DEMOCRACIA

Alvo de perseguição política, policial civil lança pré-candidatura a vereador de Natal pelo movimento antifascismo

Pedro Paulo Chaves é policial civil e o primeiro pré-candidato a vereador do Movimento dos Policiais Antifascismo em Natal. O grupo, de abrangência nacional, foi fundado em 2017 na esteira do avanço da extrema-direita no país com reflexos diretos nas corporações de segurança pública, setor dominado por grupos conservadores muito em razão do vácuo deixado pela negligência histórica dos partidos, movimentos e militantes de esquerda.

Na pauta, além da disputa política revelada no nome do movimento, há defesa de temas como a desmilitarização das polícias, garantia de direitos trabalhistas para operadores de segurança, além de lutas contra a homofobia e o racismo nas corporações.

O movimento dos policiais antifascismo é suprapartidário, mas há uma óbvia ligação com partidos de centro-esquerda. Pedro Chê, como é conhecido, é filiado ao PT. Mas já há em outros estados pré-candidaturas lançadas pelo PSOL e PDT. O coordenador do movimento, o delegado Orlando Zaccone, é filiado ao PSB. Até o momento, Além de Natal, os Antifas já lançaram pré-candidaturas no Rio de Janeiro, São Paulo, Goiânia, Curitiba e Recife. A ideia é criar uma “bancada anti-bala”, contraponto à bancada da bala financiada por empresas armamentistas no Brasil.

Recentemente, o nome de Pedro Chê apareceu numa lista de 579 servidores públicos federais e estaduais num dossiê sigiloso elaborado por um serviço de inteligência paralela criada pelo Ministério da Justiça. Ele também responde a um inquérito aberto por um promotor de Justiça do Rio Grande do Norte que acusa o movimento de ser um grupo paramilitar formado por milicianos. Os dois casos, na avaliação de Chê, são uma tentativa de criminalização do movimento e não podem ser analisados de forma separadas.

Nesta entrevista, Pedro Paulo Chaves explica como enxerga a segurança pública hoje e fala sobre a representatividade de uma pré-candidatura do movimento antifascismo:

Saiba Mais: Porque você decidiu sair candidato a vereador de Natal ?

Foi algo que surgiu naturalmente da ideia da necessidade do Movimento de Policiais Antifascismo. Bem… dentre as coisas que realizamos foi levar a discussão sobre a segurança pública para os mais diversos espaços, como escolas, universidade, instituições policiais, o espaço político, é um desses espaços, é o local inclusive mais apropriado, pois mesmo que nós tenhamos uma visão negativa dele, ele representa de alguma forma a coletividade.

O que representa uma candidatura de um policial antifascismo ?

Representa uma ruptura para alguns, para outros um sonho, há quem também considere quase uma traição. Para mim representa seguir com o destino do movimento, mais um passo em direção à mudança, temos que mudar como se faz e pensa segurança pública em todos os municípios, estados, ou seja, no Brasil inteiro.

Seu eventual mandato terá foco na Segurança Pública ?

Não posso fugir a esta tema, aliás, nem quero, mas até de acordo com a forma que entendemos segurança pública, plural, repleta de conexões, temos como cidadania, juventude, mulheres, educação e saúde estarão certamente vivos em nossas propostas.

Com a segurança estadualizada e até federalizada, como um vereador policial pode influir nessa área ?

Temos uma guarda municipal, não nos esqueçamos, que embora careça de muitas atribuições, hoje é um agente não apenas colaborativo, mas integrado à segurança pública. Mas até complementando a pergunta anterior, o que move a segurança pública não é apenas a segurança pública, vejamos: a questão das creches, oportunizar atividades remuneradas para jovens, incentivo à práticas esportivas e inclusive a questão da ressocialização daquele que adere à marginalidade são temas totalmente ligados aos resultados da segurança.

Os policiais já foram representados no passado por três mandatos: sargento Regina, cabo Jeoás e sargento Siqueira. Que avaliação você faz dos mandatos deles e qual será a diferença do seu mandato ?

Há algumas diferenças, aliás vejo nossa candidatura como a única em alguns sentidos, e não só frente às que já foram eleitas, mas também a todas que já concorreram. Primeiro, nossa pré-candidatura não é corporativista, a gente não está falando com a sociedade e pedindo apenas que olhe com mais atenção e valorize a polícia, ninguém aguenta mais essa falta de compromisso com o todo. As pessoas querem verdade, e uma das verdades é que, embora as polícias e os policiais tenham que ser auxiliados, nós também temos que ter autocrítica e mudar muito da cultura, do fazer polícia que está errado, tem que se respeitar o cidadão sob qualquer hipótese e o policial tem que ser respeitado inicialmente no seu local de trabalho, coisa que muitas vezes não acontece. Mas ele também tem que respeitar, agir profissionalmente lá fora, não dá para ele reivindicar e agir, tratar mal, trabalhar de forma inadequada, que tipo de resposta é esta? Há outro fato novo, tenho uma coletividade por trás, não estou só, e nem tão pouco eu sou o centro do movimento. Eu não me representarei, mas sim a 200 policiais e tantas outras pessoas que acreditam no que a gente se propõe. Eu tenho imenso respeito por Regina, e acho que ela pagou na sua época um preço caro por isso, ela parecia ter poucas pessoas que realmente dividiam os mesmos sonhos que ela, assim como recebeu o voto de pessoas que a olhavam principalmente como uma pessoa que poderia atender a algum interesse dela, e não pessoas que a respeitavam e admiravam como pessoa, a partir do que ela era como ser humano e ser político.

