OPINIÃO

Além da vã filosofia

No âmbito dos estudos discursivos, há uma tese de que nem tudo nos usos da linguagem humana se restringe às atividades realizadas em torno de gêneros discursivos (conceito formulado primeiramente por Aristóteles, mas desenvolvido, posteriormente, pelos estudos do Círculo de Bakhtin). Em outras palavras: na comunicação humana, realizamos atos não só por meio, por exemplo, de cartas, e-mails, artigos, papers, piadas, reportagens, teses, receitas, contos, haicais, previsões climáticas ou astrológicas, anúncios, avisos etc. etc. etc. Há um outro regime enunciativo que, nas sociedades, corre em paralelo ao dos textos: os chamados regimes aforizantes, ou, mais simplesmente, frases sem textos.

Temos, aí, um conceito conhecido como “destacabilidade”, desenvolvido por nomes como Maingueneau ou Krieg-Planque. Trata-se da condição de um enunciado de se destacar e extrapolar textos e/ou contextos diversos. Esses enunciados podem ser destacáveis por natureza (como aforismas, provérbios, fórmulas em geral) ou por fragmentos de textos que, por algumas características (uma estrutura breve, pregnante e facilmente memorizável, um tom solene associado a uma “verdade” atemporal) destacam-se, reformulam-se e passam a circular em diversas e distintas situações de enunciação.

As possibilidades enunciativas dessa destacabilidade são inimagináveis, parecendo mesmo infinitas. Os meios digitais, marcados pela hipercomunicação, pela fragmentariedade e pela instantaneidade, são um prato cheio para os enunciados destacados. Mas eles também se encontram materializados de outras muitas formas que vão desde as frases de protesto às citações de mesa de bar.

Alguns campos discursivos parecem ser mais peculiares para a circulação de enunciados destacados, como o jornalístico (com suas frases da semana, manchetes etc.) e, sobretudo, o filosófico. Quem nunca ouviu, por exemplo, máximas como “trabalhadores do mundo, uni-vos”, “o homem é um animal político” ou “penso, logo existo”? Podemos até não saber que autor as pronunciou pela primeira vez ou de qual obra foram retiradas, mas elas estão aí, circulando continuamente e, de algum modo, reverberando doutrinas e posicionamentos críticos. Servem, inclusive, de material abundante para as práticas humorísticas, que se apropriam desses enunciados e, ao subvertê-los, criam paródias como “maconheiros do mundo, uni-vos” ou “o político é um animal humano”.

Para tratar um pouco sobre esse tema da enunciação destacada, o Prof. Dr. Sírio Possenti, professor titular do Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP, estará em Natal e será possível vê-lo em duas ocasiões: primeiramente, na defesa de dissertação de mestrado de Camila de Medeiros, no Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da UFRN. Camila aborda o regime aforizante a partir de memes políticos, no dia 5 de dezembro, às 14h, no Instituto Ágora, próximo ao Setor 2 da Universidade. Em seguida, no dia 6, às 9h30 da manhã, ele falará sobre destacamento a partir do livro “As fórmulas filosóficas”, de Fréderic Cossuta e Francine Cicurel. O livro, traduzido por Possenti, sai em parceria pelas editoras da UNICAMP e da UnB e também estará disponível para venda após sua palestra, que acontece também no Instituto Ágora.

Para fechar esse convite, nada melhor me ocorre do que dizer “penso, logo vou”. Vamos?

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