às sobras, ao que sobreviveu de uma dada relação de amor, de afeto, de desejo, às sombras de uma presença que se desvanece com o tempo. Nessas formulações, as saudades remeteriam para a faculdade da memória, aquela que teria a tarefa de recolher e guardar os vestígios de um objeto amado, que os faria durar no tempo. A saudade saudosista normalmente é pensada como esse museu em que traços e troços de coisas e pessoas mortas ou ausentes são recolhidos e guardados como restos que boiam após um naufrágio. Nessas formulações, na saudade se enfatiza a perda, a ausência, o caráter destrutivo do passar do tempo. Essas maneiras de viver a saudade a toma como antídoto contra a história, contra a finitude, contra o caráter corrosivo do passar do tempo. A saudade paralisaria o tempo e seu poder de destruir e apagar a presença das coisas e dos outros.

A saudade seria uma forma de se fazer o luto pelo objeto de amor e desejo perdido, de realizar o trabalho de apaziguamento da dor da perda e da ausência de algo ou alguém que possuem significado especial. A saudade nos dói porque nos recorda o caráter finito de todas as coisas, porque nos lembra da morte. A saudade nos lembra e faz presente o tempo, nos recorda da historicidade de todas as coisas, ao mesmo tempo, que, para muitos, se torna uma forma de fuga e recusa de aceitação do caráter passageiro e mutável do tempo. Mas se partimos das formulações freudianas acerca do luto e da melancolia, podemos conceituar de outra maneira a saudade, dar a ela sentidos mais afirmativos e solares. Para Freud, o melancólico é aquele que se recusa a aceitar a perda do objeto do desejo, que se obstina em preservar esse objeto, que ao ver o objeto externo dele se afastar, internaliza uma idealização, um ideal, uma imagem desse objeto buscando não perdê-lo. A libido do melancólico, seu desejo, suas pulsões que estavam voltadas para um dado objeto, ao perde-lo volta-se para o próprio interior do sujeito onde um substituto fantasmático do objeto vem se instalar. Não aceitando a realidade de que o outro não me quer, passo a desejar e amar o simulacro dele que crio em meu próprio interior. O desejo, a pulsão, a libido ao invés de se dirigir para fora de mim, para um outro, volta-se para mim mesmo e passa a desejar essa imagem do objeto desejado que habita meu próprio interior. A melancolia se instala nessa perda não aceita, não resolvida através do processo de luto. Ao não fazer o luto e, assim, aceitar a morte do objeto, o melancólico instala a morto e, portanto, a morte em seu próprio interior, afetando o seu impulso de vida, sua vontade de viver e permanecer vivo. Estar apegado a algo que morreu desfavorece a vida e faz o desejo de estar vivo claudicar.

Creio que podemos pensar a saudade como uma forma alternativa ao gesto melancólico. A saudade pode ser vivida como uma forma de trabalhar e aceitar a perda, a ausência, uma maneira de fazer o luto. Eu que não sou um saudosista, que nunca tive tendência a ficar grudado e apegado a qualquer coisa que tenha perdido, venho propor, hoje, que pensemos a saudade de um outro modo. Creio que ao invés de enfatizarmos na saudade a dimensão da perda e da ausência, podemos enfatizar a dimensão do ganho e da presença. O poeta português Teixeira de Paschoal costumava definir a saudade a partir do que nela havia de ressurreição, de capacidade de presentificar o que passou, de capacidade de fazer se reencontrar com alegrias passadas. Nela haveria, ao invés da recusa do desejo de olhar para adiante, do enovelar-se e do enroscar-se em torno de um objeto pretérito como tábua de salvação, como se dá com o melancólico, esse desejo de volta, esse desejo de futuro como possibilidade de reencontro, nem que seja fugaz, com o que se foi. O saudoso admite a perda, sabe que o objeto de seu amor e de seu desejo se foram e, no entanto, feliz se depara com a possibilidade da saudade como forma de reencontro. A saudade não se aferra a um tempo, aposta no futuro sob o símbolo do reencontro. Creio que podemos tomar a saudade como esse sentimento que nos permite fazer durar aquelas relações, aquelas coisas, aqueles eventos de que mais gostamos, que foram felizes e prazerosos. Ao invés do pesadumbre da melancolia, a alegria da saudade como possibilidade de reviver, de viver novamente o que foi feliz, o que foram tuas conquistas. A saudade te permite colecionar logros ao invés de colecionar perdas, é tudo uma questão de escolha. A saudade te permite guardar os momentos ternos, mesmo que não sejam eternos. A saudade te permite colecionar encontros e afetos, mesmo que sejam passageiros. A saudade pode ser um arquivo de experiências e experimentações bem sucedidas, mesmo após estarem partidas ou perdidas.

