OPINIÃO

A tal da liberdade…

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Os tempos andam bastante estranhos nesse Brasil de 2020. Verdade que já andam estranhas há bem mais tempo. É que ainda me espanto com a profundidade do abismo e com a demora da queda.  A semana da Liberdade de Imprensa, por exemplo, começa com mais uma tentativa quase bem sucedida de silenciar o trabalho de repórteres, agredidos com socos e pontapés, além dos já esperados pedidos de intervenção militar e fechamento de poderes. Tudo isso, bem na praça dos três Poderes – e que deveria representar justamente a harmonia que garante a democracia.

Do alto da rampa do Palácio do Planalto, mais violência. Desta vez, disparada em dezenas de tons de ameaças aos poderes legislativo, judiciário, à imprensa – especialmente à Globo – e à qualquer um que ouse se colocar no caminho do “avanço” do Brasil. A paciência do presidente acabou… Tudo isso, um dia depois de reunir o comando das Forças Armadas, uma proposital e aparentemente delirante ameaça de golpe.

Domingo afora, multiplicaram-se notas e editoriais dos mais variados sentimento: repúdio, reprovação, inaceitação. Os manifestantes foram chamados de milicianos, criminosos, celerados. Ao presidente, exigiram postura, respeito e limite. Às instituições democráticas, deixaram o papel de resolver toda a crise. Mas quem são mesmo as instituições democráticas?

Nos grupos de whatsapp, já tinha gente se preparando para o golpe – uns animadíssimos, outros indignadíssimos. Alguns ainda achando que era apenas mais um desvario do presidente.

Numa hora dessas, quem poderá nos socorrer? Eu gostaria de evocar a imprensa e confiar nessa tal liberdade. Mas elas não estavam lá para nos defender em 1964, nem em 1954, nem em 1937, muito menos em 1930 – nem a imprensa, nem a liberdade.

E se muita coisa mudou de lá pra cá, uma delas não foi a imprensa brasileira.  Os grandes grupos midiáticos continuam nas mãos dos mesmos poucos donos. A divisão do bolo de dinheiro público destinado à mídia pouco mudou desde os tempos daqueles outros generais. Os princípios e valores defendidos pela mídia também não estão muito diferentes – seguem sendo os valores das classes dominantes, especialmente latifundiários e banqueiros. A democracia é, sem dúvidas, o que menos lhes interessa.

Se a gente parar para pensar, as belas palavras do artigo 220 da Constituição Federal seguem sendo apenas isso mesmo – belas palavras que não saíram do papel.

E não se enganem com a militância (quase implicância) da Globo contra Bolsonaro, ou mesmo os fervorosos e corajosos editoriais da Folha contra o fascistas seguidores de Bolsonaro. Até o Estadão, que agora figura entre os assinantes de notas em defesa da democracia, deve estar sofrendo por não participar das conspirações de um possível golpe.

Muito pouco há de liberdade nesses movimentos midiáticos. Talvez tudo seja apenas o jogo de cena de quem sempre esteve no poder e agora precisa agir para reconquistá-lo.

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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