OPINIÃO

Ainda é tempo de se organizar

Os constantes desgastes acumulados ao longo do tempo na relação da sociedade civil com o poder público colocaram os militantes culturais numa certa condição de desarticulação. Outro fator que gerou também essa desarticulação foi a ida de militantes importantes de alguns setores artísticos para as Gestões Culturais. A Rede Estadual de Pontos de Cultura após seu desmonte não tem mais organização alguma; a Rede Potiguar de Teatro que outrora protagonizou lutas importantes no Estado também perdeu sua força; o setor do Audiovisual é hoje o setor mais organizado e ganha cada vez mais força com o crescimento desse fazer artístico no Rio Grande do Norte, com importantes produções surgindo e festivais que pipocam em todo o território potiguar, se fortalece inclusive com a adesão de várias artistas do teatro que agora enveredam na atuação no audiovisual. Não podemos esquecer o Movimento Escambo de Teatro de Rua, que resiste firme no interior do estado, com encontros anuais e com um debate em rede que não para.

Saindo da bolha das linguagens artísticas você encontrará organizações ligadas às quadrilhas juninas e escolas de samba, até mais de uma organização, de acordo com interesses individuais ou coletivos distintos. Existem ainda movimentos regionais, uns mais articulados do que outros, como o Movimento dos Artistas na Gestão Cultural, em Caicó, e o Ventania, em Mossoró. Em nível estadual temos o Fórum Potiguar de Cultura, que entre altos e baixos tem conseguido se organizar minimamente e pautar uma discussão interessante e muito pertinente sobre as políticas culturais em nosso Estado. No ano passado, durante o período eleitoral, realizou um encontro em Natal, após as eleições realizou outro encontro em Caicó e realizará no próximo domingo (03/02) mais um, em Currais Novos. O foco dos encontros tem sido debater as políticas públicas para a cultura que temos no RN e a aglutinação de novos militantes que queiram se somar a essa luta.

É recorrente que em cada encontro de debate sobre políticas públicas para a cultura sempre aconteça o “muro das lamentações”, aquele momento em que todos reclamam de tudo, dos cachês atrasados, dos editais não pagos, da falta de escuta do poder público, das dificuldades financeiras que cada grupo ou artista está passando, enfim, são muitos os problemas que surgem e que não podem ser negados. O cuidado deve acontecer para que tais problemas não consumam uma objetividade que o Fórum precisa ter nesse momento. O Fórum se organiza a partir desses encontros e de uma Comissão Executiva que toca as pautas menores do cotidiano, a partir das diretrizes discutidas coletivamente. É fundamental que o Fórum tenha essa pauta macro para tocar, mas uma das lutas principais que devem ser encampada é a da criação do Conselho Estadual de Políticas Culturais. Com a criação desse Conselho poderemos institucionalizar a luta da sociedade civil e não ficaremos a mercê das mudanças de governo. É uma ação sem custo para o Estado e pode render uma boa discussão e bons frutos serão colhidos no futuro.

Na primeira passagem de Crispiniano Neto pela Fundação José Augusto foram criadas as câmara setoriais, algumas funcionaram muito bem e geraram, por exemplo, os vários editais lançados naquele período, mas que infelizmente alguns deles nunca foram pagos, o que rendeu um desgaste muito grande à referida gestão. Tais câmaras setoriais perderam força e foram extintas após o início da gestão Rosalba/Isaura e qualquer movimento da sociedade civil que tentasse debater com tal gestão sofria retaliações e boicotes. Mas esse modelo de organização interno proposto pela equipe de Crispiniano faliu porque não existiu na institucionalidade burocrática do Governo Estadual, por isso é fundamental que a atual gestão também abrace essa ideia do Conselho Estadual de Políticas Culturais e que, a partir daí, nós possamos ter um poder de articulação ainda maior, e sobre a luz da institucionalidade democrática, participativa, oficial e popular. Em minha passagem pela FJA deixei engatilhado um modelo de Conselho, mas que não foi tocado para frente durante a gestão de Robinson. Agora com uma Governadora oriunda das camadas populares e do movimento sindical as coisas podem ser bem mais fáceis.

Por isso, diante de toda a calamidade financeira do Estado, o que se pede de nós, militantes da cultura, é um maior poder de organização e de proposição. E que não fiquemos achando que o poder público conseguirá por si só suprir todas as nossas expectativas. Temos aí uma questão gravíssima sobre uma decisão do CONFAZ que impede, até primeira hora, de que a renúncia da Lei Câmara Cascudo saia esse ano. E então, o que estamos fazendo para que esse cenário se modifique? Qual nossa postura nesse processo? Como vamos nos organizar? Como podemos ajudar ao estado para que essa situação se resolva? Será que não poderíamos organizar um grupo de trabalho entre poder público e movimento cultural para tentar achar soluções jurídicas e burocráticas para essa situação?

São muitas perguntas. Mas as respostas só poderão sair com muita organização. Não esmoreçamos, não desistamos. O cenário pode ser ruim. Mas, se organizar direitinho, as coisas podem melhorar bastante.

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