OPINIÃO

A vida adiante: Rosa e Momo

O escritor francês de ascendência judia russa Romain Gary (2014-1980) criou dois personagens completamente opostos que convivem conflituosamente no livro La vie devant soi, traduzido no Brasil como “A vida pela frente”. O livro foi lançado em 1975, sob o pseudônimo de Emile Ajar. A personagem Madame Rosa é uma mulher idosa francesa judia, enquanto Mohamed é um menino órfão argelino muçulmano.

O livro traz a visão da criança imigrante – Momo – sobre a sua sobrevivência em um mundo hostil desde o abandono, à vida nas ruas, à criminalidade, à sexualidade e sua salvação. É Momo quem narra a sua convivência com Madame Rosa, mulher sobrevivente de um campo de concentração nazista. Na condição de ex-prostituta, Rosa sobrevive do dinheiro como babá dos filhos de outras prostitutas.

Momo, Madame Rosa e outras crianças aos seus cuidados moram no sétimo andar de um apartamento em Belleville, um distrito de Paris, uma periferia onde vivem muitos trabalhadores. Na vida real, foi nesse ambiente multiétnico, de baixo custo de vida e grande riqueza cultural, que muitos artistas franceses – como a cantora Edit Piaf (1915-1963) – viveram as suas infâncias.

Devido a inúmeras situações traumáticas do passado, Madame Rosa recolhe os objetos que contém as suas memórias em um lugar no porão. Sentada numa poltrona ao lado de fotografias, é onde ela se sente mais protegida. Além da idade avançada, a doença também faz com que ela passe a contar cada vez mais com Momo.

O filme La Vie Devants, traduzido no Brasil como “Madame Rosa: a vida à sua frente” foi lançado em 1977, criação do diretor Moshé Mizrahi (1931-2018), nascido no Egito e de ascendência judia. Por sua vez, no filme Mizrahi nos apresenta o ponto de vista de Madame Rosa.

Por sinal, a atriz Simone Signoret (1921-1985) parece muito natural na pele de Madame Rosa, atuação pela qual recebeu um Oscar de Melhor Atriz, além de outros prêmios. Enquanto isso, a película também recebeu um Oscar de Melhor Filme, sendo Moshé Mizrahi o único cineasta israelense a conquistar o prêmio desde 1978. Momo é interpretado por Samy Ben-Youb.

Muitas vezes acontece de o livro apresentar uma realidade mais complexa, crua e dura para os seus personagens. Em “Madame Rosa” não é diferente. Aparentemente Moshé Mizrahi não poupa Rosa e Momo de uma convivência difícil. Em comum, Gary e Mizrahi descreveram seus personagens como pessoas mergulhadas numa sociedade politicamente conflituosa, porém não superestimaram os problemas pessoais como impedimento para a solidariedade e o respeito mútuo.

Neste ano de 2020 há uma novidade em relação à criação de Romain Gary e Moshé Mizrahi. No mês de novembro, o filme The Life Ahead, traduzido no Brasil como “Rosa e Momo”, estreou em uma plataforma de streaming com críticas positivas do público. Apesar de muitas mudanças, a mensagem de afeto pessoal acima das diferenças culturais está intacta na obra do cineasta Edoardo Ponti.

Por sinal, o diretor Edoardo Ponti é filho do produtor de cinema Carlo Ponti (2012-2007) e da atriz Sophia Loren, que aos 84 anos atua como Madame Rosa, ao lado de Ibrahima Geye como Momo. No filme de Edoardo Ponti, Momo é uma criança africana de pele preta.

Na década em que Romain Gary publicou o livro, a França lidava com as consequências da imigração argelina na França. A seu modo, Moshé Mizrahi tocou na ferida da tensão entre árabes e israelenses de modo velado. Dessa vez, Edoardo Ponti ambienta os dramas de Rosa e Momo na Itália durante a crise humanitária e migratória vivida naquele país.

Há personagens de Gary que foram mantidos nas obras de Mizrahi e Ponti. O médico humanista Dr. Katz e o comerciante argelino Sr. Hamil. A seu modo, o médico e o comerciante ajudam a proteger Momo e Rosa, diante de seus problemas de convivência. Apesar de judia, é Rosa quem orienta o comerciante a introduzir Momo na mesma religião dos pais do menino.

Ressalvadas estas semelhanças, o filme de Edoardo Ponti traz a versão de Momo. A presença da atriz transexual espanhola Abril Zamora, no papel da vizinha Lola, também prostituta, é marcado por uma cena de música brasileira: “Malandro”, de Jorge Aragão e Jotabê, interpretada por Elsa Soares, lançada em 1976. É neste ambiente de vulnerabilidades que Romain Gary, Moshé Mizrahi e Edoard Ponti fizeram florir nos personagens a perspectiva de uma vida pela frente baseada no amor.

 

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Gilmara Benevides
Gilmara Benevides é doutora em Direito, interessada em história e relações culturais internacionais.

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