OPINIÃO

Ana e seus espelhos: de Caicó a NYC

Por Marcos Aurélio Felipe*

E o medo não se sustenta por toda a vida; um dia, o desejo de liberdade se torna maior. Não há nada que mantenha pra sempre paralisado o corpo que aprendeu a se mover.

(Ana de Santana)

1.

No decorrer da pandemia, sempre que possível, procuramos abrigo no interior do sertão para fugir da Covid-19 que já levou muitas vidas. Foi em um desses momentos, entre os trabalhos e os dias, nos momentos mais críticos da pandemia no Brasil, como se no Brasil de hoje fosse possível dizer qual é o momento mais ou menos crítico, que tive a oportunidade de ler As faxineiras sabem de tudo (Ed. Sol Negro, 2021), primeiro romance da poeta caicoense Ana de Santana, lançado no início do ano.

2.

Entre um livro e outro, encontrei em Régia e Reinaldo personagens próximos e fiquei um tempo com eles. Cada um ao meu lado, contando suas trajetórias de Caicó a NYC. Múltiplas personalidades, tênues fronteiras, labirintos de trajetórias e oportunidades, caracterizam os personagens e a autora, também presente em seu próprio romance. Em tempos e espaços distintos, Régia e Reinaldo se encontram na história e na literatura, pois, sob a escrita de Ana de Santana, pouco a pouco, vamos descobrindo e reencontrando livros dentro do livro. É que Ana, como Calvino, edita uma obra na outra, seja a que se torna a base para o filme a ser produzido sobre a personagem Régia, provavelmente, o livro que temos em mãos, seja as que são citadas pelos personagens (A penúltima versão do Seridó) ou a que dá título ao romance (Manual da faxineira, de Lucia Berlin).

Esses livros aparecem no interior da narrativa: estruturando-a e, ao mesmo tempo, confirmando que a literatura acontece em rede, com um ponto se somando a outro e, juntos, costurando uma tapeçaria maior. Sem contar as obras que tem uma relação mais estreita com as escolhas narrativas de Ana em seu primeiro romance, como A autobiografia de Alice B. Toklas (1933), de Gertrud Stein. O vínculo aqui é imediato, sobretudo pelo movimento que a(s) autora(s) faz(em) em torno do exercício da autobiografia compartilhada.

Como se escrito em coautoria e, permanentemente, sendo reorganizado, o labirinto narrativo d’As faxineiras sabem de tudo coloca, lado a lado, Ana e seus espelhos: opostos, difusos, complementares, duplos, contínuos. Neles, as trajetórias dos personagens se confundem com a trajetória da autora, que abre espaço para o outro e a complexidade de suas vidas (as faxineiras, a indígena Warao). Ao passo que fala de um mundo que não é o seu, redesenha a sua própria biografia, desenterra suas (?) memórias do fundo do armário (a fofolete e o namorado de outrora; a noite, o ambiente escolar e cultural caicoense – é claro!) e, em suas páginas, com tintas locais, expõe a imigração contemporânea.

Em As faxineiras sabem de tudo, Ana nos coloca em meio a travessia de Reinaldo rumo a América e de Régia, que, inquebrantável, ergue uma fortaleza interior para suportar caminhos sem volta. Ver todos esses personagens, a partir de uma live promovida pela radialista Suerda Medeiros quando do lançamento do livro, foi desconcertante, assim como encontrar nos semáforos da cidade de Natal indígenas Warao, com seus cartazes, famílias, solidão.

É que, nesse romance de estreia, Ana de Santana cola de tal maneira no Brasil contemporâneo que é como se entregasse uma obra em progresso, escrita no instante que a lemos, o que nos passa a impressão de, posicionados frente à um espelho, lermos o nosso tempo, o tempo de agora, no exato momento que está sendo escrito pela autora, pelos personagens, testemunhados duplamente por nós mesmos como os personagens de Borges que, de repente, veem-se dentro do livro. E, por isso, outra sensação que se desenrola sob a escrita de Ana é a de ter a autora ao nosso lado, de a “ouvirmos”, permanentemente, contar suas histórias, retomar o passado e o presente, desenvolver os personagens e ser por eles conduzida.

Entre suas páginas e travessias, estamos todos na mesmo barco, principalmente porque, feito narradora benjaminiana, Ana “recorre ao acervo de toda uma vida” para, longe de qualquer desejo narcísico, entregar “a imagem de uma experiência coletiva”. Ciente de seu lugar na arte da escrita, opta em trabalhar com sujeitos que, do início ao fim, são interpretes de si, em um livro sem qualquer espaço para a manipulação do Outro, o que explica no final quem de fato percebe-se “conduzido”, com o seu lugar e poder deslocados em um processo de invenção que produz uma inflexão significativa na literatura potiguar contemporânea.

3.

As faxineiras sabem de tudo foi lançado em combo este ano com um livro de poesia de Ana de Santana: Bicicletas para descer ladeiras à noite.

Ambos, pela Sol Negro Edições.

A escritora Ana de Santana

REVOLTO

De Ana de Santana

não sei se volto amanhã
ou no ano que vem

nunca mais

estou arrumando os
troços
desde o dia em que
soube da boa colheita
de feijão (após longa
estiagem)

tracei um plano para
deixar aqui
o que é daqui

mas as pedras que me
pavimentam
me confundem
e eu não
reconheço
quais vieram comigo
e quais

adquiri depois
quantas lajotas se
quebraram no caminho
e quantas emendei com
cascalhos estranhos

não sei que sertão
desembarcou
nesta metrópole com
vista para o mar

só sei que aqui plantei
as mudas
que trouxe no caminhão
de mudança cactos, mofumbos e
laranjeiras

não sei o que deixei de
mim
na terra que me pariu

talvez o polegar, a pele
ou um dos olhos

não sei o que de lá
tenho para devolver
talvez meia dúzia de
casas de vidro
que embrulhei uma
a uma
em roupas que não me
cabem mais

NOTAS:

– Sobre a presença do povo Warao na cidade do Natal/RN: https://bityli.com/hHrqL
– Walter Benjamin, Magia e técnica, arte e política, Brasiliense, 2012, p. 240.

*Marcos Aurélio Felipe é professor do Centro de Educação da UFRN.  Autor do livro “Ensaios sobre cinema indígena no Brasil”

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