OPINIÃO

A “verdade” está na bolha

Bolsonaro não quis comentar a pesquisa Datafolha que aponta uma rejeição de 30% em pouco mais de três meses do governo. É o pior desempenho de um presidente em primeiro mandato desde a redemocratização. Não deve ser fácil lidar com esse sentimento. Enquanto a Folha ouviu pouco mais de 2 mil pessoas com mais de 16 anos em 130 municípios com base em complexas metodologias de análise estatística, Bolsonaro prefere se fiar nas redes sociais e em seus 3,94 milhões de seguidores no Twitter e 10,7 milhões de seguidores no Facebook – exército de fieis e robôs que clicam, curtem e compartilham para gerar uma bolha de aceitação que garante o sono presidencial mesmo com o país derrapando na economia, na educação, na segurança pública…

Nosso presidente é um sagaz seguidor de verdades que lhe convém. Ele crê no poder das armas contra a violência. Ele garante que o Golpe foi Revolução, que o nazismo é de esquerda e que o cálculo no número de desempregados do IBGE é uma farsa. Contra fatos, Bolsonaro sempre tem argumentos.

Desde o período eleitoral, o então candidato vem travando uma batalha contra os jornalistas e veículos da mídia tradicional. A atitude não era inesperada. Bolsonaro reza na mesmíssima cartilha de Donald Trump que tuita e xinga a imprensa diuturnamente. A Folha e a Globo são os alvos preferidos. Para ele, a mídia mente e que o Governo não tem “tanta notícia ruim” como é publicado pela imprensa.

Basta zapear suas memórias para lembrar que militantes petistas faziam afirmações bem semelhantes em relação à cobertura da imprensa nos treze anos dos governos de esquerda. O cenário midiático nacional não é lá dos mais democráticos. Os poucos grupos de mídia que dominam os principais veículos e emissoras são vinculados a interesses políticos e econômicos conservadores. A diferença é que esses grupos nunca apoiaram o projeto petista e foram grandes impulsionadores da onda bolsonarista.

Bolsonaro pode seguir confiando na astúcia de Carlos, o Zero Dois, que é fera em redes sociais, para tentar sair bem na fita e pode até fingir que não sabe que a imprensa toda está junto com ele interessada em aprovar a reforma da previdência. Ele pode seguir soltando bravatas para angariar curtidas e retuitadas, mas até o Palácio do Planalto sabe que, além da crise contínua que se tornou o governo, a estratégia de comunicação adotada até aqui falhou miseravelmente em propor uma agenda positiva à atuação do governo.

Para sair dessa enrascada, Bolsonaro vai ter que aprender que, no Brasil do monopólio da mídia, nem 10 milhões de curtidas valem tanto quanto um minuto de Jornal Nacional – a grande herança dos venerados golpistas ditadores de 1964.

 

 

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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