OPINIÃO

Ah, os livros… parte 3

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Promessa é dívida, reza a sabedoria popular. Então, já que afirmei em artigo anterior que fecharia o ciclo de três textos meus sobre alguns dos livros que li no ano passado (os três sobre e sob paisagens sertanejas), eis que volto para encerrar a minha saga pessoal e livresca pelos sertões. Comento, então, mais um dos livros que fizeram minha cabeça e tocaram meu coração nesse ano que passou…

Mas, antes, já que falei em sabedoria popular, entremos nas locas dessa conversa pelas beiradas e perguntemo-nos: o que é mesmo o popular?

Depois de tantos bons, como Câmara Cascudo, Deífilo Gurgel, Celso da Silveira, Veríssimo de Melo e outra ruma de gente, que veleidade ridícula seria a minha em tentar explicar o que é “sabedoria popular”. Mas, dentre esses tantos, tem um cabra que me convence muito bem acerca disso, e que falou disso há tempos e a léguas daqui, lá no frio gélido da Rússia (ou seja, nada a ver com o sol do sertão…), mas que fez uma ou duas prosas sobre o que é isso que uns chamam “povo”, e ademais, sob uma condição específica do ser “popular”: a de rir e fazer rir. Eis o povo.

Gente como a gente. Igual e tão diferente. Tão particular e tão universal. Gente que, de algum jeito, escapa e escorrega das seriedades solenes demais. Gente.

O nome desse cabra que articulou o popular e o risível é Mikhail Bakhtin e, lá das distâncias siberianas, no auge “glorioso” do regime soviético, ele se atreveu a dizer como a literatura do renascimento – popular, carnavalesca e ambivalente – contava narrativas sobre/sob a sabedoria de um povo (aqueles do tipo “humilhados e ofendidos”, já que falamos em Sibéria…). Para isso, por sua vez, ele falou de outro cabra, François Rabelais, um monge francês e rebelde do século XVI que coletou uma série de relatos “risíveis” com enredos (anedotas?) sobre dois estranhos seres: Gargântua e Pantagruel. Nesses relatos, dispersa e reunida, uma ruma dessa gente, gente meio assim, meio assada…

Pois seguindo essa longa tradição entre o popular e o riso já expressa antes em Rabelais e Bakhtin, eis que me encontro com ela lá em Parelhas, no Seridó potiguar. Em ligeiras caricaturas de cenas e tipos, dá para filtrar bem direitinho a sabedoria popular – e, sobretudo, essa sabedoria pelo riso.

Foi o que filtrei no terceiro livro que, também sobre o sertão, veio me cair no colo, um dos derradeiros livros de 2019: “Beco Estreito”, de um outro cabra, Hugo Macedo. Um fotógrafo que reuniu esses instantâneos de sabedoria popular pelo riso nos 50 causos que coletou – acompanhadas das ilustrações do saudoso Leonardo Sodré.

O livro, cuja segunda edição foi feita pela Offset em 2006, reúne enredos curtos e descontraídos das “terras do Major Antão” que acenam exatamente com isso que falei acima sobre a articulação entre o popular e o riso, sobretudo na direção de um livre contato entre humanos, sem hierarquias ou fronteiras, e de um modo excêntrico de ser, inesperado e sem protocolos.

É o que se pode ver, por exemplo, numa das primeiras narrativas, Bacurau:

O morador da comunidade Cobra, Chico Vilar, pretendia abrir uma conta e foi ao Banco do Brasil de Parelhas. A gerente o atendeu e pediu que ele sentasse, começando a fazer as perguntas de praxe para a formação do cadastro:

– Nome?

– Francisco Vilar.

– Filiação?

– PMDB.

– Não! Os seus pais?

– Esses é que são bacurau mermo!

Ou O Pão de Aluguel:

Baé comia um pão numa das esquinas do Beco Estreito, quando foi abordado pelo prefeito Mauro Medeiros:

– Mas Baé, comendo pão no meio da rua?

– Doutô, você acha que eu vou alugar uma casa pra comer um pão?

Ou ainda Bem geladinha:

Havia dois meses que Tadeu não pagava as dez cervejas que devia no bar de Nerivaldo. Num domingo, ele passava com sua namorada pelo outro lado da calçada do bar, quando o comerciante o avistou e correu até a porta, cobrando com seu estilo educado:

– Tadeu, tem dez cervejas suas aqui, viu?

Para não causar vexame com a namorada, Tadeu aumentou as passadas para alcançar a curva do beco e virou-se, falando já para o distante cobrador:

– Pois bote pra gelar, que à noite eu passo aí para tomar…

Parodiando Nietzsche, que afirmou que sem a música a vida seria um erro, eu afirmo: sem o humor a vida seria um peso. A leveza das anedotas de Parelhas narradas por Hugo Macedo em “Beco Estreito” aponta para a necessidade dessa sabedoria popular (e sertaneja) que prime pelo riso, um riso despretensioso que exalte uma “pedagogia da malandragem” e que nos mostre que a vida não precisa ser o tempo todo tão séria.

Infelizmente, o livro parece estar esgotado, mas, segundo boatos, o autor prepara uma continuidade com o sugestivo título de “Rua da Mentira”.

Que venham mais livros!

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