Além da segurança, quais outras pautas você trabalhará num eventual mandato ?

Não há como fugir de questões relacionadas à educação e cidadania, mas quanto a este último, temos que ter uma atenção especial a questão das pessoas em situação de vulnerabilidade. Claro que mobilidade, serviço social também estão dentro dessa perspectiva de direito. Embora não seja um tema exatamente municipal, a questão do Sistema Penitenciário é um tema que nos debruçaremos. Veja a APAC-Macau, tem números de reincidência seis vezes menores do que as penitenciárias normais e por um custo bem menor, acho que dá para conversar sobre isso na Câmara, ver soluções, parcerias. Bem, além desses tem um tema que me interessa muito, emprego e renda.

Como está organizado o movimento dos policiais antifascismo em Natal ?

Em Natal temos em torno de 200 operadores, de todas as instituições policiais, seja a Polícia Civil, Militar, Bombeiros, Polícia Federal, PRF, Guarda Municipal, e os Policiais Penais.

Você está filiado ao PT e a gente sabe que a esquerda negligenciou o debate sobre segurança pública. Como tem sido essa articulação para a sua candidatura dentro do Partido ?

Bem, estamos tendo apoio e encorajamento por parte de muitos militantes do partido. Pessoas como Natália Bonavides, Júnior Souto, Isolda, Francisco, sempre reforçaram a necessidade de trazer tal discussão para o partido também. Reconhecendo justamente isso que você disse. Mas é um problema longe de estar superado. A esquerda tem que lidar com isso quando governa, tem que lidar com isso quando for oposição, não dá mais, e as últimas eleições mostram isso, de por esse assunto em segundo plano, como se fosse ser resolvido a partir unicamente de políticas públicas que ataquem problemas sociais. Não, há questões dentro da segurança pública que vão reduzir ou até impedir que uma possível melhora em quadros tenha o retorno esperado na segurança. Ela tem muito o que mudar, talvez nada tenha que mudar tanto no Brasil como a segurança pública.

A categoria dos polícias é extremamente conservadora. Ao mesmo tempo, o movimento dos polícias antifascismo é uma resposta a esse conservadorismo. Como reduzir esse preconceito entre os próprios policiais e o que você acha que uma candidatura progressista como a sua pode ajudar nisso?

Acho que a convivência, exemplo e diálogo são as ferramentas necessárias para isso. Ah, e tempo também. Um dos maiores prejudicados com o modelo e com a forma de realizar a segurança pública no Brasil é o próprio policial. Policial este que muitas vezes é o maior defensor do seu algoz, pois foi treinado por anos a pensar que só exista uma forma de fazer as coisas. Ao mesmo tempo, por vezes, o que era diferente, lhe foi apresentado de uma maneira distorcida, distante da realidade em que ele vivia. Daí voltamos à discussão, a esquerda no geral não sabe ainda falar de e nem para a segurança pública, e muitas vezes, por esse distanciamento, só tinha desprezo e preconceito pelos operadores da segurança pública, veja… não podemos esquecer que o policial é um trabalhador, e como a esquerda pode virar as costas a um dos que defende?

E como sua pré-candidatura pode mudar isso ?

Bem, respondendo de maneira mais direta, acho que uma candidatura pode acelerar essas três ferramentas e ajudar o policial a começar a refletir sobre certas verdades fáceis que disseram a ele a vida toda, que o problema da polícia é só estrutura, valorização e as leis. Não, está muito errado, embora de alguma forma tais questões possam ajudar, mas isso resolveria muito pouco dos nossos problemas e em quase nada os da população.

Há setores da sociedade que acham a guarda municipal subutilizada. Você concorda ? Qual sua posição?

Acho que sim, mas veja, não penso na Guarda Municipal como uma “pequena PM”, ou uma “PM Municipal”. Aliás, se a Guarda quiser ser vanguarda, deveria se distanciar disso e se apegar ao que não é feito pelas suas irmãs mais velhas, polícia de proximidade, mediação de conflitos. E assim, logo teriam um respaldo social diferenciado, lhes possibilitar de forma muito mais fácil até a obtenção de atribuições e estrutura de forma a potencializar ainda mais seu trabalho.

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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