Como Fernando Echevarría eu prefiro pensar a saudade como da ordem do cunho e não da ordem do vestígio. Tomar a saudade não como algo que se depositou inconscientemente ou involuntariamente na memória, como algo que vem se instalar em mim à revelia de minha vontade. Eu prefiro pensar e viver a saudade como algo da minha escolha, como algo que foi permitido por mim, que foi cunhado ou criado por mim mesmo. Algo que nasceu como uma efígie que ordena e desassombra o mundo, que nasce como fenômeno dominado pelo brilho da consciência. Eu creio que devemos escolher nossas saudades, que devemos vivê-las sempre que necessitamos aceitar uma perda, uma ausência. Eu prefiro pensar e viver a saudade como o luto que me abre para novos encontros, que me abre para uma nova vida, que chega como promessa de futuros. Eu prefiro sentir saudades quando ela é afirmação da vida, da positividade da existência, quando ela me estimula a persistir em meu próprio ser. Eu prefiro que a saudade seja um mobilizador para que novos encontros aconteçam, para que outros desejos e outras relações sejam incentivadas e motivadas. Uma saudade, que mesmo que seja doída, nasça de um paciente estudo e de uma sapiência e um tato que a guie. Não devemos nos entregar à saudade, mas devemos fazer ela nos entregar aquilo que nos leva mais uma vez a valorizar a vida e a possibilidade de vive-la. A saudade vivida como ato e não como pathos. Até quanto à suas saudades é preciso fazer escolhas, é preciso selecionar aquelas que afirmam a vida e não aquelas que te aproximam da morte: saudades fascistas. Num país tomado de saudosismos retrógrados e reativos, é preciso que nossas saudades alimentem desejos de futuro e de transformação. A maior homenagem que posso prestar a alguém de quem sinto saudade é tomar nosso afeto, nossa relação, nossas emoções, nossos desejos, nossos momentos partilhados como combustível para novos afetos, relações, emoções, desejos, para novos momentos de prazer como aqueles vividos em conjunto.

As saudades não devem nos assaltar e nos dominar. As saudades devem ser dominadas e direcionadas para a construção de relações sociais mais fraternas e construtivas. Se a nostalgia é a figura pálida e desvitalizada de um tempo, se ela perdeu o elán do desejo presente na saudade, se ela é um desejo apaziguado e remoto que não mais queima, recolhamos na saudade o que ela tem de fogo, o que ela tem de ardente, o que ela tem de mobilizador para nos impulsar a novas experimentações da vida. Se aquela saudade ainda arde em teu corpo, faz de seu calor a chama que aquece novos encontros de pele. Se a saudade ainda te arrepia os pelos, faz desse arrepio a força magnética de atração que arraste até você outros corpos e penugens. Se a saudade ainda te traz lágrimas aos olhos, faz dos teus olhos rasos d’agua um cálice onde outros venham beber de tua alma dadivosa. Se a saudade ainda te contrai o ventre, faz dela a musculatura de tua vontade de se abrir em flor. Se a saudade vinca a tua fronte e empalidece teu rosto, faz dela o véu que retiras sedutor para o deleite de olhos perscrutadores. Se a saudade te opressa o peito, faz dela o palpitar célere de teu coração nas diástoles e sístoles do amor. Se a saudade faz cambalear as tuas pernas, faz dela as muletas que te ponham a andar novamente na direção da meta. Se a saudade te dá aquele amargo na boca, faz ela te levar a adoçar a vida de muitas outras pessoas. Se a saudade te desanima, faz dela a alma que te dá ânimo para continuar vivendo. Se a saudade ensombrece e assombra a tua existência, se ela cai sobre ti como uma noite sem estrelas, faz dela uma constelação de novos desejos, de novos afetos, de novos amores, de novas conquistas, que ela te acometa como um cometa de luz que leve a percorrer espaços ainda não palmilhados. Se a saudade te ausenta de ti, se faz presente diante dela e a ilumine com novos clarões de ideia. A saudade não pode ser o sujeito e tu o objeto, assuma as tuas saudades e dê a elas direção e comando.

