CULTURA

Acervo pessoal de Moacy Cirne com mais de 5 mil itens será doado à biblioteca municipal de Natal

Todo o acervo pessoal reunido ao longo da vida de Moacy Cirne com revistas, fotografias, cadernos, livros e recortes de jornal, num total de mais de cinco mil itens, serão doados à Biblioteca Municipal Esmeraldo Siqueira, também conhecida como biblioteca da Funcarte (Fundação Cultural Capitania das Artes).

O material veio do Rio de Janeiro, chega esta semana e está sendo catalogado e separado pela família do poeta, escritor, amante de quadrinhos e cinema, além de artista visual.

Tem muita revista especializada, muitos quadrinhos brasileiros, coisas raras e internacionais, quadrinho italiano, francês, tem também cadernos dele, boa parte da biblioteca, recortes de jornal. É um material muito rico de história do Rio Grande do Norte, Seridó, Caicó”, conta Isadora Cirne, filha de Moacy, que trouxe boa parte dos arquivos do pai de volta a Natal.

Moacy Cirne nasceu em Jardim do Seridó em 1943, morou em Natal e fixou residência por mais de 40 anos no Rio de Janeiro, onde foi professor do Departamento de Comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF) por mais de três décadas. Lá, ele lecionava aula de História em Quadrinhos, Cinema e Ficção Científica. Moacy foi a primeira pessoa a publicar trabalhos sobre quadrinhos no Brasil e tem sua pesquisa reconhecida, inclusive, internacionalmente, em premiações e festivais:

Crescemos indo ao cinema, lendo revistas em quadrinhos. Ele foi um pai muito presente, um grande amigo. Sem dúvida deixou um grande legado na nossa formação cultural e ética. Ele tinha posições políticas fortes, foi muito combativo na ditadura. Os amigos com quem ele morava foram todos perseguidos e depois desapareceram. Ele teve que voltar pra Natal e aqui ele chegou a ser denunciado, o que o deixou apavorado. Foi quando ele voltou pra Caicó, onde ficou até a poeira baixar”, revela Isadora.

Moacy Cirne e o amigo Wlademir Dias-pino (Foto: acervo Isadora)

Moacy Cirne foi para o Rio de Janeiro por volta dos 27 anos, no final dos anos 60, por causa dos cinemas de rua da Cinelândia e da paixão pelo Fluminense.

No Rio ele conheceu Wlademir Dias Pino (poeta) e o cineasta Nelson Pereira dos Santos, que foi o fundador do curso de cinema. Participa do poema processo como grande teórico do movimento, junto com outros artistas, alguns natalenses, potiguares. Isso tem gênese aqui em Natal e um ninho no Rio com ele e Wlademir. Ele contava que ia fazer uma visita rápida à cidade, mas ficou fascinado pela Cinelândia, que tinha quatro ou três cinemas, além do Maracanã. Ele era frequentador do estádio, coisa que acabamos nos tornando também”, conta Isadora que, por influência do pai, acabou se tornando bibliotecária.

Moacy Cirne em 1967, ano em que chegou ao Rio (foto: acervo Isadora)

Moacy Cirne teve duas filhas e tanto Isadora, quanto a irmã, moram no Rio de Janeiro. Aliás foi da família a iniciativa de entrar em contato com a Funcarte e trazer o acervo pessoal de Moacy do Rio para Natal.

– Não fazia sentido todo esse material ficar no Rio com a gente, apenas para nosso usufruto, ou mesmo ficar no Rio de Janeiro, onde já há locais com esse tipo de material. Teria que ficar aqui, estou muito grata pela Prefeitura ter acolhido esse acervo e dar visibilidade a ele. Eu só tenho a agradecer!”, comemora Isadora.

Moacy Cirne descobriu um câncer no fígado no final de 2013, fez uma cirurgia em 11 de janeiro de 2014 e pouco tempo depois teve uma parada cardíaca. Ainda passou alguns dias em coma induzido, mas não resistiu. Moacy Cirne faleceu aos 71 anos em Natal, no Hospital da Unimed. Além de um vasto acervo, deixou inspiração para os admiradores de sua inteligência eternizada nos traços de suas poesias em eterno processo de construção.

 

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