DEMOCRACIA

Adurn suspende projeto “Na trilha da Democracia” após novo ataque de Bolsonaro aos sindicatos

Para quem ainda duvidava que o governo Bolsonaro era uma ameaça à democracia, a prova chegou. A Adurn-Sindicato anunciou nesta segunda-feira (17) a suspensão do projeto “Na trilha da Democracia”, iniciativa que trouxe a Natal 12 personalidades de reconhecimento nacional, entre 2016 e 2019, para debater os ataques e ameaças ao Estado democrático de direito no país.

O motivo da suspensão é o efeito da Medida Provisória 873, editada ainda no carnaval, que atropela a Constituição Federal ao exigir que o pagamento das mensalidades sindicais seja feito exclusivamente via boleto bancário, o que obrigaria todos os sindicatos do país a criar uma estrutura de cobrança atrelada a algum banco. Atualmente, a cobrança é realizada diretamente, com autorização do sindicalizado, via desconto em folha.

O Adurn-Sindicato conseguiu derrubar a MP com uma liminar conquistada na 1ª Vara Federal, mas semana passada o Governo Bolsonaro cassou a liminar na Justiça:

– O recurso que recebemos mensalmente, a MP 873 do governo retirou do contracheque e ordenou que a gente fosse atrás de cada professor e aposentado individualmente para que esse professor autorize o débito em conta. Ora, somos 2.500 professores e o governo sequer deu um prazo para que essa transição fosse feita”, desabafa Wellington Duarte, presidente do Adurn-Sindicato.

A última edição do projeto antes da suspensão ocorreu nesta segunda-feira (17) com debate com o governador do Maranhão Flávio Dino (PCdoB). Na ocasião, Duarte destacou a necessidade de reavaliar os custos do projeto:

– Estamos suspendendo para avaliar os recursos do sindicato. Temos limites de recursos e o “Na Trilha da Democracia”, que tem custo bastante significativo, tem que ser colocado no papel”, disse.

O debate com o teólogo Leonardo Boff levou tanta gente ao auditório da reitoria que um telão precisou ser instalado na parte externa

Esse é o segundo projeto importante na área de educação suspenso em 2019 na UFRN por interferência do governo Bolsonaro. Há duas semanas, a reitoria divulgou o cancelamento da Cientec, principal feira de ciência e tecnologia da universidade, após o Ministério da Educação confirmar que os cortes no orçamento não seriam revertidos.

O “Na trilha da Democracia” foi criado em 2016, às vésperas do golpe que retirou do Palácio do Planalto a ex-presidenta eleita Dilma Rousseff, não por acaso uma das convidadas das 12 edições do projeto ao longo dos últimos três anos.

O projeto é realizado pela Adurn em parceria com o Sindicato dos Petroleiros e a Frente Brasil Popular.

Além da ex-presidenta da República, participaram como convidados nomes do jornalismo como Luís Nassif, Paulo Henrique Amorim e Paulo Moreira Leite, os cientistas sociais Emir Sader e Jessé Souza, os geólogos Rodrigo Leão e Guilherme Estrela, considerado o “pai do Pré-sal”, o economista e presidente da Fundação Perseu Abramo Márcio Porchman, o teólogo Leonardo Boff, a deputada federal Jandira Feghali e o governador do Maranhão Flávio Dino.

Responsável pelo anúncio da suspensão do projeto, Wellington Duarte listou os ataques de Bolsonaro aos sindicatos para justificar a interrupção da iniciativa:

– Estamos suspendendo por causa dos custos que envolvem um evento dessa qualidade e porque os sindicatos estão sendo atacados. Nossos recursos foram capturados pelo governo federal com a Medida Provisória 873 e estamos na luta, só não sabemos quando será regularizada essa situação. Portanto, para evitar gastos excessivos, até pela qualidade que tem o projeto, decidimos suspender até que tenhamos condições financeiras para voltar a produzir”, diz.

O sociólogo Jessé Souza é um dos grandes pensadores contemporâneos do país

Após três anos e 12 edições do projeto, uma média de quatro debates por ano, o presidente da Adurn-Sindicato destacou a importância da ação:

– O balanço é positivo, principalmente em termos de qualidade, do histórico, rende material de palestras com pessoas de alta qualidade. Tivemos como convidados de uma ex-presidenta da República a um governador do Estado, profissionais de alta capacidade técnica, como Guilherme Estrela, convidados de alta projeção nacional. Qual é o sindicato que tem essa ousadia de fazer um projeto desse num momento como o que estamos vivendo ?”, exaltou.

Mas nem tudo são louros na trajetória do projeto “Na Trilha da Democracia”. A Adurn-Sindicato, assim como a própria UFRN, vem sendo alvo de críticas da imprensa de direita e extrema-direita do Rio Grande do Norte em razão do perfil ideológico dos convidados, todos ligados ao campo progressista.

Duarte reconhece a importância de algumas críticas, mas ironiza os chiliques da representantes da extrema-direita no Estado:

– Engraçado seria se a gente trouxesse Bolsonaro ou os filhos dele para falar sobre a destruição das universidades. Acho que as críticas, algumas a gente compreende, outras são meramente oportunistas. O Sindicato não tem perfil ideológico, mas a direção tem um perfil progressista e estamos na resistência democrática. Então, com todo o respeito, não caberia trazer aqui o Carlos Bolsonaro pra falar sobre resistência democrática, concorda?”, diz

Além do projeto “Na trilha da Democracia”, a UFRN não terá mais no segundo semestre a Cientec. Para o presidente da ADURN-Sindicato, as perdas da universidade são fruto do projeto político federal:

– O governo Bolsonaro tem atuado em várias frentes: a institucional, com os cortes no custeio e investimento das universidades; a frente sindical, destruindo os sindicatos pela Reforma Trabalhista e pela MP 873; ataca na Previdência Pública, ataca pela Cultura, pelo desmatamento, quer dizer, não há nenhum setor da sociedade que esteja imune ou distante aos ataques desse governo. É um governo de destruição, não é um governo de mudança nem para o campo da direita. É um campo de destruição do tecido social do Brasil a troco de você ver agora os vazamento dos diálogos que flagraram um conluio entre procuradores e um juiz, além da queda brutal no nível de desenvolvimento. Estamos regredindo ao século 20”, analisa.

Os 12 convidados do projeto Na Trilha da Democracia

Paulo Henrique Amorim – jornalista
Guilherme Estrela – geólogo considerado “o pai do Pré-Sal”
Márcio Pochman – economista, professor e pesquisador
Paulo Moreira Leite – jornalista
Jessé Souza – sociólogo, professor e pesquisador
Emir Sader – sociólogo, professor e pesquisador
Luís Nassif – jornalista
Dilma Rousseff – ex-gestora pública e presidenta deposta por um
Golpe de Estado.
Rodrigo Leão – pesquisador da área de petróleo
Leonardo Boff – teólogo e escritor
Jandira Feghali – deputada federal
Flávio Dino – governador do Maranhão

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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