É a partir desse conceito de saudade que eu me encontro com vocês essa noite. Não estou aqui para chorar a perda de vocês ou de nossas relações. Eu vim aqui para comemorar os nossos encontros e nossos afetos. Eu vim aqui não para lamentar o que estou perdendo, mas para agradecer tudo o que consegui junto com e a vocês. As saudades me permitem levá-los comigo, portanto, como falar de perda. Como falar de ausência se a presença de vocês estão gravadas em cada saudade que daqui levo. Como falar de desencontro se me encontro em vocês e vocês se encontram em mim. Como falar de tristeza, se tudo o que quero nessa noite é proclamar a enorme alegria de nossos encontros, de nossos afetos, de nossos trabalhos em conjunto. Se as lágrimas teimarem em rolar não é por vazio ou perdição, mas pela plenitude de nossos encontros. Se a emoção vier isso é sinal de que estou vivo, de que a vida habita em mim e que ela continua aqui disposta a vibrar com novas afecções. Como pensar que vocês podem ir para longe de mim se eu habito suas cabeças e suas almas, se vocês nunca sairão de minha mente e de meus afetos. O pretexto de nosso encontro é comemorar meus quarenta anos de magistério. Fui professor de muitos aqui, fui orientador de outros tantos, e nas artes de ensinar e orientar fluxos subjetivos, afetivos e cognitivos nos atravessaram, nos interligaram, nos fizeram unha e carne, ideia e emoção. Apesar do salário, saio bem mais rico daqui, rico de coisas vividas e partilhadas juntas. As saudades de vocês queridos alunos e alunas são tantas e isso só mostra que vivemos muito e que fizemos mais ainda. O professor é um ser saudoso, tal como entendo saudade, pois é um pescador de pérolas deixadas cair, generosamente, em cada encontro, por seus alunos. Tendo tantas saudades a escolher, porque escolher as tristes, as melancólicas, as nostálgicas, as saudosistas. Eu prefiro levar de vocês um lindo buquê de saudades ridentes e prazerosas. Sei que lembrarão de mim cada vez que vejam a sala 807, cada vez que entrarem na sala A1, onde ministrei a primeira e a última aula para a graduação nessa universidade, cada vez que levarem um beijo ou um afago no rosto, cada vez que receberem um abraço às 7 da manhã, cada vez que tiverem que ler trinta textos numa disciplina, cada vez que precisarem falar de seus amores, de suas dores, de suas descobertas afetivas e sexuais, cada vez que precisarem conversar sobre a dissertação, sobre o trabalho, sobre o projeto, cada vez que ouvirem um riso de ironia e de alegria por, acima de tudo, estar com cada um de vocês, por ter a única e enorme felicidade que só é dada a um professor: ter alunos, orientandos, bolsistas, voluntários de todos os quadrantes. Agradeço a vocês o enorme prazer que foi cada encontro, cada palavra, cada leitura, cada ideia, cada discussão, cada riso, cada indignação e revolta que partilhamos.

