OPINIÃO

Ambulantes

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A Intendência deu com os porretes n’água, no caso do reordenamento do centrão do Alecrim. Não combinou com os russos antes, e o prefeito Carlos Eduardo Alves ficou com ares de joão driblado por manés. A tentativa de impor o projeto sem discussão prévia com os ambulantes foi uma derrapada política de amador. Ou um arroubo autoritário inconsciente, que orna com esse aspecto da imagem de Alves.

O prefeito não foi apresentar o projeto aos ambulantes. Mandou embaixada e o negócio deu ruim. O secretário delegado falou grosso, os ambulantes reagiram, a Justiça falou, a Intendência piscou. O projeto foi adiado por um mês. Com a judicialização, possa ser que a ideia e o processo ganhem a luz que não tiveram até agora. A Prefeitura excluiu a cidade do debate, tentando aprovar o projeto a toque de caixa e implantá-lo de cima pra baixo.

A ‘modernização’ da parte mais movimentada do Alecrim, com a retirada de ambulantes e a entrega de área pública a empresários, merece um pouco mais de consideração. É a primeira intervenção de largo alcance no bairro em décadas. O Alecrim é vítima histórica da inapetência dos gestores para humanizar o centrão comercial e dotá-lo de alguma vida após as 18 horas. O custo financeiro e social da proposta recomendaria toda transparência do mundo, mas seguimos às voltas com gestores façanhudos: querer é poder.

O trêlêlê sobre o Alecrim trouxe de volta o mimimi neoliberal sobre instituições e regulamentos que prejudicam os negócios. Como a lei é burra, como o direito é muito, como vocês são ingratos. Sempre foi assim, mas com Michel Temer ficou pior. A ascensão do poeta e sua academia de monstros ligou um ‘foda-se’ coletivo, conectando e liberando de uma só vez energias duramente auto-reprimidas por treze anos. Ficou mais fácil e confortável ‘ser’ intolerante e autoritário de direita. Tem quem faça disso confissão de fé. Tem quem faça de profissão que não está fácil pra ninguém.

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O caso do Alecrim é um exemplo de como a cegueira do tempo cola nos nossos gestores públicos. Em pleno 2017, a Intendência age como se Natal ainda fosse uma ‘fazenda iluminada’ (pelas tochas da Operação Cidade Luz), com um coronel na porteira. É o mesmo comportamento, a mesma mentalidade dos bacanudos que se põem acima da lei e do outro quando vão para a mídia caçar publicamente instituições e regulamentos. Entre bacanudos e façanhudos, vai a multidão de ambulantes, tratada como ambulantes.

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Jornalista e Poeta