OPINIÃO

Adeus, Aldir !

Maio mal chegou e, numa segunda-feira chuvosa, traz a triste notícia: Aldir Blanc morreu.

Internado desde o dia 10 de abril em decorrência da famigerada Covid-19, num quadro de pneumonia e infecção urinária que logo se converteu em infecção generalizada, Aldir Blanc dispensa qualquer apresentação: o compositor e escritor que completaria 74 anos em setembro, figura como um dos nomes máximos da música popular brasileira, sobretudo com a genial parceria junto a João Bosco, que rendeu pérolas como “ Kid Cavaquinho”, “Incompatibilidade de Gênios” e a célebre canção “O Bêbado e a Equilibrista”, espécie de hino contra a ditadura militar e a campanha pelas Diretas Já.

Aldir morreu sedado e entubado, internado em um hospital particular no Rio graças ao empenho de amigos, já que não tinha convênio médico. Mas não é essa a imagem que quero evocar do grande Aldir. Quero evocar o alegre encontro que sua pessoa e obra ilustravam, de convergência entre literatura, boemia e resistência.

A figura do artista/escritor boêmio de modo algum é novidade na história, mas sem dúvida é em Aldir Blanc que encontra sua melhor representação na nossa cultura popular. Suas crônicas (escreveu para os jornais O Dia, O Globo, O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil e Última Hora, além, é claro, de participar de veículos do melhor do humor brasileiro, como O Pasquim e Bundas) são retrato fiel das artimanhas do brasileiro médio: esse que, entre uma e outra patifaria do cenário político, vai se safando entre um “buteco” (era assim mesmo que ele fazia questão de grafar) e um carnaval.

E por falar em patifaria política, recordo uma das deliciosas crônicas da sua antologia biriteira: no livro Direto do Balcão (Rio, Ed. Mórula, 2017). Intitulada “Enquanto isso, no Bar K.”, conta do encontro com uma travesti cujo nome de guerra era Martina por gostar de umas “raquetadas”. Daí segue o diálogo:

– E tem apelido familiar?

– Dois.

– Dois?!?

– É. Quando estou um doce meu apelido é Já-Já de Coco; quando rodo a baiana, e fico completamente histérica, mamãe me chama de Bolsonaro.

É isso, aí, mestre. Aldir Blanc nos ensinou que só rindo mesmo para não morrer de chorar. A minha dose de hoje vai em sua homenagem e em sua memória eu brindo!

Evoé!

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