OPINIÃO

Abris de golpe e de luta

Há exatos dois anos vivenciamos a farsa do impeachment da presidenta Dilma. Datava 17 de abril de 2016 quando a Câmara dos Deputados, hegemonizada por canalhas, votou o que se caracterizaria como uma das etapas do golpe de Estado que vivemos no Brasil.

Era domingo, a Casa contava com 511 dos 513 deputados e deputadas que a compõem. No placar, 367 votos favoráveis, 137 contrários e 7 abstenções. Para que a farsa seguisse adiante, eram necessários 342 votos a favor. Nas ruas, em Brasília, éramos dezenas de milhares que assistíamos por meio de telões um dos espetáculos mais aviltantes da vida de cada um e cada uma que estava ali.

Com votos dedicados a família, citando os nomes de seus filhos e netos, evocando o nome de Deus, numa sessão presidida por Eduardo Cunha, parlamentares prometeram um futuro melhor para o país e festejaram o resultado, cantando o hino nacional. Temer assumiu interinamente a presidência e o restante dessa história vocês sabem…

Aqueles mesmos deputados e deputadas votaram pela mudança da Constituição para congelar investimentos em saúde, educação e segurança por 20 anos; aprovaram a lei da terceirização e votaram a favor da abertura da exploração do pré-sal por multinacionais; aprovaram a reforma trabalhista e tentaram aprovar a reforma da previdência.

Ao longo desse tempo, restou clara a intenção da coalisão golpista: retirar direitos históricos de trabalhadores e trabalhadoras; destruir as esquerdas, suas organizações e lideranças; restaurar o programa neoliberal derrotado nas urnas por quatro eleições consecutivas e manter-se no poder a força, jogando no lixo a soberania do voto popular.

Com este mesmo propósito se deu a prisão do Lula, que hoje completa dez dias: para que o cenário eleitoral possa ser redefinido sem aquele que é o líder de votos em todas as pesquisas, a despeito das incontáveis horas de jornal nacional e capas de revistas semanais dedicadas a persegui-lo. Lula livre, disputando as eleições, não fecha a conta do golpe que segue em curso no país.

Para piorar o cenário, a direita pensante segue sem candidato. Não conseguiu viabilizar uma alternativa competitiva para sustentar seu projeto de Brasil-Empresa. Quem aparece na disputa, polarizando com Lula, é o representante do fascismo, enquanto os liberais parecem ter sido abduzidos. Continuado este cenário, podemos contar que não haja eleições em outubro, em nome da “pacificação da nação”.

O caráter estrutural e classista deste golpe não permite mais ilusões sobre sua extensão. Aquela etapa do golpe que muitos acreditavam que não se concretizaria, aconteceu. A todo tempo esteve tão flagrante a arbitrariedade jurídica que muitos guardaram crença nas instituições judiciais, talvez ele próprio. Mas Lula está preso. Injustamente preso. Sem qualquer prova contra ele, preso.

Sua prisão não foi sentida de forma diferente pelos mais ou menos céticos. Saber que essa era uma possibilidade real e o desenho mais provável, não diminuiu em nada a angústia e o sofrimento em ver materializar-se a injúria, o arbítrio, a injustiça e o golpe. Afinal, é dessa matéria que se forma uma subjetividade de esquerda: de empatia com os injustiçados; de solidariedade com os que sofrem violações; de generosidade e luta pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo.

Foi com este sentimento e a clareza do que representa a prisão de Lula, que milhares de pessoas estiveram em São Bernardo do Campo dispostas a serem escudos humanos a impedir sua consumação. Não pensemos que aqueles homens e mulheres não conhecem as contradições do ex-presidente. Não pensemos que os que estão acampados em Curitiba não lutam por um programa mais radical e popular. Não sejamos arrogantes.

Os que ofereceram seus corpos como barreira à prisão, sabiam que o que está em jogo, afinal, é a sobrevivência da classe trabalhadora e das esquerdas nas próximas décadas. Assim como Lula sabia que o aparato repressor do Estado não pouparia sangue ou se constrangeria em estampar alguns cadáveres para efetivar sua prisão, caso a resistência fosse mantida.

Talvez por ser conciliador, talvez por generosidade e senso de responsabilidade, Lula não esperou para ver esse desfecho. Ele enfrentou a injustiça chamando-nos à mobilização e a denúncia, lembrando que os golpes do século 21 são feitos de manobras judiciais, mídia partidarizada e culto à intolerância. Ele manteve sua cabeça erguida, passando-nos a mensagem de que teremos ainda muitas batalhas, mas que a guerra não está perdida.

Lula encarna pessoalmente a necessidade de enfrentarmos aquilo que não fomos capazes de desafiar ao longo dos governos petistas: a propriedade privada, o monopólio da comunicação, o sistema financeiro, o sistema político e a organização do Estado, resultantes de décadas de domínio conservador sobre a política brasileira. A resistência à prisão ilegal de Lula, por sua vez, mostra a existência de uma esquerda popular e combativa, disposta à luta social.

Pela frente, temos uma disputa de projetos que ultrapassa a dimensão econômica do neoliberalismo. A disputa por uma racionalidade menos violenta, que não coisifique os seres humanos. Por uma sociedade que não seja regida pelo princípio da competição e da meritocracia. Por uma participação política que não se restrinja ao voto. Por um Estado que não seja concebido como empresa, a ser comandada por um “gestor”.

Em 17 de abril de 2016, uma etapa do golpe se consumou. Em 17 de abril de 1996, o massacre de Eldorado dos Carajás vitimou 19 pessoas, em uma operação da Polícia Militar, no Pará. Em 07 de abril de 2018, Lula foi preso ao arrepio das leis. No mês anterior, Marielle e Anderson foram assassinados. Isso deve orientar as nossas lutas.

Por todos que tombam no campo, alvos do latifúndio e do agronegócio. Por todos que tombam nas favelas e nas periferias, alvos da guerra contra os pobres. Por todos os presos políticos, alvos da perseguição e do arbítrio. Os milhões de votos no ex-presidente Lula precisam ser milhões de vozes pela sua libertação. Precisam ser milhões de vozes pela reforma agrária. Precisam ser milhões de vozes contra o genocídio da população negra e indígena.

Nesta disputa, importa dizer que muitas dessas vozes devem continuar nas ruas, acampadas, em vigílias, em mobilizações; mas haverá aquelas que não estarão nos atos porque estão sobrevivendo, desempregadas, empobrecidas, sem dinheiro para comprar o pão. Seremos capazes de dialogar com elas?

 

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Jornalista, Feminista e Militante dos Direitos Humanos