Sim, pois a saudade é da ordem do prazer, é da ordem do desejo. A melancolia se instaura quando desejamos o objeto perdido, o objeto morto e ausente. O desejo nunca para, nunca desaparece, mesmo quando deseja o desejo de aniquilação e morte. O melancólico tem um desejo onanista e retira prazer na dor da perda, em reiterar permanentemente o fracasso de seu encontro com o outro. Há quem goze com o sofrimento, há quem sinta prazer em espicaçar permanentemente a ferida. Há prazer mórbido em cultivar o sofrimento. Muitos poetas portugueses vão falar do prazer que reside na dor da lembrança saudosa. A saudade seria uma emoção complexa por ser ambivalente, por trazer em seu interior, ao mesmo tempo dor e alegria, desespero e esperança, consciência da perda e desejo de reencontro, de retorno, de volta. No fugaz momento da lembrança ou da reminiscência o encontro feliz com algo que foi seguido da imediata consciência e sensação da perda. A constatação de que aquilo que veio na lembrança se foi, retornou às brumas do passado. A saudade pode nascer do prazer e pode fazer esse prazer durar, ter duração. Prefiro as saudades gozosas do que as saudades dolorosas. Vou levar do convívio com tantos amigos que aqui estão, os momentos de prazer e gozo, os momentos de riso e sonho, os momentos de criação e invenção, os momentos de trabalho e do caralho. Levo de vocês as saudades que escolhi, aquelas que melhor os representa, aquelas em que recolho os melhores pedaços e traços de vocês. A amizade é uma escolha eletiva, nela não há nenhuma imposição, só disposição para o encontro e para o compartilhamento das coisas do mundo. Deixo aqui muitos amigos e amigas, inesquecíveis, mas os levo em minhas lembranças, pois elas nascem da memória voluntária, elas virão habitar minha vida sempre que eu as convoque, que assim eu queira, sempre que eu deseje cunhar novamente as suas figuras à minha frente, ao meu lado, por todo lado onde esteja. Vocês não poderão fazer nada quanto a isso, impotentes terão que comparecer à minha presença sempre que eu necessitar rever a silhueta amiga de cada um. Nega maluca, representante das elites, menino fofo catarinense, sereia das águas, seja que figura for, convocarei na hora em que me der na telha. E, o pior, muitas vezes vou aparecer para vocês na hora que menos esperarem, as reminiscências farão vocês me rever num bolo Souza Leão, numa camisa Aramis, num capuchino ou num macarrão sem glúten, numa pamonha com queijo, na porta do cinema, no desfile das escolas de samba. Eu continuarei presente entre vocês no Youtube, no Facebook, no zap, no portal Saiba Mais, no Programa de Pós-Graduação em História, nas placas no corredor do Azulão figurando como paraninfo de várias turmas. Não pensem que é fácil se livrar de minha presença, os desafetos mais do que os afetos sabem disso e ficam melancólicos. Prozac para todos eles!

As saudades de vocês queridos colegas de profissão e de Departamento eu as prefiro reunir à parte de qualquer reunião do dito cujo ou de outras instâncias burocráticas. Eu prefiro escolher e levar comigo as saudades de nossos encontros pelos corredores, de nossas conversas informais, de nossas poucas festas e comemorações, de tudo quanto conseguimos construir juntos, de nossas convergências, mais do que das nossas divergências. Nesses quinze anos vimos o Departamento crescer, dois cursos de pós-graduação nascerem, um curso de ensino a distância se fazer realidade. Nesses quinze anos vimos um novo CCHLA nascer com o Reuni e com os esforços de nossos diretores e vice-diretores de Centro. Vivi aqui na UFRN talvez a conjuntura mais favorável ao ensino superior desde que nele entrei em 1994. Essa conjuntura, somada a inegável competência em gestão de nossos reitores fez da UFRN uma universidade de que sinto orgulho e onde foi um enorme prazer trabalhar. Essa noite, aqui nesse auditório, simboliza o acolhimento que tive por parte dessa instituição desde que fiz concurso para nela ingressar em 2004. Desde o início tive da direção dessa universidade, em todas as suas instâncias, o respeito, a deferência e o apoio. Se muito pude fazer, e acho que deixo um legado para essa instituição de que posso me orgulhar, o fiz por contar sempre com a colaboração e o apoio institucional. Foi com orgulho e carinho que levei e levo o nome dessa instituição para onde vou. Ela, também, como uma saudade, faz parte de mim, é carne de minha carne, sangue do meu sangue, ideia de meu pensamento. Se em algum momento me senti preterido, desfavorecido pelos jogos políticos que fazem essa instituição, isso não é suficiente para que cultive em relação a ela nenhuma paixão triste, pelo contrário, sempre tratei de valorizar e colocar acima de tudo as paixões alegres, os encontros produtivos, os afetos motivadores. Meus colegas não poderão dizer de mim qualquer gesto de agressão, de violência, de desrespeito, de desmerecimento, de soberba, de menoscabo. Mesmo quando agredido, sempre procurei cultivar, em nome de minha própria saúde física e mental, os bons encontros e as boas brigas, me furtando a entrar nas mesquinhas conjuras do dia a dia. Creio que consigo deixar essa universidade após quinze anos sem que de minha parte tenha advindo qualquer desejo de inimizade e de agressão. Infelizmente, por vezes, somos mal interpretados, mas isso, como sabemos, faz parte da inultrapassável ambiguidade do que dizemos e fazemos. Fiz, aqui, entre meus colegas, grandes amigos, amigos para toda a vida, seja em meu Departamento, seja nos demais Departamentos. Recebi e recebo de meu colegas muitas demonstrações de carinho e generosidade, tentei sempre colocar o melhor de mim a serviço da universidade e dos meus parceiros de trabalho. Prefiro pensar a saudade como o ato de se colocar a disposição para novos encontros, como o desejo de reencontro e de parceria, é assim que eu levo vocês comigo, queridos colegas. Nos esperam novas bancas, novas aulas, novas reuniões, novas produções, novos momentos de trabalho em conjunto. Eu estou me aposentando da UFRN, não estou me aposentando nem da profissão, nem da existência. Nos encontraremos pelos corredores da vida!

