DEMOCRACIA

Álvaro Dias: o “super herói da pandemia” esqueceu os heróis da vida real

A certa altura do discurso de posse que oficializou, nesta sexta-feira (1º), o início do 2º mandato à frente da prefeitura de Natal, Álvaro Dias (PSDB) deu a impressão de que abriria o paletó e sairia voando da Câmara Municipal. Faltou pouco para o tucano dizer que Natal foi salva da pandemia em razão de seus super poderes.

– Sobre a minha mesa estava a terrível notícia da morte. A coragem e a responsabilidade de gestor, aliado à vocação de salvar vidas como médico nos fizeram enfrentar a doença, indo para as ruas, sem temer o mais covarde e perverso mal que atingiu a cidade de Natal, como atingiu o mundo todo”, disse.

Não bastasse a autopromoção, já característica do gestor, o que mais chamou a atenção no primeiro recado de Álvaro Dias ao povo de Natal foi a ausência de menção ou agradecimento aos servidores municipais que se entregaram e colocaram a própria vida em risco no socorro às vítimas da covid-19 na cidade.

Nem os servidores da saúde, assistência social, mobilidade urbana, fiscalização e da segurança, que vêm atuando na linha de frente da pandemia desde março do ano passado, mereceram destaque no discurso recheado de citações – de Simone de Beauvoir, passando por Cazuza, até Aristóteles – e de autoelogios.

O funcionalismo, há mais de 6 anos sem reajuste e que passará a pagar uma alíquota maior da previdência social a partir de 2021, foi “esquecido” na mensagem. Aliás, mais de 60% dos servidores passaram a virada do ano sem os salários de dezembro na conta, o que também não foi lembrado pelo prefeito na solenidade.

Sem apresentar números e evitando lembrar fatos polêmicos da gestão, como a contratação de uma empresa ligada à própria família do prefeito para fornecer mão de obra ao hospital de Campanha e a inauguração da unidade sem leitos de UTIs, o que só foi corrigido após o Ministério Público acionar a Justiça contra o município, Álvaro se limitou a dizer que ele próprio foi o responsável por reduzir os índices de letalidade e notificação.

Os dados oficiais, no entanto, não colocam a capital potiguar numa situação tranquila em relação à pandemia. Com 26% da população do Rio Grande do Norte, Natal é responsável hoje por cerca de 40% das mortes por covid-19 no Rio Grande do Norte.

O prefeito citou o Hospital de Campanha e os Centros de Referência para Tratamento da Covid-19 instalados nas 4 regiões da cidade como grandes obras feitas por ele para vencer a pandemia. E evocando a figura do médico, afirmou que preferiu “arregaçar as mangas” ao invés de optar pelo “discurso da covardia”.

– Eu poderia ter me acomodado. Poderia ter feito o velho discurso da covardia e da transferência de responsabilidade para outras esferas de governo. Mas não fiz isso. Tirei a gravata, joguei de lado o paletó, que a essa altura de nada servia, e vesti o jaleco branco, que tantas vezes na brancura de sua cor, presenciou juntamente conosco o desenvolvimento de muitas ações que salvaram vidas, em outros momentos, durante a nossa existência”, afirmou.

A política deu o tom da primeira parte da mensagem. Lembrando que obteve mais votos que o dobro da soma de todos os 13 concorrentes juntos, o prefeito reeleito disse que o recado das urnas pode ser interpretado como o fim da velha política de desaforos e insultos.

O tucano obteve 56,58% dos votos válidos e evitou o 2º turno. O senador Jean foi o segundo mais votado com 14,38%, seguido do delegado Leocádio, que conquistou o apoio de 10,22% dos eleitores.

Álvaro garante ficar 4 anos

Após a solenidade na Câmara Municipal, Álvaro Dias participou de outra cerimônia, já no Palácio Felipe Camarão, onde ocorreu a posse administrativa com a presença de auxiliares da prefeitura. Num discurso de improviso mais curto, voltou a comemorar a vitória sobre os adversários e reiterou que cumprirá os 4 anos de mandato como chefe do Executivo municipal, afastando pelo menos temporariamente rumores de que poderia renunciar em 2022 para concorrer ao Governo do Estado, a exemplo do antecessor Carlos Eduardo Alves (PDT).

No Palácio, Dias também não citou os servidores municipais que atuam na pandemia e só agradeceu aos auxiliares da prefeitura que, segundo ele, o ajudaram a fazer uma gestão aprovada por 65% da população, de acordo com o Ibope.

Igualdade racial e Direitos Humanos

Álvaro Dias anunciou como principal novidade do 2º mandato a criação da secretaria de Igualdade Racial, Direitos Humanos e Minorias. O órgão é um pleito antigo dos movimentos sociais. Ele não deu detalhes ainda de como funcionará a nova pasta, que deve ser criada sem recursos em razão do Orçamento geral do município ter sido aprovado em 2019 sem previsão financeira e orçamentária para a nova secretaria.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"