DEMOCRACIA

Acordão de apoio a Fábio Dantas para o Governo quer reeleger 14 deputados

O vice-governador Fábio Dantas já iniciou a contagem regressiva para deixar o PC do B e assumir o maior desafio de sua carreira. O desgaste político do governador Robinson Faria, a indefinição da candidatura do prefeito de Natal Carlos Eduardo Alves e, principalmente, a ausência de um nome eleitoralmente forte para disputar as eleições contra a senadora Fátima Bezerra (PT), líder em todas as pesquisas de intenção de voto, encorajaram o vice-governador a viabilizar sua candidatura ao Governo do Estado pelo PSB, partido controlado no Rio Grande do Norte pela família Motta. O nome dele vem sendo trabalhado nos bastidores, com o apoio de parte da Assembleia Legislativa.

O presidente estadual do PSB Rafael Motta confirmou o convite para Fábio Dantas se filiar ao Partido, feito quinta-feira passada pelo vice-governador de São Paulo Márcio França, e diz que aguarda a decisão do potiguar. A articulação em nível nacional conta com o apoio do presidente da Assembleia Legislativa Ezequiel Ferreira de Souza (PSDB) e do deputado federal Rogério Marinho (PSDB). A estratégia passa pelo Legislativo. O acordão que está sendo criado em torno da candidatura do vice-governador pretende garantir a reeleição de 14 deputados da atual legislatura. A maioria dos partidos que apoiaram Henrique Alves em 2014 estarão no palanque do vice-governador, caso a candidatura se viabilize.

Fábio Dantas ainda não confirma oficialmente a troca de sigla e admite apenas que colocou seu nome à disposição para disputar o Governo ou o Senado. A Agência Saiba Mais apurou, no entanto, que ele já comunicou ao deputado federal Fábio Faria (PSD) a decisão de seguir o próprio rumo, rompendo assim uma aliança iniciada em 2014 com o governador Robinson Faria. A filiação ao PSB deve acontecer até 20 de março em Natal, com a presença da Executiva Nacional do PSB, mas o anúncio da mudança de Partido pode ocorrer ainda durante esta semana. A deputada estadual Cristiane Dantas, esposa do vice-governador, não deve seguir com o marido para o PSB. O destino da parlamentar ainda é incerto, embora ela também não fique no PC do B.

A candidatura de Fábio Dantas, se concretizada, deve mexer no tabuleiro político do Rio Grande do Norte. Além do Governo, há conversas com o senador Garibaldi Alves Filho e com o empresário Luiz Barcellos, conhecido como o “Rei do Melão”, para compor a chapa e concorrer pelo grupo às duas vagas abertas no Senado Federal. Para atrair Garibaldi, no entanto, o prefeito de Natal Carlos Eduardo Alves teria que desistir da candidatura, o que não está descartado. O chefe do executivo municipal não tem a confiança dos deputados em razão da dificuldade no trato com o legislativo. Um perfil oposto ao de Fábio Dantas, hábil negociador e muito atuante nos bastidores.

Uma das possibilidades para ocupar o cargo de vice na chapa de Fábio Dantas está sendo costurada em Mossoró. O nome de Cadu Ciarlini, filho da ex-governadora e atual prefeita de Mossoró Rosalba Ciarlini, vem sendo cogitado.

O apoio do grupo Ciarlini a Fábio Dantas tem um preço: isolar o senador José Agripino Maia da disputa, deixando-o sem força eleitoral para viabilizar sua reeleição. É a vingança articulada pessoalmente pelo ex-deputado estadual Carlos Augusto Rosado, marido de Rosalba, em razão de Agripino Maia ter negado a legenda para que a ex-governadora tentasse se reeleger em 2014.

A força e a viabilidade da candidatura de Fábio Dantas devem ser medidas nas próximas pesquisas de intenção de voto. Difícil vai ser se desvencilhar da aliança com Robinson Faria. O vice-governador foi o principal articulador do pacote de ajuste fiscal junto aos deputados estaduais, que terminou com menos da metade dos projetos aprovados e um saldo desmoralizante para o Governo.

Nos bastidores, ele ainda conta com duas possibilidades para viabilizar seu nome e ampliar a aliança. A principal delas é a renúncia do governador Robinson Faria, opção que o próprio chefe do Executivo já admitiu que não existe. A negativa, porém, ainda não convenceu. Os deputados que apoiam o projeto encabeçado por Fábio Dantas ainda contam com essa possibilidade.

Na leitura dos parlamentares, para sobreviver politicamente, Robinson Faria depende de um cargo eletivo. O atual governador responde a um inquérito no Supremo Tribunal Federal, relacionado à denúncia de delatores da Odebrecht na operação Lava-jato, e a um processo no Superior Tribunal de Justiça oriundo da operação Dama de Espadas, na qual ele é acusado de participar de um esquema de corrupção no período em que foi presidente da Assembleia Legislativa.

Na delação premiada da ex-procuradora da AL, Rita Mercês acusou Robinson Faria de receber uma propina de R$ 100 mil por mês em benefício do esquema. Com o desgaste político e as dificuldades de se reeleger do governador, o grupo que apoia Fábio Dantas conta com a possibilidade de Robinson Faria partir para uma candidatura de deputado federal, abrindo a brecha para o vice assumir o Executivo a partir de abril. Com a caneta na mão, aliados acreditam que Dantas turbinaria sua candidatura junto às bases dos deputados e prefeitos do interior que o apoiam.