Como não me referir aos servidores e funcionários dessa universidade. Muitas vezes invisíveis e invisibilizados, deles só recebi carinho e gentileza desde que aqui cheguei. Embora muitos apenas peçam um bom dia, um cumprimento, um olhar, um aperto de mão, sem eles a universidade e nosso dia a dia não seria possível. Levarei muitas saudades da cantoria alegre das moças da limpeza, que limpam nossos banheiros com um sorriso nos lábios. O assobio dos rapazes que cortam a grama, que varrem as folhas caídas, que limpam as salas, que muito cedo ligam o ar condicionado. Se a nostalgia é azul, a cor de suas roupas, tão despersonalizadoras, será levada por mim como marcas de suas pessoas. Terei saudade, por incrível que pareça, de apanhar e deixar a chave na sala C-3 e dos diversos bolsistas e funcionários que aí trabalham, sempre mereci deles toda consideração, além de que alguns ofertavam uma alegria estética logo pela manhã. Essa semana, livres da censura professoral, fui brindado por duas tardes com uma trilha sonora inesquecível saindo de uma caixa de som enquanto o setor II era lavado e arrumado para o próximo semestre, saudades sonoras para levar nos ouvidos. Os funcionários de nossos laboratórios que sempre se desdobraram para atender minhas demandas. O que dizer de Cétura, Márcio, Gerson, João e Luan, capazes de gestos inesquecíveis para mim, saibam que vocês não cessarão de trabalhar em minhas saudades, como as pessoas dedicadas e amáveis que sempre foram.

Essa cidade foi pródiga de belos encontros, uma cidade de amores e de prazeres. São as melhores e maiores saudades, se é que elas possuem tamanho. Sei que, como toda emoção, a saudade se expressa, em gestos, falas, comportamentos, imagens e cenas. A saudade, portanto, se espacializa, ganha e conforma espaços. Falar de uma grande saudade, de uma saudade que preenche os espaços de nossa vida e do nosso corpo, é falar das saudades do amor e do amado que aqui me tornei. Cidade de muitas peraltices, Natal vai em mim como um coleção de saudades de muitos momentos em que estar vivo e ser vivo vale a pena. Se Natal falasse entregaria muitos motivos para me sentir saudoso e até melancólico. Mas parto daqui com a certeza da volta e do reencontro, com a certeza de que o que aqui nasceu terá sobrevida em outro lugar. Como não sou de olhar para trás, como não sou de me aferrar ao que passou, como sempre estou olhando para a frente, sei que na frente esses amores também estão. Não sou de internalizar fantasmas de objetos perdidos, eu prefiro ter grandes e maravilhosos objetos reais em minha mão, única, mas generosa na recepção. Às vezes é melhor pegar do que se apegar, não esqueçam essa lição. Se a pegação foi generosa nessa cidade, meu apego a ela é leve e sem pesar, ela vai flutuando comigo, como essa linda cidade de luz que raia em nossas vidas as quatro e meia da manhã. A imagem da minha janela, que me permite um abraço em boa parte dessa cidade, nunca sairá de minha retina. Naquela janela muitas luas foram miradas em parceria de amor e desejo. Como sou canceriano, levarei essas luas como joias penduradas no céu azul escarlate, para lembrar da riqueza que é viver, da riqueza que é amar e ser amado. Como poderei esquecer o Mandacaru Residence, uma síntese da ambivalência provinciana, regionalista e cosmopolita dessa cidade. Natal sempre me trará saudades das ruas alagadas, da falta de bueiros, das calçadas ocupadas por carros, bares, carrinhos de lanche, das músicas cantadas toda noite e sempre as mesmas do Bari Palesi, da estridência dos frequentadores da Videira. Como poderei não lembrar das ruas largas e quadriculadas, da Casa da Ribeira, dos restaurantes e cafés, do mercadinho Tia Lila, da alegria e generosidade de um povo que me recebeu tão bem. Como esquecer das tardes de domingo na Praia do Meio, da calcinha de nylon, dos jacarés verdes e rosas para banhistas bêbados boiarem, do ônibus 45 e 303, das Rocas e do Alecrim, das meninas se vendendo por 1,99.

