OPINIÃO

Agnotologia: a construção (intencional) da ignorância

Agnotologia é um termo criado pelo historiador norte-americano Robert Proctor – professor da Universidade de Stanford (Estados Unidos)- e significa o estudo das políticas de produção da ignorância e é o título de um livro de ensaios dele em parceria com Londa Schiebinger publicado em 2008 Agnotology: The Making and Unmaking of Ignorance (Agnotologia: a construção e a desconstrução da ignorância) onde o conceito aparece de forma mais sistematizada. Ele é autor de outros livros como Golden Holocaust, Bibliographical Essays e Atomic Habits: An Easy & Proven Way to Build Good Habits & Break Bad Ones (2019).

O livro Angotology: The Making and Unmaking of Ignorance foi resultado das leituras e pesquisas iniciadas quando se teve acesso a um documento secreto da indústria do tabaco nos Estados Unidos e tornado público em 1979. O documento, intitulado “O Tabagismo e a proposta de saúde” e sua leitura revela as estratégias de marketing da empresa Brown & Williamson Tobacco Corporation (criada em 1918) que produz várias marcas de cigarros.

No livro há a informação de que, naquele momento, o cigarro havia se tornado a droga mais usada no planeta, ultrapassando a produção de seis trilhões por ano. No entanto, havia surgido em vários países e nos Estados Unidos em particular, movimentos antitabagistas em função dos efeitos maléficos do seu uso contínuo, especialmente relacionados ao câncer de pulmão. E diante das denúncias, os fabricantes tinham que bloquear ou desqualificar informações e pesquisas que apontavam os riscos do cigarro para a saúde e para isso precisava – contou – com a legitimação de médicos especialistas para desenvolver uma estratégia de marketing visando se contrapor aos seus críticos.

O documento revelou como ela atuou usando intensa e bem elaborada propaganda em defesa do uso de cigarros, visando neutralizar os esforços de antitabagistas, e a considerar a produção subseqüente de cigarros, teve êxito.

Esta foi a fonte inicial das reflexões e pesquisas de Roberto Proctor e para ele, o que se viu foi uma manipulação sistemática (e sofisticada) das informações, que resultou no ele chamou de produção deliberada da ignorância, seja manipulando e falsificando informações, seja ocultando seus malefícios (no caso específico, dos cigarros).

O livro foi publicado em 2008 e como diversos estudos revelaram, a política de construção da ignorância permaneceu e hoje é ampliada com o uso de novas tecnologia para o convencimento e que vai muito além da indústria tabagista, sendo uma estratégia usada por governos e empresas, por exemplo, em relação a muitos temas como o aquecimento global, vacinas, racismo etc.

A pergunta central em Agnotologia é como se constrói e se mantém a ignorância e quais as suas conseqüências, inclusive políticas, porque também é usada como instrumento político e indaga: por que não sabemos o que não sabemos? Há uma lógica que explica a construção intencional da ignorância e nesse sentido, ela é não apenas ausência de conhecimento, é também construída intencionalmente.

Para eles, a ignorância tem uma história (e geografia) política no qual há por parte de governos, indústrias etc., coisas que não querem que as pessoas saibam. Por exemplo, o slogan da indústria de tabaco nos Estados Unidos era justamente “a dúvida é nosso produto” e é exatamente a dúvida que deve ser cultivada entre os antitabagistas. Será que cigarros fazem mesmo tão mal assim?

Em tempos de pandemia, como o que vivemos agora, há uma verdadeira indústria de desinformação, de construção da ignorância como, entre muitos exemplos, chamar a covid-19 de vírus chinês ou atribuir à China a sua criação intencional “para dominar o mundo”, da mesma forma, a indicação de uso de medicamentos sem qualquer eficácia para combater o vírus (quem será que lucra com isso?), críticas ou desconfiança em relação à eficácia de vacinas e até mesmo contestar a forma da terra (afirmando absurdos como “a terra é plana”), etc.

O problema, como destaca Robert Partor não é a existência de governos, pessoas e empresas que fazem uso consciente e sistemático de mentiras e manipulações, de construção da ignorância, mas ter quem acredite, mesmo podendo ser vítimas das suas consequências, como o uso de medicamentos inadequados por podem causar mais danos do que benefícios (e até mesmo morte de pacientes) e não apenas encontrar na sociedade pessoas que acreditam, como contribuem para sua divulgação, hoje ampliadas através das redes sociais.

Como combater a desinformação e a ignorância cultivadas intencionalmente? Uma alternativa é a checagem, a alfabetização midiática, para não contribuir e nem ser vítima, como, por exemplo, compartilhando conteúdos na internet sem checar sua veracidade e hoje existem, inclusive no Brasil, várias agências que ajudam nesse sentido como Agência Lupa, Aos Fatos, Fato ou Fake, Comprova e FactCheck.org. que têm feito um trabalho muito importante no combate as mentiras e manipulações.

Um avanço no país foi o Marco Civil da Internet em 2014 (lei n. 12.965), mas, ao que tudo indica, não tem conseguido coibir com eficácia os abusos, mentiras etc., especialmente em períodos eleitorais. Como se sabe, foram construídas poderosas máquinas de produzir mentiras (pós-verdade), notícias falsas (fake news) para influenciar pessoas (o que conseguiu), além do uso de robôs para inflar acessos, desqualificar e atacar adversários e que continuam a agir (quase) impunemente.

