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Álvaro Dias agride Natal, desdenha de críticos e dá como certa aprovação da verticalização da orla

Arrogância e contradição. A presença do prefeito de Natal Álvaro Dias (MDB) na Câmara Municipal nesta quinta-feira (19) para falar sobre a revisão do Plano Diretor expôs a figura caricata de um coronel que agride a própria cidade que administra, desdenha de críticos e defende a pauta do mercado imobiliário da cidade sem qualquer senão.

A previsão é de que o PDN chegue no final de novembro a Câmara Municipal de Natal para ser votado e deliberado pelos vereadores.

Para o chefe do poder do Executivo, os problemas de Natal estão concentrados no Plano Diretor que, na visão dele, é “retrógrado, ultrapassado e que contribui para um atraso imposto”. Mesmo sem apresentar a fonte das informações que levou para a Casa legislativa, Dias afirmou que Natal perdeu 300 mil pessoas para cidades vizinhas nos últimos anos.

Ele defendeu construção de prédios à beira-mar e agrediu a orla de Natal classificando-a de “retrógrada, feia, decadente, que depõe contra nós e que contribui para que os turistas tenham uma visão equivocada da cidade”.

Após despejar agressões à cidade, Álvaro Dias também afirmou que não recomenda a ninguém uma visita a orla de Natal, uma declaração que atenta contra o esforço de empresários e trabalhadores do turismo para atrair mais visitantes e movimentar a economia local num momento em que o Estado e capital tenta se recuperar da crise econômica.

As grandes referências do prefeito em termos de verticalização estão em Fortaleza e Recife, duas capitais que ergueram prédios na orla e sofrem hoje com a falta de ventilação.

– Eu pessoalmente sou a favor da verticalização da orla. Verticalizando a orla, construindo edifícios na orla, vamos trazer a população para morar na cidade de Natal. Verticalizando a orla, trazendo a população, traremos investimentos, como bares, restaurantes e vamos modernizar a cidade”, disse.

Para o prefeito, modernizar uma área é dotá-la de edifícios:

“O Plano Diretor precisa corrigir alguns equívocos que foram permitidos pelo plano diretor anterior para permitir a modernização, o avanço da cidade de Natal, a geração de emprego e renda e segurar a população de Natal expulsa que foi por imposições por equívocos do plano anterior”, afirmou.

O bairro de Nova Parnamirim é, para Álvaro Dias, a principal referência de como a população natalense foi expulsa da cidade. Sem notar a forma preconceituosa como se referia aos moradores do bairro, o prefeito chegou a dizer que “Nova Parnamirim só existe por causa do Plano Diretor. Os que moram lá (Nova Parnamirim), na verdade queriam morar aqui (em Natal). Se quisessem morar em Parnamirim iriam mais para perto do centro da cidade, e não para a periferia, como é Nova Parnamirim”, disse.

Álvaro Dias também voltou a defender a demolição do hotel Reis Magos, citando que o local, em ruínas, abriga atualmente “30 pontos de foco de doenças infecciosas”.

Ele afirmou que os investimentos para recuperar o prédio girariam em torno de R$ 60 milhões e avisou que a prefeitura, sob a administração dele, não empenharia nenhum recurso nessa obra. Segundo Dias, ele preferia “investir em moradia para abrigar pessoas que não tem onde morar em Natal”.

O discurso seria bonito se não fosse demagógico. Em julho, a agência Saiba Mais divulgou que a atual gestão usou verba empenhada em ações de urbanização na comunidade do Maruim, periferia da Zona Leste da capital, no pagamento dos custos do São João de Natal, entre eles os cachês dos artistas. O remanejamento foi autorizado por decreto pelo prefeito Álvaro Dias (MDB) em 15 de abril de 2019 e publicado no Diário Oficial do Município no dia seguinte.

Álvaro Dias se referiu aos críticos como “minoria barulhenta”, um flagrante desrespeito aos movimentos sociais que há vários anos se debruça sobre os problemas urbanos da cidade apresentando propostas para o desenvolvimento sustentável de Natal.

Antes de começar a falar, Dias tentou ensinar aos vereadores e ao público o que era democracia:

Acredito muito na democracia, é um regime pelo qual a sociedade brasileira se mobilizou, foi para as ruas e trouxe de volta para todos nós o direito de se expressar. E expondo suas ideias e opiniões pode haver discordâncias, divergências, mas que ao final tem de haver respeito de todos às decisões democraticamente tomadas. Temos que entender, respeitar a maioria, e não uma minoria que quer se impor através do grito”, afirmou.

Quisesse mesmo falar sobre democracia, o prefeito Álvaro Dias deveria olhar para as galerias da Câmara Municipal, mais de 80% ocupadas por servidores da prefeitura, convocados para aplaudir o discurso do chefe. A maioria parte dos representantes dos movimentos sociais não puderam subir. Segundo a Câmara Municipal, por falta de espaço.

Na avaliação do prefeito Álvaro Dias o atual processo de revisão do Plano Diretor de Natal é o mais transparente, participativo e democrático já realizado na cidade.

 

 

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"