Quero terminar lembrando e agradecendo a todos os amigos que fiz no meio cultural, artístico e intelectual dessa cidade. Nem mesmo em minha cidade, onde vivi por mais de vinte anos tive a troca e a parceria que consegui estabelecer com as pessoas que fazem o meio cultural da cidade, simbolizada pelo que se tornou a parceria com o Grupo Carmin. Daqui há pouco A invenção do Nordeste, o espetáculo teatral, estreia no SESC Copacabana, para uma temporada que vai até o final do mês. Nunca poderei agradecer suficientemente o que conseguimos fazer juntos, o que o talento desses artistas e intelectuais dessa cidade, embora nem todos sejam potiguares, fizeram por mim, pela minha carreira e por minha obra, permitindo que se realizasse um grande sonho, a de que ela saísse dos muros da universidade e ganhasse outros lugares de circulação e recepção. Ter me tornado presidente do júri que julga as escolas de samba e tribos carnavalescas da cidade é também outra demonstração de como as pessoas que fazem arte e cultura nessa cidade me receberam generosamente. Aliás, eu entrei nessa cidade e estou saindo dela pelas mãos de uma militante pelas causas das crianças e adolescentes, pelas mão de Ana Paula e da ONG Resposta, que mostra minha interação com a sociedade civil e os movimentos sociais nessa cidade. Foi Ana Paula que me ajudou a encontrar moradia quando para aqui me transferi e ela sabe que tem moradia permanente e definitiva em mim, não importando em que endereço esteja. Mal tinha aqui chegado recebi um generoso convite do professor Orivaldo para falar para a comunidade de Mãe Luiza onde ele realizava um trabalho social. A irmã de Ana Paula, Dilma Felizardo cedo me chamou para colaborar com seu trabalho junto as profissionais do sexo da cidade. Em pouco tempo me vi acolhido e integrado a atividades que dão sentido ao que faço e ao que pesquiso. Não posso deixar de agradecer mais uma vez, publicamente, a Daliana Cascudo. Pesquisar o acervo de seu avô foi o que me trouxe a Natal e acabou por me fazer aqui ficar por tanto tempo. Daliana sempre se mostrou generosa e receptiva à minhas atividades de pesquisa e a de meus alunos. Tive o privilégio de partilhar de seu sorriso e de seu carinho. Não posso deixar de citar o Partido dos Trabalhadores, o partido de que fui um dos fundadores em Campina Grande e que me orgulhou pelos anos de prosperidade e justiça social que minimamente conseguiu levar a efeito nesse país, fui objeto do apreço e do carinho de muitos de suas lideranças e militantes potiguares, podendo com eles colaborar. A luta continua! Lula Livre já! Quero agradecer aos atores, poetas, escritores, produtores culturais, cineastas, músicos, diretores, jornalistas, editores, fotógrafos, pelas parcerias produtivas e inventivas. Vocês são daquelas melhores saudades, aquelas que vêm acompanhadas da promessa de invenção e criação de formas novas, evitando que esse mundo morra por caduquice e por cristalização.

Termino citando o filósofo Peninha: Ter saudade até que é bom, é melhor que caminhar vazio, a esperança é um dom que eu tenho em mim, eu tenho sim. Não tem desespero não. Vocês me ensinaram milhões de coisas, tenho um sonho em minhas mãos, amanhã será um novo dia e certamente eu vou ser mais feliz. Que vocês também sejam muito felizes e esbocem sempre um sorriso ao se lembrarem de mim.

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Durval Muniz de Albuquerque Jr. é professor, historiador e escreve aos domingos

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