OPINIÃO

A síndrome do Conde de Monte Cristo da militância de Esquerda

A história de Edmond Dantés, narrada no clássico “O Conde de Monte Cristo”, é amplamente conhecida. Para quem não se lembra, trata-se da saga de um homem preso injustamente, vítima da traição de falsos amigos. Preso em uma ilha, consegue fugir graças a um padre também preso e recomeça a vida como pirata até fazer fortuna e preparar o cenário para a vingança contra os que lhe traíram.

É o clássico maior sobre vingança, já filmado e adaptado centenas de vezes de diversas maneiras. Sou fascinado, mais que pela trama e por Dantés, pela cultura da vingança. Sempre me chamou a atenção que Dantés, embora livre e rico, já como ´Conde de Monte Cristo`, tinha como prioridade vingar-se, e não ser feliz ou recomeçar a vida de outra maneira. Muito justo. As perdas do protagonista e a vilania dos falsos amigos foram imensas e graves.

Mas, filosoficamente, a saga de Dantés leva a uma pergunta que me parece relevante nos dias que se seguem: É preferível a vingança ou ser feliz e tocar a vida?

A pergunta, claro, é filosófica, mas não teórica e nem à toa. Na minha percepção, boa parte da militância progressista vive situação parecida como a do nobre francês, após a famigerada e traumática eleição presidencial de 2018.

Passados sete meses da posse de Bolsonaro e ele já vê seu capital político-eleitoral se esfarelar. Não conta com confiança do Congresso (esqueça a Reforma da Previdência, ela é obra do Mercado, da Globo e de Rodrigo Maia) e nem mais de setores da comunidade, como o dos policiais e do próprio Mercado Financeiro. Sua aprovação gravita entre 30% e 33% (recorde negativo entre os presidentes eleitos em primeiro mandato pós-Ditadura Militar). Seu Governo coleciona crises e desgastes, entre cortinas de fumaça, inabilidade, ignorância e truculência.

Neste cenário, muita gente já se arrependeu de ter votado e/ou apoiado Bolsonaro, entre celebridades e anônimos. Muitos o confessam publicamente.

Antigo fustigador do petismo, o jornalista Reinaldo Azevedo hoje é uma das maiores vozes contra Bolsonaro/Moro e a favor do Lula Livre. Suposta ex-namorada de Eduardo Bolsonaro e ex-direitista, a hoje militante feminista, jornalista Patricia Lélis postou no seu Twitter frase lembrando que ela própria era antipetista e hoje milita pelo Lula Livre e se posta contra os bolsonaros, inclusive, pedindo explicitamente que se aceitem os arrependidos.

Entre conhecidos e amigos meus, percebo o mesmo, ainda que tenha gente que não externe o arrependimento. Neste caso, entendo que o silêncio e ausência de debates é uma maneira velada de registrar a decepção com o Governo Bolsonaro.

Neste ponto começa o dilema da militância progressista atual: dialogar com quem se arrependeu do voto dado a Bolsonaro? Ou fustigar essas pessoas impiedosamente com o dedo em riste e as frases clichês “Eu avisei”, “Faz arminha com a mão que passa” e “Essa culpa eu não carrego”?

Na verdade, farei a pergunta em um tom acima: É correto, do ponto de vista político e de mobilização, o comportamento acusatório que citei na segunda pergunta?

Outro questionamento meu: Sabendo que o Governo Bolsonaro é truculento, reacionário, obscurantista, de desmonte, o objetivo dos progressistas é impedir que ele continue agindo, desgastá-lo e preparar terreno para eleger prefeitos progressistas em 2020 como maneira de dar um recado ao Governo? Ou, a meta principal é espezinhar os eleitores do “mito” e fazer com que não se esqueçam um só minuto da bobagem que fizeram?

Mas, na segunda hipótese, isso não fará, justamente, com que esses eleitores com tendência para o arrependimento e voto diferente em 2020 e 2022 igualmente se afastem nas pautas progressistas, já que pessoas ofendidas e humilhadas tendem a não reconhecer facilmente os erros e até insistirem neles como reação natural a quem os ataca?

Quando tento dialogar tal assunto com militantes de Esquerda, ouço de alguns deles frases tão clichê quanto as que leio entre bolsominions. A mais comum delas é “Ah, mas você não vai querer que a gente leve um tapa e dê a outra face, não é?”.

Não, claro que não. Mas, se a outra pessoa não tem mais forças para levantar a mão e me esbofetear, acho desnecessário eu agredi-la, seja com o tapa na face ou verbalmente. Pessoas que acham que erraram querem dialogar, não tom acusatório.

A não ser que, como o citado Dantés, o Conde de Monte Cristo, a esquerda atualmente não queira ser feliz e reconstruir uma vida melhor para todos, e, sim, vingança pura e simples.

Se for para isso, não contem comigo. Gosto de política e faço política de quando escrevo, aqui ou nas redes sociais, até a hora que compro pão na padaria. E com sentimento de vendetta e ódio não se faz política.

 

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