Outra possibilidade que fortaleceria a candidatura de Fábio Dantas é a desistência do prefeito de Natal Carlos Eduardo Alves, alternativa viável em razão da indefinição de Alves. Caso se licencie da prefeitura, Carlos Eduardo Alves deixaria o município nas mãos do PMDB e do vice Álvaro Dias, indicado pelo primo Henrique Eduardo Alves, atualmente preso por suspeita de corrupção em decorrência dos desdobramentos da operação Lava-jato.

 

 

Fábio Dantas sobre Robinson: “Eu posso não convergir com ele no primeiro turno, mas podemos convergir no segundo”.

 

O vice-governador Fabio Dantas conversou por telefone, na segunda-feira, com a agência Saiba Mais. Ele disse que ainda está analisando a troca de partido, mas adiantou que já colocou seu nome à disposição para o Governo ou Senado. Ao desconversar sobre o projeto para o Executivo em 2018, Fábio Dantas manteve um discurso de candidato. Sobre Robinson Faria, o agora ex-aliado afirmou que o governador terá que decidir que caminho vai seguir daqui para frente. E deixou claro que, pelo menos num hipotético 1º turno, os dois estarão em lados opostos.

– Coloquei meu nome à disposição porque ninguém pode construir uma candidatura de si próprio, vai depender do que os partidos entenderem que deve ser feito. A ideia é apresentar uma nova forma de fazer a atividade política no nosso Estado. Estou conversando com um grupo de amigos para que a gente consiga fazer o Rio Grande do Norte sair desse estado. Agora o governador tem que entender o caminho que ele vai seguir. O governador tem o pensamento dele e eu tenho o meu. Eu posso não convergir com ele num primeiro turno, mas podemos convergir num segundo turno.

 Fábio Dantas fez questão deixar claro que foi bem acolhido pelo PC do B. Sobre a crise criada a partir da defesa dele e favor do pacote de ajuste fiscal do Governo, o vice-governador afirmou que não fez nada diferente do que a esquerda não tenha feito em outros Estados.

 – O PC do B me acolheu de braços abertos, sempre me senti confortável no partido. Agora os planos do ano passado, em outubro, e o pacote de ajuste do Governo não é nada diferente do que a esquerda enviou no Ceará, no Maranhão. Agora teve maiores desdobramentos com alguns militantes que realmente desejam uma disputa maior. Mas eu prefiro mais pensar o Rio Grande Norte para discutir e enfrentar os problemas.

Questionado sobre como o governador Robinson Faria reagiria em relação à decisão do vice em seguir seu próprio rumo, Fábio Dantas destacou que sempre agiu com independência:

 – Não sei o processo, não sei se o que eu penso é a mesma coisa que ele pensa. Sempre fiz meu processo eleitoral com muita independência.

 

PSB votou contra o pacote de ajuste fiscal articulado por Fábio Dantas

 

Embora controlado pela família Motta, representada pelo deputado estadual Ricardo Motta e pelo federal Rafael Motta, a articulação que está levando Fábio Dantas para o PSB foi feita pelo presidente da Assembleia Legislativa Ezequiel Ferreira de Souza (PSDB). Há entre os aliados de Fábio Dantas a certeza de que não existe hoje um candidato eleitoralmente forte para disputar a eleição contra a senadora Fátima Bezerra (PT). O estilo liberal de Fábio Dantas, que ficou claro na defesa que ele fez do pacote de ajuste fiscal do Governo junto aos deputados estaduais, é uma aposta para fazer a contraposição ideológica à petista.

Fábio Dantas e a deputada estadual Cristiane Dantas não confirmam publicamente, mas estavam sem clima no PC do B. Enquanto a cúpula do partido fazia força para segurar o casal, a base dos comunistas pressionava para a saída dos dois. Em tese, o clima no PSB será bem mais tranquilo. Um fato, porém, chama a atenção: a maioria dos deputados do PSB votou contra o pacote de ajuste fiscal articulado por Fábio Dantas em nome do Governo.

Dos três deputados da sigla, apenas Tomba Faria ficou ao lado do Executivo. Ricardo Motta e Larissa Rosado votaram contra a maioria dos projetos.

Questionada se essa divergência causaria algum problema para o novo correligionário, a deputada Larissa Rosada negou e ressaltou o compromisso do vice-governador:

– Essa questão não vai ter peso. A chegada do vice-governador Fábio Dantas é boa para o Partido. Tivemos uma convivência harmoniosa com Fábio Dantas no tempo em que ele era deputado. Foi um parlamentar que cumpria os acordos.

 

PC do B aguarda posição oficial de Fábio Dantas

 

 O PC do B ainda aguarda uma resposta oficial do vice-governador Fábio Dantas sobre sua desfiliação do Partido. A expectativa dos comunistas era de que assim que Dantas chegasse de viagem haveria uma reunião entre ele e o presidente da sigla Antenor Roberto, o que não ainda não ocorreu. O secretário-geral do PC do B Carlos Albérico afirmou que tudo o que os dirigentes sabem até o momento, em relação à ida de Fábio Dantas para o PSB e sua pré-candidatura ao Governo, foi o que saiu na imprensa. Ele cobra uma definição do vice-governador para que o PC do B também possa se planejar eleitoralmente.

– O combinado é que ao retornar ele iria conversar com o Antenor (Roberto, presidente do PC do B), mas essa reunião ainda não aconteceu. Ele se reuniu semana passada com a presidenta nacional do PC do B Luciana Santos onde também foi colocado esse cenário para o Governo ou Senado. Sabemos apenas o que está sendo divulgado, as pessoas colocando que ele está decidido a ser candidato (PSB). Mas precisamos ter uma definição. Temos uma preocupação, como os demais partidos de esquerda, que é a cláusula de barreira. E precisamos definir nossa estratégia. Na terça-feira teremos uma reunião com a comissão política do PC do B e na quarta uma reunião com o PT.

 

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"