OPINIÃO

Amor, ponto de exclamação

Ele ensinava-lhe as regras do português. Virgulando as frases, ela recuperava o fôlego, respirava em desafogo e organizava os pensamentos que, até então, desconhecia possuir. Cada vírgula posta era um suspiro a mais no mundo. Antes raros, agora os suspiros eram frequentes. Sentia necessidade de pausar a pressa costumeira dos dias, de desacelerar o tempo. Nesta luta, suas armas eram os pontos finais, as exclamações, as interrogações, mas, sobretudo, as vírgulas.

Porém não era nenhuma especialista, pelo contrário, ignorava regras básicas. Jogava as vírgulas todas de uma vez. Tinha pressa. Ele não. Ele regava as frases com vírgulas exatas, precisas. Não tinha pressa. Encerrava o que pedia um desfecho, abria fala para discursos de outrem, explicava os propósitos de cada partícula solta da frase. Ela gostava de ouvi-lo falar. Por ela, não existiriam pontos finais enquanto ele falasse, só vírgulas. Quem sabe reticências?

Por ele, poucas coisas não existiriam. Se já temos substantivos, verbos e pronome, que venham mais. Outras palavras! Todo verbo é ação, mas também é nome. É o nome de quem o diz. Ninguém separa o sujeito do verbo. É ele que desfigura o entorno. O verbo é uma brasa, é um vento forte. Permanece aceso. O verbo não falece, apenas morre. Some, não se desintegra.

Em modo indicativo, verbalizava suas crenças. Em tempo presente, vivia. Com voz ativa, acreditava. Acreditava no ataque contra a defesa, nos bares vencendo as calçadas. Acreditava no amor. Levantava bandeira, ia às ruas. Para ele, o amor é um ponto de exclamação. Às vezes é preciso interromper um resto de noite ou um começo de dia e pontuar, ou melhor, exclamar que se ama. Nisto não cabe ponto final. Quem sabe reticências?

Ele ensinava-lhe as regras do português, mas bastava uma vírgula, um suspiro que fosse, para pontuar indícios de afeto. Por não conhecer todas as regras, ela perdia-se na pontuação, mas percebia as pausas voluntárias, as conversas deliberadamente jogadas fora. E embora não seguisse padrões, sentia tudo. Cada suspiro. Ele queria que ela acreditasse no ataque contra a defesa, nos bares vencendo as calçadas, mas, antes de tudo, ele queria que ela acreditasse mais em si.

Um tanto de amor escorria entre as normas da língua portuguesa. Ela tinha medo dessa palavra. Achava que era coisa inventada, coisa de cinema e novela das seis. Por isso quase sempre a transformava em sujeito oculto. Porém, de tanto pontuar, aprendeu que o amor é exclamação. Sem ponto final!

 

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Ana Clara Dantas
Ana Clara Dantas é jornalista e escreve às sextas-feiras

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