OPINIÃO

Ainda sobre a cidade e os impressos – relembrando Carlos Lima

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Para quem se interessa por história do livro, há um título fundamental que não pode deixar de ser citado: O livro no Brasil, de Laurence Hallewell, publicado pela primeira vez em inglês em 1982 e com a primeira edição (revisada) em língua portuguesa em 1985. Neste tratado de peso sobre a história do comércio livreiro no Brasil, em um dos capítulos finais, intitulado A atividade editorial nos Estados no século XX, assim se pode ler:

Natal, a cerca de 180 quilômetros mais ao norte, tem a Fundação José Augusto, criada, em 1963, pelo Governo do Estado do Rio Grande do Norte, para estimular a cultura e a pesquisa social locais, mas não se conhece no estado quase nenhuma outra atividade editorial digna de nota (HALLEWELL, 2012, p. 697 grifos nossos).

Pois essa versão histórica aí pecou (e foi de uma lacuna enorme) ao silenciar acerca do empreendimento editorial que marcaria a cena literária na capital potiguar por quase duas décadas: a CLIMA Edições.

A CLIMA foi idealizada e comandada por Carlos Lima, livreiro e editor (além de boêmio e criador de aves) que certamente revolucionou as letras no Estado, conforme se pode ver pelo relato do jornalista Ubirajara Macedo, parceiro de Carlos Lima nas 36 edições da revista Cadernos do RN:

Numa das nossas conversas por telefone, Carlos, que já se instalara como médio empresário do setor gráfico na Rua Doutor Barata, da Ribeira velha de guerra, contou-me que havia ocupado um prédio de especial significado para a cidade: onde funcionara a Junta Comercial do Estado durante muitos anos. Com os negócios estabilizados e com tendência a crescerem, Carlos queria dar sua cota de contribuição para duas áreas da cultura: a literatura e o jornalismo. O primeiro, através de uma coleção que trazia o sobrescrito das Edições Clima. Nela, perfilavam obras da novíssima geração de poetas e prosadores potiguares, como o contista Tarcísio Gurgel, os cronistas Valério Mesquita e Augusto Severo Neto, as poetisas Maria Cléia da Trindade e Maria Lúcia Brandão, o teatrólogo Racine Santos e o poeta Dailor Varela. Mas foi, mesmo, o poeta Celso da Silveira, com suas coletâneas de glosas fesceninas, cujas reedições se sucediam ininterruptamente, quem consagrou a coleção das Edições Clima, lhe garantindo vendagens recordes que, de certo modo, compensavam os investimentos em títulos encalhados que se deixavam ficar na estante dedicada aos autores norte-rio-grandenses (Apud PATRIOTA, 2006, p. 38).

Com efeito, muitos dos autores que hoje integram o cânone literário local foram publicados pela primeira vez graças a Carlos Lima. É assim, pois, impossível falar sobre a relação entre a cidade e os impressos sem citar a CLIMA e seu editor, grande leitor e um autor em potencial.

Aliás, essa intimidade entre a atividade autoral-editorial na geografia dos afetos da cidade está registrada nas próprias palavras de Carlos Lima:

Senta-te, amiga, na amurada do cais da Tavares de Lira que eu te falarei um pouco de uma das mais belas cidades do mundo: Natal. Mais precisamente, de um bairro chamado Ribeira (LIMA, 1999, p. 125).

De fato, foi no bairro da Ribeira, precisamente na rua Dr. Barata, onde funcionou a livraria e editora CLIMA, conforme também me relatou Ivan Jr., sócio proprietário da OFFSET Gráfica e Editora, bem como do selo 8 Editora. Ivan Jr. foi sobrinho de Carlos Lima e com ele aprendeu (quando ainda estudante secundarista) o ofício de compra e venda de livros, bem como o de gráfico e editor. Segundo seu relato, Carlos Lima foi jornalista e assessor do prefeito Djalma Maranhão, com quem, aliás, foi preso após o golpe militar de 1964. A família de Carlos Lima adquiriu uma gráfica logo depois:

Foi em 66, foi logo tempo depois que ele saiu da prisão (…) Carlos, como leitor fanático, uma pessoa fanática por leitura, por livro, por tudo o que tinha a ver com isso, cinema, música, ele, depois que se sentiu preparado, abriu o projeto dele de editar autores do Rio Grande do Norte, o que era uma lacuna. Ainda é.

O catálogo da CLIMA tem início, assim, no ano de 1978 e termina oficialmente em 1997, ano da morte de Carlos Lima. Nesse ínterim, muitos dos títulos editados foram integralmente custeados pelo editor, em edições de não menos de mil exemplares.

