CULTURA

ANÁLISE: Oscar “sem graça” e histórico sugere que há vida fora de Hollywood

Com uma cerimônia enxuta e sem polêmicas nem picos de emoção, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood entregou domingo (9) as estatuetas do Oscar, dando seu prêmio máximo pela primeira vez a um longa metragem estrangeiro: Parasita, do sul coreano Bong Joon Ho. O filme, de forte crítica social, manda um recado à indústria (e quiçá ao poder político): é preciso reconhecer o valor do conteúdo estrangeiro no próprio mercado norte-americano de cinema.

Em sua 92ª edição, conduzida por vários apresentadores, uma única farpa foi proferida, pelo ator Chris Rock. “Cynthia, você fez um trabalho tão bom em ‘Harriet’, escondendo pessoas negras que a Academia te fez esconder todos os indicados negros”, ironizou o apresentador, referindo-se à presença de uma única pessoa negra entre os indicados, a própria Cynthia Erivo.

Emendou ainda com uma pergunta ao colega Steve Martin: “Você está sentindo falta de alguma coisa este ano?”; “Vaginas?”, brincou o comediante, ao referir-se à ausência de mulheres nas indicações de melhores diretores, roteiristas e diretores de fotografia (exceção para a indicação de Greta Gerwig pela adaptação do roteiro de Adoráveis Mulheres, tristemente não indicada na categoria de direção).

Apesar de uma ou outra piada sobre o tema, não houve discursos engajados, fortes, como o de Frances McDormand em 2018 sobre o mecanismo de cláusula de inclusão, que propõe que os filmes tragam mais representatividade. Apenas a compositora Hildur Guðnadóttir, que levou o Oscar pela trilha original de Coringa, falou às mulheres:

Para as meninas, as mulheres, mães e filhas que ouvem a música fervendo dentro de vocês: falem! Precisamos ouvir as suas vozes”, em um dos discursos mais emocionados da noite.

Favoritismo de Coringa e 1917 deu lugar à consagração de Parasita 

Joaquim Phoenix levou o prêmio de melhor ator por Coringa (foto: Mario Anzuoni)

Apesar da falta de representatividade, os votantes do Oscar fizeram história ao dar, pela primeira vez, a premiação de melhor filme a um longa estrangeiro. Parasita é um drama social bem dosado com suspense e uma pitada de comédia, que acompanha uma família miserável na Coreia do Sul. Por ser um filme que escancara desigualdades sociais, numa Coreia que poucos ocidentais conhecem, o prêmio manda um recado importante: há uma mudança ocorrendo entre os votantes, já que profissionais de outros países foram convidados a entrar para a Academia nos últimos anos.

A diretora brasileira Anna Muylaert, de Que Horas Ela Volta? e Durval Discos, postou algo nesse sentido ontem em sua conta no Twitter: “Será que a academia tá arrependida de ter convidado a gente pra votar?” O filme sul coreano também levou pra casa os prêmios de melhor direção, melhor roteiro original e melhor filme internacional, saindo consagrado como o grande vencedor da noite. Os antes favoritos Coringa, que teve 11 indicações, 1917, O Irlandês e Era uma Vez… em Hollywood, com 10 indicações cada, dividiram premiações técnicas. Há que se dizer, no entanto, que Joon Ho não inova na forma: seu filme é um amálgama de fórmulas norte americanas muito bem executadas.

Nas premiações para atores, o Oscar confirmou apostas e a tendência anunciada nos prêmios dos sindicatos das categorias de profissionais. Brad Pitt levou seu primeiro Oscar de atuação, pelo trabalho coadjuvante em Era uma Vez… em Hollywood, de Quentin Tarantino (ele havia sido premiado antes com um Oscar pela produção de 12 Anos de Escravidão).

Laura Dern foi a melhor atriz coadjuvante pelo papel da advogada especialista em divórcios em História de um casamento. E Renée Zellweger e Joaquin Phoenix confirmaram seus favoritismos e levaram os Oscar de melhor atuação pelos trabalhos em Judy – Muito além do arco-íris e Coringa, respectivamente.

Uma dupla que fez discursos bem díspares, por sinal: enquanto Renée exaltou a unidade da nação americana e de seus herois, Phoenix louvou a empatia e a luta contra injustiças. “Seja falando sobre desigualdade de gênero, racismo, direitos dos LGBTs, dos indígenas, ou dos animais, estamos falando sobre lutar contra a ideia de que uma nação, uma raça, um gênero ou uma espécie tem o direito de dominar, controlar, usar e explorar outros sem impunidade. Acredito que nos desconectamos demais do mundo natural e nos sentimos culpados por ter uma visão egocêntrica”, disse Phoenix.

Oscar de melhor documentário para o campeão de apostas, Indústria Americana

Diretora Julia Reichert parafraseou Karl Marx ao receber a estatueta (Foto: Chris Pizzello/AP)

Como já estava no script, o Oscar de melhor documentário não veio para o Brasil, apesar da importante indicação de Democracia em Vertigem, de Petra Costa, ao prêmio. Criticada injustamente no país por contar uma versão “pessoal” (sic) da recente história política brasileira, Petra foi exaltada por sua colega vencedora na categoria. Julia Reichert ainda fez um discurso que passou batido pelos críticos brasileiros de nosso representante:

“Os trabalhadores têm cada vez mais dificuldade hoje em dia, e acreditamos que as coisas vão melhorar quando os trabalhadores do mundo se unirem”, parafraseando a célebre frase de Marx e Engels no Manifesto Comunista.

Os diretores do filme registraram uma década da vida de trabalhadores de uma fábrica do interior de Ohio, nos Estados Unidos, que antes era da General Motors e fora adquirida por uma multinacional chinesa. A repressão à sindicalização, a pressão pelo excesso de horas trabalhadas e a falta de saúde e segurança do trabalho, além do evidente choque de culturas, são os pontos fortes do filme, uma produção da Higher Ground Productions, do casal Michelle e Barack Obama.

 

 

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