OPINIÃO

A vingança do roupeiro

Um clube do Nordeste, tradicional, se preparando para uma disputa fora do seu roteiro tradicional, habitual, onde quase sempre o deslocamento era feito de ônibus, com jogos em cidades e estados vizinhos. Desta vez,  participando do Brasileiro tinha seu compromisso marcado contra uma das equipes do futebol paranaense. Atletas, comissão técnica, massagista, médico, roupeiro todo mundo numa ansiedade só esperando o dia do embarque. Uma das primeiras grandes viagens da equipe, um acontecimento para marcar a história de quem nunca teve oportunidade de conhecer outros centros do Brasil.

Durante a semana, uma dedicação especial de todos. O material – meiões, calções, chuteiras, tênis, ataduras – limpinho, cheiroso, brilhando e o atendimento de primeiro mundo. Acontecia qualquer imprevisto, a chuteira apertou, saiu do pé, o roupeiro (hoje se chama mordomo) se largava correndo de seu cantinho trazendo tudo que o jogador precisava, como também os masseiros e toda turma de apoio. A galera mostrando serviço, dando mostra de competência e dedicação, claro, de olho na viagem dos sonhos. Passam os dias, chega a sexta-feira, a viagem seria às 14h45, haveria o coletivo preparatório da manhã, concentração, almoço, um pequeno descanso e todos ao aeroporto.

Como sempre acontece nesses dias, a expectativa da relação dos jogadores que viajariam, quem já passou por isso sabe o quanto é agoniante, principalmente para quem não é titular. O nosso personagem, roupeiro dos mais competentes da história do futebol do RN, depois do treino, como acontecia na sua rotina conhecida, começava a arrumar todo o material do jogo (e também o do treino que seria realizada já na capital paranaense), caprichando como sempre, separando os itens – chuteiras de cada jogador (naquele tempo esse material ia numa sacola, uma com chuteiras, outras com meiões, calções e as camisas) e tudo o mais.  Eficiente como sempre, o roupeiro categoria já estava com quase tudo bem distribuído, organizadinho e escutava no seu toca-fitas as canções de Roberto Carlos. Feliz da vida, já se imaginando entrando no avião, chegando no hotel e andando nas ruas de Curitiba, entrando no estádio Belfort Duarte, enfim…

O seu ajudante o tira de seus devaneios, avisando que o diretor “fulano de tal” estava chamando-o em sua sala lá nas dependências do clube. E ele foi ver o que era. Chegando lá, deu bom dia, sentou-se e começou a ficar intrigado com o arrodeio do cartola. Ele falava nas passagens de avião que a CBF só tinha enviado um número X, e que não dava para levar todo mundo, tinha que fazer uma opção e que, blá, blá, blá, lamentava, mas, resumindo, ele ficaria em Natal. Nosso herói sentiu o chão faltar em seus pés, disse que teve vontade de pular no pescoço do distinto, mas se controlou. Uma tristeza tomou conta dele, cabisbaixo, concordou, quase se arrastando voltou para o seu canto para terminar sua arrumação, pegar sua bicicletinha e voltar pra casa para tomar umas canjibrinas e afogar a mágoa.

Quando ia passando na sala vizinha, um outro funcionário do clube, mais ligado com a direção, chama ele no canto e diz o verdadeiro motivo dele não viajar: um sem vergonha, dirigente liso, amigo do presidente, ia acompanhar a delegação tomando seu lugar. O roupeiro ficou ofegante, furioso, mas não disse nada, voltou para a rouparia e se trancou lá dentro. Quem batia ele respondia que estava terminando de arrumar o material do jogo. Ao final, de cara amarrada, sem participar das brincadeiras do jogadores que nada sabiam, nem mesmo quis almoçar e foi embora para casa. O Masseiro, o preparador físico e outras pessoas colocaram o material, arrumado, no ônibus que ia levar a todos para o aeroporto.

O clube chega ao seu destino, no sábado pela manhã, treino recreativo nas dependências do hotel, o jogo seria no domingo. O massagista pega o material separado pelo nosso injustiçado funcionário para o treinamentos, apenas tênis e calções normais, colocado numa das malas, tudo caprichadinho como sempre. Fim da prática, descanso. E a hora do confronto chegou. Os jogadores chegam cedo ao vestiário e começam a se arrumar, camisas, meiões e a sacola de chuteiras despejadas no meio do vestiário, amarradas, para que cada jogador pegasse seu número. Como a equipe normalmente aquece de tênis, as chuteiras ficaram lá enquanto não terminava o aquecimento. Fim.  Uns minutinhos para entrar em campo e os atletas vão em buscas de suas chuteiras. Surpresa de assombrar. Um furdunço grande, um caos. Nada estava como deveria, números misturados, chuteira 43 amarrada à 38, dois pés direitos, dois pés esquerdos, corre, corre, agonia, e todas com nós tão apertados que foi preciso que várias pessoas, treinador, preparador, jogadores, médicos, supervisor, todos, todos entrassem no trabalho comum de tentar organizar os pares a tempo de entrar em campo.

O apito do árbitro soava, o delegado veio duas vezes fazendo ameaças. A equipe natalense entrou com vários minutos de atraso, pagou uma multa enorme depois, e os dirigentes furiosos, claro,  prometiam demitir o roupeiro assim que chegassem em Natal. Depois de reuniões, opiniões, análises e tudo o mais, não o fizeram, ficaram com vergonha da imprensa e torcida ficar sabendo do ocorrido e da besteira que eles fizeram ao levar um parasita no lugar de um profissional tão importante numa equipe de futebol. O assunto ainda hoje é comentado nos bastidores do futebol, entre gargalhadas dos ouvintes, sempre que acontece um encontro de ex-atletas e ex-atletas daquela época. Nunca mais eles deixaram o roupeiro em Natal.

 

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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