(Que falta faz um editor assim…)

Sua importância, assim, no cenário editorial na cidade de Natal, é inegável. A maior prova disso certamente é o destaque que Ivan Jr., sobrinho e aprendiz de Carlos Lima, tem na vida dos livros de Natal atualmente: ouso afirmar, sem receio, que a quase totalidade de livros, dos diferentes selos editoriais existentes na capital potiguar, é impressa na OFFSET, em uma tradição sem dúvida iniciada na CLIMA. Ao me relatar que, por conta da ausência de um funcionário do prelo, em 1983, deixou o setor de compra e venda de livros e foi atuar diretamente na gráfica, assim Ivan Jr. explica:

Eu tive uma sorte grande, como eu ia dizendo, porque, na CLIMA todos os processos de impressão na época estavam lá. Então ele tinha o tipo de chumbo de cacheta, de gaveta, para impressão em máquinas manuais; ele tinha a linotipo, trabalhando com impressão em máquinas automáticas; e ele já tinha a offset, o sistema offset.

Destaco ainda duas curiosidades relatadas por Ivan Jr. que a mim atestam a relação íntima entre os impressos e a cidade.

Uma primeira se refere a uma das publicações da CLIMA em que Ivan Jr. teria trabalhado na coordenação editorial. Ao ser indagado a respeito de algum episódio a esse respeito que lhe chamasse a atenção, assim se referiu a um título em parceria com a coleção João Nicodemos de Lima, do Sebo Vermelho, de inegável importância na cultura da cidade e do estado, o segundo título editado pelo então estreante selo editorial, em 1993: Poetas do Rio Grande do Norte (uma coletânea de poemas de 108 autores norte-rio-grandenses, organizada por Ezequiel Wanderley e lançada originalmente no ano de 1922).

– Foi uma co-edição da CLIMA, com Abimael, do Sebo Vermelho. Acho que foi o segundo livro do Sebo. Foi um livro que deu muito trabalho de fazer, mas foi muito bom de fazer. O processo offset ainda era arcaico e a gente fez uma edição fac-similar do livro. Foi muito trabalhoso você trabalhar fac-símile a partir dos fotolitos. E também pela presença de Abimael começando, de Carlos sempre estimulando… Tinha uma coisa boa de trabalhar. E nesse processo eu conheci seu Chisquito, Chisquito Amorim, que era o único poeta da coletânea ainda vivo, chegou a ir lá, umas vezes, acho que com 90 anos.

Uma segunda curiosidade tem a ver com as estratégias criadas para fazer escoar a produção da CLIMA e que atesta, mais uma vez, a importância cabal da CLIMA no fomento da leitura e da formação de leitores na cidade. Assim me contou Ivan Jr.:

– Ele sempre fazia, por exemplo, as promoções de escola. Você compra a lista escolar na CLIMA e, vamos supor, hoje, a cada cem reais, você escolhe um livro que está lá de um autor local. E eu acho muito engraçado porque eu tenho um amigo, o editor José Correia, da Caravela, ele disse que quando começou a gostar de ler, ele estudava no Salesiano, e o primeiro livro de autor norte-rio-grandense que ele leu foi brinde da CLIMA, quando ele foi com a mãe comprar a lista do material escolar. Pode ter sido até eu que vendi (risos).

A importância de Carlos Lima e da CLIMA foi tanta na cena editorial que outro editor independente, João Gothardo Dantas Emerenciano (criador do selo O Potiguar), na edição de número 1 do jornal alternativo O Canguleiro, de 1997, prestou homenagem ao livreiro e editor, recolhendo breves depoimentos diversos sobre Carlos Lima. Em um desses depoimentos, aliás, o amigo e autor Celso da Silveira demonstra a relação intrínseca entre a condição de leitor e autor na constituição dos editores:

A face menos conhecida de Carlos Lima, porém, talvez seja a de um leitor de todas as leituras dos últimos lançamentos nacionais. Comentando a sua vocação de leitor-editor, lembramos, com Luís Carlos Guimarães, o baita escritor que o Rio Grande do Norte perdeu para o empresário. Ele tinha tudo para escrever bem: sensibilidade, poder de observação e de narrativa, conhecimento da estrutura de romance e facilidade de assimilação de conteúdo.

O Canguleiro, aliás, é mais um caso das muitas publicações independentes que atestam uma presença íntima na geografia afetiva da cidade.

E aí já é outra história…

Capa da primeira edição do jornal independente O Canguleiro, editado em parceria entre João Gothardo e Abimael Silva.

Referências

HALLEWELL, Laurence. O livro no Brasil: Sua história. Tradução de Maria da Penha Villalobos, Lólio Lourenço de Oliveira e Geraldo Gerson de Souza. 3ª. ed. São Paulo: Editora da USP, 2012.

LIMA, Carlos. Natal, minha visão. In: “Crônicas Natalenses” (vários autores). Natal: Diário do Natal; Federação do Comércio do Rio Grande do Norte; Editora da UFRN, 1999.

PATRIOTA, Nelson. No outono da memória: o jornalista Ubirajara Macedo conta sua história. Natal: Sebo Vermelho, 2006.

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