OPINIÃO

Agora é que são elas

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Desde 1989 não temos tantas opções para ocupar o Palácio do Planalto. Foram treze nomes registrados no TSE nesse mês de agosto. Desses, apenas duas mulheres figuram na lista. A companheira Marina Silva da Rede e a camarada Vera Lúcia do PSTU. Após duas eleições em que o Brasil colocou uma mulher no cargo mais alto da República, parece pouco. Mesmo assim, De Sônia Guajajara, a primeira  mulher indígena em uma chapa presidencial, candidata a vice do PSOL, até a senadora Ana Amélia do Partido Progressista, vice de Geraldo Alkimin, passando por Kátia Abreu e Manuela D´ávila, vice de Haddad caso se confirme a cassação do registro da candidatura do ex-presidente Lula, é bem provável que tenhamos alguma mulher ocupando o cargo máximo da República nos próximos quatro anos, mesmo que eventualmente.

Vejam que até o capitão Jair Bolsonaro tentou encontrar sua vice na figura de Janaína Pascoal, a entusiasmada musa do golpeachement de 16. O problema para o capitão é que as últimas pesquisas do IBOPE mostram que sua chapa verde-oliva tem apenas 13% de intenção de votos entre as mulheres, enquanto que o ex-presidente Lula, de dentro da sua cela em Curitiba conta com 39% de preferência nesse mesmo eleitorado.  

Não é à toa. Um candidato que tomou para si a bandeira do combate cultural e que trata as pautas identitárias e de gênero como “mimimi de esquerda” não deve ter tanta influência assim em meio a um eleitorado acostumado a sofrer na pele, cotidianamente, os efeitos de uma cultura misógina como a brasileira.

Num país que viu o feminicídio crescer 22%, saltando de 929 casos em 2016 para 1.133 em 2017 e de quebra teve, só no ano que passou, registrados 221.238 casos de violência doméstica contra mulheres, cerca de 606 por dia, a chapa puro sangue do PSL, com o capitão e o general, não parece estar fazendo muito sucesso entre o eleitorado feminino.  Isso é um problema sério para as pretensões da extrema direita tupiniquim que sonha com um governo fardado. Isso porque as mulheres compõem 52,5% do eleitorado. No pleito atual, isso implica 7.436.871 votos a mais do que os homens.

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Mesmo com esses números pouco favoráveis junto ao eleitorado feminino e com os índices de rejeição já pipocando, não convém subestimar a expressão política do capitão Bolsonaro. Há algo de estrutural por trás do bizarro fenômeno do “mito” da extrema direita brazuca.  Algo que só Freud explica.

E explica mesmo.

Em seu texto de 1921 intitulado Psicologia de massas e análise do Eu, o doutor Freud se debruça sobre uma misteriosa questão que também inquieta os analistas políticos do Brasil em 2018: o que levaria seres, supostamente racionais e civilizados, a abrir mão de seu senso crítico e de sua maioridade intelectual para submeterem-se cegamente a um líder autoritário, por mais tosco e bizarro que ele seja?

Colocando a sociedade européia do entre guerras no divã, o doutor Freud conseguiu prever, com alguns anos de antecedência, o advento dos regimes nazi-fascistas, abordando a função psicossocial do ódio.

Em momentos de desalento, onde a frustração de expectativas positivas e a piora nas condições de vida das populações fragiliza nossa esperança no futuro, o ódio se torna um poderoso instrumento de coesão social. Odiar junto pode ser uma boa forma de nos sentirmos parte de alguma coisa, pertencentes a algum grupo, alguma tribo, alguma doutrina política ou religião que diminua essa sensação avassaladora de solidão que alimenta nossos pesadelos recorrentes e nossa vexaminosa sensação de impotência.

A instrumentalização das frustrações coletivas gera uma identificação imediata com o “homenzinho comum” que exterioriza sem medo um discurso violento, por meio de uma comunicação tosca, direta e não mediada por estratégias retóricas sofisticadas ou pelas regras de bom gosto do discurso público.  

A figura desse líder que não tem “papas na língua”, que “fala o que pensa” e que não se rende a artificialidades é também uma figura imaginária de poder.  O macho alfa que está acima das regras de etiqueta social e do bom senso discursivo é alguém que se projeta como se estivesse acima do mundo ordinário e das convenções sociais, porque, afinal de contas, ele é a fonte da lei que institui o mundo social.

O mito da figura paterna de nossas fantasias infantis vem embalado com a crença em um poder protetor de um pai soberano que vai castigar meus inimigos. É esse pai, temido por quem me ameaça, que vai me proteger, castigando os criminosos vagabundos que tiram minha segurança.

É por isso que figuras como Trump, Hitler ou Bolsonaro infantilizam seus eleitorados (não esqueçam que os alemães colocaram o partido de Hitler no Reichstag pelo voto). A postura de submissão diante do líder é uma postura de regressão aos estados infantis. Uma volta ao sentimento acolhedor do lar e a dinâmica psicológica que me livra do ônus das frustrações de minhas próprias escolhas e que me liberta do peso de minha maioridade política.

Tal qual o garotinho choroso que volta para a proteção do papai após ter sido ameaçado pela gangue da escola, um segmento específico do eleitorado bolsonarista  (mas não sua totalidade, é muito importante ressaltar) tem realmente a idade emocional de 11 ou 12 anos, mesmo que tenham a idade cronológica de 40 ou 50. Essa dinâmica, me arrisco a pensar, afeta bastante um tipo particular de homem, moído em suas fantasias de poder pelo avanço das “pautas das minorias” e pelo “empoderamento feminino” e pela “cultura gay” que ameaça destruir a tradicional família brasileira (o último refúgio para nossas fantasias infantis de proteção em um mundo em constante crise que parece sempre corroer nossa segurança em uma liquidez obscena).

Por isso, para medir o potencial eleitoral do fenômeno Bolsonaro e se seus apoiadores podem levá-lo ao segundo turno, é preciso colocar na mesa a abrangência não apenas do diagnóstico do dr. Freud, mas também a reação do eleitorado feminino às fantasias psicossociais de seus pais, filhos, irmãos e maridos em busca da potência perdida.

No fim das contas é provável que sejam mesmo elas, as mulheres brasileiras, que vão definir o destino do mito Bolsonaro, quer seja dando lastro a seu discurso infantilizador ou sepultando, ao menos momentaneamente, as expectativas de realização das fantasias psicossociais da extrema direita.

Agora, amigo velho, é que são elas.

 

Veja aqui comentário de Pablo Capistrano em vídeo, exibido pela TV Universitária.

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Pablo Capistrano
Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.

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