OPINIÃO

Algumas notinhas sobre o campo literário de Natal

Nesta semana li no site Substantivo Plural o interessante artigo de Manoel Onofre Jr. Intitulado “Coisas de Província” (disponível aqui). O escritor, pesquisador e crítico literário Onofre Jr. dispensa apresentações, tod@s sabemos. Foi com seus livros que muito aprendi (e ainda aprendo) sobre a história e o cenário literário do Rio Grande do Norte.

O artigo do mestre, no entanto, apresenta duas ou três afirmações que me suscitaram algumas reflexões, reflexões essas que têm a ver justamente com questões às quais me dedico como pesquisadora, e que têm a ver com o que se pode chamar de campo literário.

Seguindo a perspectiva teórica de alguns autores (Bourdieu, Maingueneau, Foucault), pode-se pensar que a sociedade, discursivamente falando, não é homogênea, se organiza em nichos que têm suas próprias regras e regularidades e cujo funcionamento passa, necessariamente, por relações de poder. Assim, resumidamente, as práticas que “autorizam” um sujeito a se dizer cientista não são as mesmas para um candidato ao senado, ou para um líder religioso, ou para um escritor etc. Cada um desses campos aí implicados (científico, político, religioso, literário etc.) também não funciona de maneira una e pacífica. Há, a todo momento, acordos e disputas entre posicionamentos e lugares (uns mais centrais, outros mais periféricos, outros na fronteira; uns mais hegemônicos, outros menos visíveis; uns mais dominantes, outros mais dominados).

Esse olhar analítico sobre o funcionamento da literatura como um campo social e discursivo, acredito, pode trazer considerações menos idealizantes e normatizadoras. Assim, peço licença, respeitosamente, ao mestre Manoel Onofre Jr. e ouso discordar de alguns de seus comentários, os quais reproduzo aqui:

O autor inicia seu artigo discorrendo acerca da facilidade de escrita e publicação com o advento da internet. Ao que afirma, literalmente: “Antigamente, não era assim. As pessoas tinham uma espécie de pudor em relação ao que ousavam escrever. Hoje, a subliteratura tornou-se endêmica e descarada, ninguém mais se envergonha de fazer, em público, o seu striptease literário. Toda semana, realiza-se mais um lançamento de livro, regado a refrigerantes e fofocas.”

Eu, particularmente, tenho o maior receio desse discurso “saudosista” que afirma que antes o mundo era melhor. Antes, mestre, queimaram-se pessoas; antes, a leitura e a escrita eram produtos de luxo destinados somente às castas privilegiadas economicamente. Penso que não é possível ver a história de maneira linear (ou melhora ou piora), mas de modo descontínuo. Em outras palavras, mediocridade sempre houve na face da terra. Aliás, o que é o medíocre? O termo “subliteratura” reatualiza uma importante discussão que o historiador do livro e da leitura Roger Chartier faz sobre erudito versus popular: por trás de tudo isso, o que há mesmo são relações de poder (para não dizer classistas) de grupos que querem se manter sempre em em vantagem e no topo.

“Todo escritor, assim como todo aprendiz de escritor, deve ser um rigoroso crítico de si mesmo. Deve engavetar a primeira versão do seu texto, conseguida no embalo da inspiração; algum tempo depois, reler tudo, com espírito extremamente crítico, fazendo os ajustes necessários, e só então, pensar na possibilidade de publicação”. Devagar, aí, gente! Cuidado com as generalizações, elas podem ser inimigas do pensamento. Além de celebrar a liberdade de cada um ser o que se é, é preciso pensar que cada escritor tem suas rotinas particulares de escrita, suas peculiaridades de estilo, suas preferências de gêneros discursivos e de tendências literárias. Quem mostrou isso muito bem, por exemplo, foi a série de livros “Viver & Escrever”, organizada pela escritora e dramaturga Edla Van Steen, que reuniu mais de cem depoimentos de escritores sobre seus ritos particulares de escrita.

Uma terceira e última notinha que quero tecer é sobre o seguinte comentário:

“É de pasmar a desfaçatez com que alguns escribas, utilizando-se quase sempre das redes sociais, tecem loas a si mesmos. Os mais sabidos fingem-se de modestos – a vaidade fica nas entrelinhas – outros não hesitam em pavonear-se. Causam dó, mas, também, riso.”

Primeiramente, essa concepção de riso (o riso de zombaria), supõe uma desdenhosa pretensão de superioridade. Estamos todos no mesmo barco de vontade de potência poética, mestre! Somos tod@s risíveis!

E mais: negar o uso das redes sociais como importante meio de comunicação lembra o mesmo movimento retrógrado que opunha, antes, livros e jornais. Não podem tod@s coexistir? Que o diga, por exemplo, Geovani Martins, até então desconhecido habitante da favela e do facebook e cujo livro de estréia sai por nada menos que a Companhia das Letras. Além do mais, há muito medalhão consagrado, reconhecido como imortal, que também anda se pavoneando por aí. Qual crivo estará errado, o das redes ou o da Academia?

Afinal, penso que mais importa é escrever. Escrevamos, sim. Que fique a cargo do leitor a leitura.

E nós, que escrevemos, continuaremos agradecendo a preferência.

 

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