OPINIÃO

Andar a pé is the new black

Foi durante a greve dos caminhoneiros, dias em que se redescobriu o gosto pelo metrô, pela bicicleta, na temporada em que carros elétricos aproveitaram pra fazer propaganda e finalmente ganhar o mercado, que minha filha chegou com a novidade: andar a pé é a última moda em Paris, e também no Brasil.

Naquele período, os colegas da escola se espantaram quando ela contou que a mãe não tinha carro. “Como assim? E você vem pra escola como?”, perguntaram. “Sabe aquela velha forma de locomoção: a pé? Pois é, uso muuuito!”, contou ela.

Ainda descrentes, continuaram: “Mas e quando a distância é grande?”, ao que ela respondeu que usava o metrô, ou, quando é possível, um Uber. Foi quando um deles disse, encantado, que queria muito que a mãe dele não tivesse carro também.

Depois dessa breve conversa com Marina, minha filha de 14 anos, em dias de pane geral nos transportes, é que pude concluir que “andar a pé is the new black”. Tudo aconteceu às vésperas de eu completar um ano sem carro, que vendi em meados de junho de 2017, em Natal, depois de decidir morar em Brasília.

Confesso que não sinto a menor falta. Pelo contrário, sou cada vez mais feliz por ser adepta dessa nova onda pós crise dos combustíveis e que fez com que eu, e minha filha, nos sentíssemos privilegiadas por não precisarmos dar uma de Mad Max, ensandecidas nas intermináveis filas dos postos de gasolina que presenciamos na capital federal.

Muito além desse sentimento, e mesmo antes da crise, já me gabava pela tranquilidade que é a vida de uma pessoa desmotorizada. Não há melhor forma de conhecer uma cidade do que andando por ela, com nossos próprios pés.

Sempre gostei de andar a pé, de sentir o sol beijar o rosto, o vento trazer o perfume do jasmim ao entardecer, o prazer de encontrar novas árvores, que eu nem sei o nome, só aprecio a beleza, de dizer bom dia aos mais velhos, de olhar a criança saltitar na amarelinha, e até de colher amoras vez em quando, num canteiro qualquer, sujeita à nódoa roxa na camisa…

É recompensador perceber que está sob um céu de ipês e parar um pouco, com a certeza de que o tempo para junto, só pra olhar a luz daquela hora mágica, que desce por entre as folhas formando sombras divertidas que acompanham meu caminhar, e parecem nascer dos meus pés, pra então ganhar o mundo…Por isso é que redescobrir Brasília assim é reinventar também uma parte de mim.

Porque, afinal, eu já fazia isso em Natal, onde eu me perdia e me encontrava, vagando pelo velho bairro de Petrópolis, sem rumo, guiada mais pela vontade do caminho do que pela necessidade de chegar a algum lugar, errando de propósito as ruas dos presidentes (e quem liga pra os presidentes?), até ser abraçada calorosamente pelo Largo do Atheneu, sempre repleto das melhores amizades, e das mais geladas cervejas.

Até hoje, quem passa por lá, pode confirmar que os cheiros das ruas se confundem comigo. Volta e meia, me mandam uma mensagem perguntando se passei por ali. É que as risadas nas mesas de bar, a boemia da madrugada, o chorinho do fim de tarde, as copas das árvores da Jundiaí desenhando túneis pela manhã, tudo isso guarda pedaços de mim, pegadas que registram meu caminho, e que trago no peito, com imensa saudade.

Porque há muito tempo, meu amigo, o caminhar “is the new black” ao mesmo tempo em que te pede: “come back”. Então eu sigo. Embriagada de novas descobertas, mas com a certeza de poder sempre voltar, com a ajuda da memória, e das pegadas que ainda estão ali.

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