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Anderson Foca: “Foi o melhor momento artístico da nossa história”

Por Isabela Santos e João Victor Leal
Fotos: Rafael Passos

O Festival DoSol completa 15 anos em 2018. Mais de mil bandas já passaram pelos palcos do evento, que procura valorizar a cena local e apresentar novidades de todo o país. Na opinião do músico e produtor cultural Anderson Foca, o festival viveu neste final de semana “o melhor momento artístico da história”, com o show dos paulistas do Metá Metá.

O DoSol é fruto da visão e do trabalho dos produtores Anderson Foca e Ana Morena, que também integram a banda Camarones Orquestra Guitarrística.

No sábado (26) e no domingo (27), aproximadamente 6 mil pessoas estiveram no Beach Club, na Via Costeira de Natal, para ver as 57 atrações que passaram por lá. Nesta edição, foram quase 100 bandas em toda a programação, que inclui aquecimentos e side shows.

Confira entrevista da agência Saiba Mais com o produtor Anderson Foca:

Saiba Mais: O quanto o Festival DoSol cresceu nesses 15 anos? Qual era a estrutura na primeira edição?

Anderson Foca: A primeira edição foi em 2002, dentro do finado Blackout, que hoje é o Galpão 29, só com bandas do selo, não tinha bandas de fora. Era uma coisa para a cidade e devia ter umas 200 pessoas no máximo. Mas foi a centelha do Festival. Em 2005 fomos para a Ribeira já recebendo mais gente e de lá pra cá estamos desenvolvendo o festival. Nas duas últimas edições aqui na Via Costeira, por uma questão logística, tamanho de boca de cena, espaço. Queria dar esse up também na sonorização. Lá não era mais possível fazer isso. Essa foi mais ou menos a nossa linha do tempo.

Saiba Mais: E como foi a receptividade com a mudança para a Via Costeira depois de tanto tempo no bairro Ribeira?

Anderson Foca: A gente foi bastante trollado quando anunciou que vinha pra cá. Parte do nosso público acreditava que ia elitizar, sair do Centro Histórico e tal. Mas a gente sabia que quando as pessoas viessem à atividade iam sentir que era o DoSol de sempre só que um pouco melhor para receber o público, receber os artistas. E foi incrível o ano passado. Muita gente dizendo ‘ah, calou minha boca, foi incrível na praia’. E aqui é a praia, não é? É o marco da cidade, o limite físico da cidade. Então, a gente acontecer na praia também é um emblema, uma coisa importante para a nossa marca e simbólico do que é o Festival DoSol, do que ele exporta e do que recebe. A praia é uma espécie de porto ali, de chegada e saída. A gente encara como isso.

Saiba Mais: Branda, de Goiás, falou que foi a primeira vez que saíram do Estado pra fazer um show. Como é essa lógica de trazer muita gente que não teria outra oportunidade de estar aqui e apresentar muita coisa nova local também?

Anderson Foca: Essa é a principal premissa do festival e a gente não abre mão disso. Estava comentando nas minhas redes sociais que a gente está passando por um processo que é entender a sua função primária. O (processo) do DoSol sempre foi trabalhar com artistas novos, com a nova música brasileira, e ao mesmo tempo oferecer um pouco de festa, para que a gente não ofereça só música nova e pouca gente acesse e também não ser só festa e parecer algo meio fútil. Talvez o nosso futuro seja equilibrar uma coisa festiva e ao mesmo tempo indicando um pouco do que vai ser a música nos próximos anos.

Organização do evento estimou público em 6 mil pessoas.

Saiba Mais: Como se dá a curadoria? Como vocês chegam nessa galera?

Anderson Foca: Noventa por cento das bandas a gente viu ao vivo. A gente toca no Camarones Orquestra Guitarrística, que é uma banda que viaja muito. Eu viajo individualmente também para ver festivais e shows. Isso ajuda a gente a fazer a curadoria. Talvez 80/20 de artistas que a gente vê e ouve. Com as bandas da cidade, a gente ouve mais e consegue ver no show também. É um misto.

Saiba Mais: Sobre as bandas da cidade, está havendo talvez uma renovação, está aparecendo muita coisa diferente, Demonia com punk rock, Potyguara Bardo com seu estilo, e muitos deles passando pela Incubadora DoSol. Fale um pouco sobre a Incubadora e sobre essa nova leva de artistas.

Anderson Foca: A incubadora faz parte da premissa do DoSol como combo cultural. É a mesma do festival, do estúdio, do Centro Cultural, que é esse papel descobridor, de pesquisa. Em Natal falar de renovação parece que houve uma cena que ficou pra trás e veio outra. Na verdade, não. Acho que é um update. Os nossos artistas mais, digamos, bombados, ainda estão no auge: o Far From Alaska, Plutão Já Foi Planeta, Khrystal, Camarones, Mahmed.

Na verdade, tá rolando uma passada de bastão bem rápida, porque a cidade está entendendo os seus artistas um pouco melhor. E a gente também aprendeu a ouvir. Natal é uma das poucas cidades do Brasil que tem dois super festivais de música nova, que é o Mada e o DoSol. Isso faz muita diferença para quem é guri e quer fazer uma banda, um trabalho artístico. Ele já viu mil coisas e fica mais fácil se inspirar. A incubadora é um segmento do festival, prossegue a ideia do festival, que é descobrir artistas novos.

Cantora Céu foi última atração da noite de sábado (24).

Saiba Mais: Pode destacar momentos marcantes/importantes do Festival DoSol?

Anderson Foca: Ah… o Marky Ramone [em 2010], sempre gostei muito dos Ramones. Não vi o show, passei mal porque me emocionei muito e nem vi. Hoje o New Fight, que é uma banda de Santa Cruz. Começou o show e tinha muito pouca gente, sei lá 20 pessoas, as pessoas estavam entrando. Imediatamente eu lembrei que em 2013 essa banda era o Far From Alaska, que tava tocando o primeiro show lá na Ribeira. Em 2014, era o Plutão Já Foi Planeta. Imediatamente me veio à cabeça que a gente faz parte do start dessa galera. Eles respeitam a gente por isso também. Por ser uma espécie de mola propulsora do desenvolvimento daquela música.

Acho que são muitos momentos assim. Ontem eu fiquei muito emocionado com o Metá Metá. Eu achei ontem o melhor momento artístico da nossa história, onde os artistas foram fodas, a estrutura física ofereceu a experiência foda para o público, com sonorização, luz. Foi um combo de artistas incríveis, progressistas com uma boa arena pra assistir show. E isso é um pouco raro, porque normalmente a gente tá numa festa ou no show de um artista mais famoso. E a gente não tinha aqui um headliner muito famoso. A Céu é uma artista grande, mas ela não é enorme. Dá um puta orgulho poder ter um festival nesse formato com esse perfil.

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