OPINIÃO

A tentativa desesperada de Bolsonaro de tentar retomar o protagonismo

O populismo na política se firma pelo domínio da narrativa. É falar exatamente o que as pessoas querem ouvir que traz o sucesso de um líder populista. Isto funciona muito bem em campanhas eleitorais com resultados previsíveis. O problema é quando se tem que assumir um governo pela frente e aparece uma pandemia no meio do caminho.

Esta semana, nas redes sociais ou em pronunciamento oficial em cadeia nacional de rádio e televisão, o presidente Jair Bolsonaro mostrou qual movimentação política quis adotar durante a gestão da crise com a pandemia do novo coronavírus, e não obstante o tom supostamente equilibrado no pronunciamento de terça-feira, em que reconhecia a gravidade do contágio da doença, Bolsonaro mais uma vez partiu para o ataque contra a necessidade das medidas de contenção e contra as instituições. Publicando em sua rede social no twitter um vídeo em que um homem mostrava desabastecimento e uma Ceasa vazia em Belo Horizonte, não demorou muito tempo para que fosse descoberto que a notícia era falsa, pois caminhões e caixas e mais caixas de alimentos circulavam livremente pelo local, obrigando o presidente a apagar a postagem no início da tarde da rede presidencial e ter de pedir desculpas pela travessura virtual.

Mas Bolsonaro não parou por aí. Como que adotando a tática de assumir duas personalidades: uma durante pronunciamento oficial e outra em suas redes sociais, o presidente Bolsonaro pede unidade nacional em um momento, mas em outro critica governadores e chama de autoritarismo e irresponsabilidade fechar estradas e promover medidas de isolamento social como prevenção à pandemia, como o fechamento de estabelecimentos comerciais, escolas e universidades. Aí é que entra o lado mais autoritário e truculento de Bolsonaro. Agindo como um animador de auditório, rompendo as regras do isolamento e se arriscando a ir às ruas e disseminar a contaminação do vírus, o presidente é acompanhado, como de costume, por um punhado de apoiadores, que sempre lhe visitam nas cercanias do Palácio do Planalto e costuma reproduzir as bravatas e ideologia do seu líder. Trata-se, segundo o presidente, de “ouvir o que o povo quer falar”, e adotando essa tática, fez questão que seu staff filmasse uma mulher que se dizia professora de uma escola particular, acompanhada dos filhos, que, no meio de uma pequena multidão, separada apenas por uma corda de isolamento, pedia ao presidente que colocasse os militares nas ruas e obrigasse a abertura dos estabelecimentos, pois, segunda ela, queria trabalhar e não queria dinheiro do governo. Sobraram críticas da citada mulher aos governadores e a imprensa, bem no tom adotado pelo presidente em seus discursos, acusando-os de tentarem derrubar o presidente, que seria o único (sic), que “queria o bem da gente”.

A fala da suposta professora (que diversos sites de notícias revelaram ser, na verdade, uma empresária de Brasília chamada Fátima Montenegro, assídua frequentadora dos círculos bolsonaristas), demonstra bem o tom golpista e a tentação autoritária de Bolsonaro, em meio à enorme crise política, social e econômica havida com o coronavirus. Na verdade, golpistas seriam os outros, leia-se, a imprensa e a maioria dos governadores, que no seu esforço para fazer cumprir com as medidas restritivas adotadas em quase todo o mundo, para conter o avanço da pandemia, estariam numa cruzada conspiracionistas para derrubar o próprio Bolsonaro, que não concorda com as regras de isolamento social. Batendo na tecla da manutenção dos empregos diante da crise e alheio à expansão do contágio da COVID-19, que a cada dia contamina e mata milhares de pessoas, Bolsonaro aposta no caos, e o caos seria a medida certa para ele decretar estado de sítio, fechar o Congresso e governar por Decreto, fazendo o que bem entende.

