TRANSPARÊNCIA

Ajor cobra transparência em financiamento de plataformas à imprensa

Por Conselho da Associação de Jornalismo Digital (Ajor)

Google e Facebook vêm anunciando desde 2020 programas de financiamento direto a veículos de imprensa no Brasil. O movimento atende à pressão de grandes grupos de mídia, e é visto como forma de compensá-los pela migração de grande parte da verba publicitária para as plataformas digitais. Também ocorre no contexto internacional de aprovação de leis que obrigam esse tipo de remuneração.

 A Ajor (Associação de Jornalismo Digital), organização fundada em 2021 que reúne mais de 50 organizações jornalísticas, vê com preocupação a forma como os programas estão sendo desenhados. Especialmente pela falta de transparência sobre os veículos participantes, os critérios para seleção desses veículos e o valor investido em cada um, sem mencionar a assimetria que tais investimentos criam na indústria jornalística brasileira. 

Na última quinta-feira, 16 de setembro, o Facebook anunciou um programa chamado “News Innovation Test”, que inclui 20 organizações  de notícias do país. A ideia do programa é trabalhar em parceria com esses veículos para o desenvolvimento de novos produtos de notícias na plataforma. Ao longo dos próximos 3 anos, o Facebook fará pagamentos aos veículos, em tese, pela integração técnica para testes e pelo compartilhamento dos links para o desenvolvimento das novas soluções. 

O Google, por sua vez, anunciou em outubro do ano passado,  os primeiros parceiros do Destaques, versão brasileira do Showcase. Esse é o nome dos painéis elaborados por veículos de imprensa e publicados no app Google Notícias, disponível em todos os celulares Android. Em março deste ano, os logotipos de 34 participantes iniciais foram estampados em jornais impressos de grande circulação de diversas capitais do país. O programa segue sendo ampliado, e já contempla mais de 60 títulos, que recebem remuneração direta pela edição e publicação do conteúdo nos painéis. O Google não revela quais são os novos participantes.

Tanto em um programa como em outro é possível identificar as mesmas fragilidades:

  • Distorção na indústria, com favorecimento de poucas empresas, majoritariamente meios não-nativos digitais e pré-estabelecidos;
  • Falta de transparência em relação aos critérios para a escolha dos veículos participantes;
  • Falta de transparência em relação ao impacto na audiência e visibilidade dos veículos participantes;
  • Inclusão de veículos apontados por agências de checagem, pela CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) das Fake News e pela CPI da Covid como disseminadores de desinformação.

Procuradas pela Ajor, as plataformas reapresentaram informações já tornadas públicas e apontaram critérios vagos de participação nos programas (cobertura geral, grande audiência, caráter regional/nacional, volume de publicação) que não revelam os motivos determinantes para a escolha. Nem Google nem Facebook explicitaram valores envolvidos nessas operações. Ambos mencionaram outros programas que beneficiam veículos que não fazem parte ou não são elegíveis para os programas de financiamento direto.

Iniciativas de apoio à produção jornalística pelas plataformas podem ser salutares. Mas é imprescindível que possam ser alvo de escrutínio público. Se o financiamento ao jornalismo se justifica por se tratar de um serviço público essencial às democracias, a mesma lógica vale para a transparência nessa operação. Sob risco de os mesmos agentes que causaram a disrupção que ajudou a fragilizar toda a imprensa determinarem que vozes sobreviverão.

Full disclosure: A Ajor recebe recursos de Facebook e Google para realização de projetos alinhados com sua missão, inscrita no Estatuto Social, e em benefício de associadas e não-associadas, como o Festival 3i e programas de treinamento.

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