Hoje, com as novas tecnologias há muitas formas de manipular informações, com diversas formas de montagens, com vídeos (falas fora do contexto), fotos etc. Um caso recente no Brasil foi à publicação de uma foto como se fosse tirada no dia 1 de maio, de uma multidão na praia de Copacabana no Rio de Janeiro e que (supostamente) tinha sido notícia no jornal New York Times, dos Estados Unidos. Na foto, uma legenda com a frase “O Brasil autorizou” sugerindo que se tratava de uma manifestação de apoio ao presidente da República. Teve milhares de compartilhamento. No entanto, foi desmascarada, desmentida inclusive pelo New York Times. Na verdade era uma foto tirada quando o papa Francisco esteve no Rio de Janeiro em julho de 2013, e segundo estimativas na época cerca de 3,5 milhões de pessoas se reuniram para participar da missa na praia de Copacabana. A imagem mostra a missa que encerrou a 28ª Jornada Mundial da Juventude (https://www.aosfatos.org/noticias/foto-de-missa-do-papa-no-rio-em-2013-e-atribuida-em-posts-ato-pro-bolsonaro/).

Quanto à foto que teria sido publicada no jornal New York Times, uma matéria publicada no dia 3 de maio de 2021 no jornal O Globo diz “É #FAKE capa do New York Times enaltecendo atos pró-Bolsonaro no Dia do Trabalho. Trata-se de uma montagem. Erro de grafia na manchete denuncia falsidade; fotos também são antigas. Jornal americano fez tuíte dizendo estar ciente da ‘manipulação’ (…) “Trata-se de uma montagem grosseira. Um erro de grafia logo na manchete já denuncia a falsidade. Em vez de “wants”, a palavra está escrita com h: “whants”. A tentativa era dizer algo como “O Brasil quer ser livre”. Também há um erro clássico de tradução na outra chamada, que aparece como “Brazil from Bolsonaro”. (https://g1.globo.com/fato-ou-fake/noticia/2021/05/03/e-fake-capa-do-new-york-times-enaltecendo-atos-pro-bolsonaro.ghtml).

Mas o importante é destacar que fotos e montagens como essa (que é apenas um exemplo recente) são dirigidas basicamente para um público segmentado, que tende a acreditar na sua veracidade e não vai conferir se a informação é verdadeira ou falsa, ou seja, podem (e são) enganados e muitos são incapazes de perceber a manipulação e seu uso político.

No artigo Amizade antes da verdade, publicado no jornal O Estado de S.Paulo no dia 6 de maio de 2021 Guy Perelmuter afirma que “O poder de narrativas falsas sobre as pessoas parece estar ancorado não na mentira que está sendo contada, mas em como essa mentira serve para fortalecer o elo social que conecta um grupo específico de familiares, amigos ou conhecidos”.

E cita o artigo “Por que fatos não mudam nossa opinião” (no original, Why Facts Don’t Change Our Minds), do escritor norte-americano James Clear e um trecho de um dos livros dele Atomic Habits: “Os humanos são animais de rebanho. Queremos nos ajustar, nos relacionar com outras pessoas e ganhar o respeito e a aprovação de nossos colegas. Essas inclinações são essenciais para nossa sobrevivência. Durante a maior parte de nossa história evolutiva, nossos ancestrais viveram em tribos. Ficar separado da tribo – ou pior, ser expulso – era uma sentença de morte.” (o livro foi publicado no Brasil em 2019 pela editora Alta Life com o titulo Hábitos atômicos: um método fácil e comprovado de criar bons hábitos e se livrar dos maus).

No citado artigo – Why Facts Dont’s Change Our Minds (disponível em https://jamesclear.com/why-facts-dont-change-minds) James Clear toca em aspectos importantes que talvez nos ajudem a refletir sobre o fato de o porquê as pessoas não mudam de opinião, mesmo que suas crenças contrariem os fatos, a lógica e a sensatez quando elas estão convencidas que estão certas.

Um aspecto relevante nesse sentido é: se queremos esclarecer, mostrar as pessoas com quem discordamos que elas estão erradas, como fazer isso? Como dialogar com elas, especialmente se não quer ouvir, com suas crenças e certezas inabaláveis?

Primeiro, nem todos com quem discordamos são fanáticos (que não duvidam e não mudam de opinião) ou se tornaram e segundo, uma idéia do autor é que deve ser evitado o confronto público, porque expõe a fragilidade deles, por falta de argumentos com um mínimo de racionalidade e isso só trará desconforto e não os farão mudar de idéia porque dificilmente vão admitir em público que estão errado(a)s.

Para James Clear estamos tão empenhados em vencer um debate que nos esquecemos de nos conectar com quem discordamos. Ao desqualificar os adversários, tratando-os como inimigos, estúpidos, imbecis e manipulados não vai ajudar. Só vai conseguir afastá-los cada vez mais, ou seja, só contribui para a manutenção da polarização e a integração deles aonde são aceitos.

Convencer alguém mudar de opinião é uma tarefa muito difícil se a pessoa está firmemente persuadida que já sabe, sem qualquer sombra de dúvida e um dos argumentos do autor é que se alguém abandona suas crenças, corre o risco de perder seus laços sociais, e diz que não se pode esperar que alguém mude suas opiniões se você tira deles seu pertencimento, ou seja, tem de colocar algo no lugar, ninguém quer que de seus pontos de vista (por mais equivocados que consideremos) “sejam dilacerados se a solidão for o resultado”. O problema, diz ele, concordando com uma citação do filósofo inglês Alan de Boton, é que nós simplesmente desprezamos aqueles que discordam de nós.

Se a ignorância é intencionalmente construída, devemos ter a capacidade de contribuir para sua desconstrução e nesse sentido, o diálogo é imprescindível, com respeito às diferenças, com argumentos e não a desqualificação prévia. Como diz o grande escritor japonês Haruki Murakami, citado por ele “sempre se lembre que argumentar, e vencer, significam desconstruir a realidade da pessoa contra quem você está argumentando. É doloroso perder sua realidade, então seja gentil, mesmo se você estiver certo”.

 

 

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