Na verdade, Bolsonaro tenta copiar a saída adotada por um de seus semelhantes no populismo autoritário, como Viktor Orbán, na Hungria, que recentemente tomou atitudes ditatoriais, ao receber poderes ilimitados para governar por decreto, em caráter emergencial, enquanto durarem as medidas necessárias para a contenção do Coronavírus. Nas Filipinas, o presidente Rodrigo Duterte, uma espécie de Bolsonaro asiático, determinou que a polícia atire em quem estiver nas ruas sem autorização, durante o período de expansão do vírus. Entretanto, nos dois casos acima, que refletem puro autoritarismo, tão característico do bolsonarismo, a diferença é que a aposta de Bolsonaro é remar contra a ciência, contra às medidas de contenção recomendadas pela Organização Mundial de Saúde e contra toda racionalidade. Atitudes de um louco? Gestos de um governante imaturo e totalmente irresponsável? Na verdade, os movimentos de Bolsonaro tem certo cálculo político e vão muito além de um descontrole emocional ou psíquico.

Abraçar o Coronavírus significa para Bolsonaro ter a doença como um aliado politico, só que com o sinal invertido das medidas adotadas por outros governantes, que cogitam aumentar sua popularidade, força e capital político combatendo a doença e não o contrário. Em recente entrevista dada ao jornalista Augusto Nunes (por sinal, apoiador do presidente), Bolsonaro fez a seguinte alusão ao Coronavírus: o comparou como uma chuva, onde todos os que saem debaixo dela, tendem a se molhar e outros não. Tirando o pieguismo da frase percebe-se a astúcia calculista do governante, que assumiu de vez a pragmática da morte, ao preferir que centenas ou, talvez milhares morram, dentre eles não apenas idosos, mas também jovens e até mesmo crianças, desde que a economia não desmorone e que milhões não passem fome. Ora, muita gente pensa assim. Há muitas pessoas no Brasil que pensam como o presidente.

Bolsonaro talvez seja hoje, com seu populismo autoritário, o maior representante do governante da pós-verdade. Foi tão somente através das redes sociais, galvanizadas pelo triste episódio real de uma facada durante a campanha eleitoral e a divulgação de muitas, mas muitas fake news, que Bolsonaro, seus filhos, e a doutrina política que veio consigo a reboque, conquistou o poder. Por meio das redes sociais, o presidente brasileiro não só fez campanha, mas passou efetivamente a governar, num ambiente virtual onde é soberano, e onde lá, somente lá, ele consegue governar sem oposição, sem as barreiras traçadas por seus críticos, desafetos e até ministros. No âmbito da realidade a vida tem sido mais difícil para ele, pois além da evidência dos fatos e a supremacia de um vírus que parece não ter ideologia, Bolsonaro encontra resistências ao seu poder de governadores de todos os partidos, insatisfeitos com sua recusa em gerir a crise; de ministros, como o da saúde, ameaçado de demissão, que não comunga de seu negacionismo em relação a doença; e da imprensa em sua maioria que o bombardeia incessantemente, denunciando sua insensatez e mesmo loucura (seria mesmo?), em cada declaração estapafúrdia ou vídeo polêmico que o presidente divulga nas redes sociais.

Na desesperada busca de retomar o protagonismo que teve na campanha eleitoral, só resta a Bolsonaro intensificar ainda mais sua tática, pois é agradável ao seu eleitorado, captando os sentimentos mais irracionais de quem se encontra desempregado ou ameaçado de perder o sustento durante a crise da pandemia, e ainda por cima vive as angústias do isolamento social. Ao invés de investir em ações sociais e num intervencionismo estatal mais do que necessário e bem vindo, auxiliando financeiramente as empresas para não demitir, ou estendendo benefícios sociais até o final do ano ou mesmo até o ano que vem, Bolsonaro prefere repetir a cantilena da abertura do comércio a qualquer custo, mesmo que seja à força, com o uso de tanques e baionetas, bem dentro de seu delírio do golpismo militarizado. Em busca do protagonismo, e dias após comemorar o famigerado golpe, que por duas décadas deixou o Brasil nas sombras, Bolsonaro parece querer inaugurar uma nova Idade das Trevas, onde ele mesmo seja o monarca absoluto, com ou sem vírus. Resta saber quem vai lhe dar atenção: se apenas seus militantes alucinados, que, ao participar de forma irresponsável de carreatas pedindo a abertura do comércio (se ainda não foram contaminados pela Covid-19, já foram contagiados pela alienação); ou se o restante das instituições irá embarcar nessa aventura sem volta, que é a de viver num país fragilizado, que sofreu os sérios efeitos do bolsonarismo, talvez mais duradouros que os efeitos da pandemia.

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