OPINIÃO

Ah, os livros… parte 2

Anúncios

Ah, os livros…

Na semana passada, comentei a respeito do livro de contos “Agouro”, de Márcio Benjamin, com histórias de terror ambientadas no sertão. Quando não puder escrever um livro de contos, leia um livro de poemas, eu sempre disse a mim mesma nos meus momentos de hiato criativo. Falemos de poesia, pois.

Mas antes, já que falamos de contos, preciso dizer que um escritor que participou de minha formação e que fez também um tantinho minha cabeça nessa trajetória de poeira cósmica que sou foi Moreira Campos, um cearense-contista mega melhor do que tantos que se arvoram escritores (incluindo esta pessoa aqui). E antes que (im)possível leitor queira saber o que com isso tem a ver, informo: os cães veem coisas. E contistas fazem (também) filhas que podem vir a também escrever. Tal qual Natércia Campos, cearense e contista que, além de filha de Moreira Campos, foi também amada-amante de outro grande, lá do sertão potiguar, de gibão sem igual: Oswaldo Lamartine.

E já que falamos também em Ceará, lembro que é a ele que Rachel de Queiroz dedica seu último livro, o “Memorial de Maria Moura”. Foi o reconhecimento da autora de “O Quinze”, primeira mulher imortal das Letras no Brasil, da fazenda “Não me Deixes”, nas quebradas do Quixadá, como a personagem Moura haveria de matar um amor ingrato à facada.

O mestre do sertão, vivo fosse, faria 100 anos, o que não é para todo mundo (Patativa do Assaré quase chegou lá). Nunca que eu ousaria atrever-me a falar de Oswaldo Lamartine, cuja vida, obra e morte dizem a grandeza dele por si só. Mas me permito cometer outro atrevimento: comentar um livro de poemas que, para mim, além de qualquer espalhafato, fez a melhor homenagem que poderia se fazer nesse ano que passou:

O “Livro de O.”, de Adriano de Sousa.

Cito três motivos.

O primeiro é que o livro, como objeto cultural, marcado no tempo e no espaço, itinerante e tátil, é belo. Belo. Não chega a ser o que se poderia dizer um “livre-jeu” (esses casos que brincam ao máximo com a própria materialidade e design do livro, o que aí já seria de torar o juízo de qualquer ateu, mulçumano, ayuasqueiro, macumbeiro ou cristão). Ainda assim, o livro do poeta de Seertão é belo. E o que é uma beleza, além de uma alegria para sempre (como disse Keats) ou de um conceito (como disse Bandeira)? Dentre tantas imprecisões, para além da capa e da fonte (quem sabe o que é escrever em máquina de datilografia vai entender), a beleza de um livro pode ser aquilo tudo que se acumula em sua história e que acontece não importa quem o saiba ou leia. Exemplo: se não me engano, esse é o primeiro título que o autor, também editor (juntamente com sua parceira-musa-cúmplice Flávia Assaf) do selo “Flor do Sal”, decidiu enfim publicar. Só depois de mais de 30 títulos lançados pelo selo editorial é que seu autor-editor quis também se autoproclamar. Isso, para mim, já merece todo respeito.

O segundo motivo, na verdade o principal, é a poesia em si. O que seria do mundo, da vida e de nós sem poesia? Os versos de Adriano de Sousa podiam estar escritos em papel higiênico que ainda assim seriam registro daquilo do que mais BELA poesia se faz, por ora, nesta Natal cidade. Por sua linguagem lapidada finamente, pela riqueza de imagens oferecidas, pelo misto sem igual entre o que é terno e o que é seco: sim, seus versos são de uma ternura seca e de uma secura terna. E Adriano de Sousa concilia tudo isso a uma bonita homenagem, fazendo uma espécie de registro histórico sobre a obra de Oswaldo Lamartine, aquele que também organizou, para quem não sabia ou esqueceu, o clássico da poesia pornô-erótica – “Uns fesceninos”. Vejo esse registro, por exemplo, quando o poeta ecoa verso que alude ao grande, mas vai mais além:

 

Sê a minha bananeira

De talho poroso e macio,

E cede à minha leseira

Tua carne triste, sem cio.

 

Sê égua no barranco,

Mansa quão indiferente;

Minha puta, meu cancro,

Meu pânico de adolescente.

 

Sê minha carne mijada,

Meu verso mais fescenino,

A escorrer pela tua cara

Feito esporro de menino.

 

Apascenta-me os demônios.

Arregaça o meu cabresto.

Faz-me teu cão sem dono.

Sê minha morte, meu texto.

 

O que se pode ainda dizer depois de um poema desses? Qualquer comentário será inútil. Em vez de reduzí-lo e manchar seu brilho com qualquer pretensa explicação, melhor seria montar em égua triste e se escafeder por outros caminhos.

Mas ainda há um terceiro motivo para dizer e amar este livro que me salvou em 2019: eu não fui ao seu lançamento, certamente uma outra alegria, bonita como boa sorte. Não fui, embora quisesse ir. Quis ir e eis aí um bom motivo para um livro se querer e desejar: não fui porque não pude, e enquanto outr@s comemoravam lá em Abayomi a poesia que no mundo ainda há, os fantasmas de Rachel, Natércia, Moreira e Oswaldo me atiravam facas pela dor da ausência, a ser enfim consolada quando, finalmente, com o livro em mãos.

A respeito de livros que me comoveram em 2019, vou comentar mais um na próxima semana, coincidentemente, também atravessado pela paisagem sertaneja.

Artigo anteriorPróximo artigo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *