OPINIÃO

Aline

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Há duas semanas fiz da minha coluna um espaço de homenagem a um finado e grande amigo, além de ter chamado atenção sobre um problema de saúde que a desinformação e o preconceito muitas vezes nos impedem de ver com clareza. Desde então, tenho pensado sobre o fato de que a maioria das homenagens acaba acontecendo somente post mortem. Apesar de reconhecer a importância de tais homenagens, afinal elas contribuem para que a memoria de pessoas incríveis não seja esquecida. Fiquei afetada pela necessidade de, em vida, reconhecer e homenagear, grandes pessoas, que me circundam, afinal, não apenas pessoas famosas, muito conhecidas, merecem ser lembradas. Muito ao contrário, nesta coluna pretendo valorizar e lançar luz, acima de tudo, àqueles que estão no mais cotidiano das nossas existências. Fácil lançar louros em quem já está repleto deles, amo Clarice Lispector, Nina Simone e Pina Bausch, mas não é sobre elas que hoje vim falar.

Vim falar de minha cara, minha querida, amiga, grande artista, Aline Gurgel. De uma aparentemente despretensiosa bancária boêmia, Aline se nos revela de uma personalidade de grande complexidade e criatividade. Mística, libriana nata, preocupada com a possível mudança de signo caso a contestação astrológica que aumenta o zodíaco incluindo um signo (serpentário) – o que faria com que ele passasse a ser uma virginiana, parece que estou ouvindo ela dizer: “imagina que absurdo Leila eu deixar de ser libriana e virar virginiana”. Tambem acho um absurdo minha querida. Ainda bem que essa corrente contestatória não vingou na astrologia. (risos).

Ativista de movimento social, sindicalista agerrida, daquela que realmente trabalha nas greves e não as utiliza como férias, do tipo que faz piquete, escreve texto e lidera reunião, ficando responsável até pelo entretenimento e parte cultural das atividades do sortudo sindicato dos bancários que pode contar com um quadro tão engajado e politizado quanto é minha cara Aline. Compõem também tal personalidade cativante, passagens pelos cursos de Letras e Artes da UFRN, o que contribui ainda mais para consolidar o conteúdo absolutamente fascinante da Arte de Aline Gurgel, uma artista completa.

Dona de um nome que sacudiu os amante dos anos 60 e 70 com o clássico Aline de Cristophe, portadora de uma formação clássica que incluem o francês, a dança, a poesia o canto e o piano, Aline achou pouco já ser uma ótima escritora – autora de inúmeras crônicas sobre politica e cotidiano, textos avulsos sobre vários temas, poesias e acima de tudo, dois lindos livros de contos que abordam de maneira libertária os dilemas do universo feminino – ser também uma dançarina experiente e talentosa que integra a equipe da mais prestigiada casa de dança do ventre do RN – a Tuareg – (vocês podem vê-la nesse sábado próximo em evento da Tuareg), Aline decidiu que queria também ser cantora.

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Pense numa decisão acertada, a noite potiguar ganhou uma artista com potencial de fazer o que ainda não vimos ser feito por nenhum cantor da noite em nossa cidade uma execução musical popular ao piano. Por falar na noite natalense, nada poderia ser mais eufemístico do que a própria expressão “noite natalense”, nunca vi uma cidade turística que não oferece opções culturais diversificadas. Não é de segunda a segunda como no eixo São Paulo–Rio não. Ficava feliz somente com uma boa balada noturna do fim de semana. Mas onde? Não temos, ne? A cidade é um deserto de cultura, não pela falta de talento dos artistas potiguares, mas pelo absoluto descaso do poder público local com a promoção da cultura. São gestores tão estagnados no tempo, na ignorância, em suas gestões sem competência técnica, que ainda acham que investir em cultura é secundário, é lazer – mesmo que fosse apenas isso também seria importante. A cultura é muito mais. É, pode ser, a mola mestra de todo um projeto de desenvolvimento sócio-economico e de inclusão. Cultura gera conhecimento, riqueza, empoderamento e satisfação existencial, se a gente não queria so comida, e sim “comida, diversão e arte” há trinta anos, por que agora abriríamos mão?

A noite potiguar, feita por artistas da resistência, que vencem editais públicos mas não recebem, que continuam a trabalhar apesar de todos os pesares, ganha mais um estrela no seu céu, minha cara paraense que de vez em quando solta um “égua” que não nos deixa esquecer suas origens, mas que agora radicada conosco já há vinte anos, pode sem dúvida reivindicar o estatuto de artista potiguar.

Convido a todxs, a ler Aline, vê-la dançar, ouvi-la cantar, engajar-se em suas lutas (que são na verdade nossas) ou mesmo bater um bom papo regado a cerveja gelada num boteco agradevel com radiola de ficha – qualquer referencia ao Show bar do meu amigo Marcelo em Potilandia não é mera coincidência – com essa pessoa incrível, privilégio que eu tenho no meu cotidiano de modo que posso finalizar esse texto dizendo que arte, amizade, amor, tem nome: Aline!

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Historiadora e Militante LGBT

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