CIDADANIA

Antropóloga adotada por indígena prega o amor à diversidade na Flip

A antropóloga carioca Aparecida Vilaça foi adotada nos anos 1980 por um indígena da tribo Wari, localizada no interior de Rondônia. Paletó, como era chamado, morreu em 2017, aos 85 anos, mas teve a vida registrada na pesquisa acadêmica, e no livro “Paletó e eu: memórias de meu pai indígena”, publicado em 2018 onde Aparecida relata de modo não convencional os 30 anos de convivência com o pai adotivo.

Aparecida Vilaça abriu o segundo dia de programação Flip, em Paraty, na mesa “Bedengó”, alusão a um meteoro descoberto na região de Canudos, um dos poucos itens que sobreviveram ao incêndio do Museu Histórico Nacional no ano passado. A mediação foi do jornalista Paulo Roberto Pires. Todas as mesas da Flip têm relação com o livro “Os Sertões”, de Euclides da cunha, autor homenageado em 2019.

Aparecia contou na mesa que tinha 28 anos de idade quando viveu a experiência com os Wari, em Rondônia, e compara o início com um retorno à infância:

– Tive uma relação familiar com Paletó, cheguei muito jovem, de barco, não falava a língua, o primeiro impacto foi de estranheza, passei alguns dias sem entender muito o que estava acontecendo. Até que fui notada por esse senhor que tinha uns 60 anos, monolíngue, tentando se comunicar comigo. Ele gostava muito de falar e seu filho Abrão começou a traduzir para mim a língua do pai. Foi uma adoção gradual, até que ele começou a me chamar de filha e eu passei a chama-lo de pai. Na época eu tinha 28 anos, estava aberta a essas coisas, uma época em que não me importava se eu não comia. E como eu não sabia a língua é como seu eu voltasse a ser criança”, contou.

Os indígenas da tribo Wari andavam completamente nus. Quando chegaram os primeiros missionários à comunidade, membros do governo insistiam para que cobrissem os corpos. O pai adotivo da antropóloga se recusava até que um dia alguém apareceu só com a parte de cima do terno e o indígena passou a vestir o paletó, mas continuava pelado da cintura para baixo. A cena divertia tanto a tribo como os visitantes:

– Ele adorou e botava aquele paletó. Andava pelado e só com o paletó. O apelido vem daí”, diz, arrancando risos do público.

 A convivência durante três décadas entre Aparecida e Paletó foi repleta de momentos em que sobressaía o choque cultural entre indígenas e não indígenas (vulgo homens brancos). A antropóloga leu na Flip o trecho do livro “Paletó e eu” em que Paletó pede para que ela traduza um filme que ele gostaria de conhecer.

A obra escolhida pelo indígena foi um filme pornográfico cujo título “De volta para o futuro”, fazia a alusão a uma cena de sexo incestuosa entre mãe e filho. Se para Aparecida o momento era constrangedor, já que havia pouco texto a ser traduzido, para Paletó era uma descoberta e provocou irritação:

A cena era constrangedora. E ele perguntou se as mulheres não tinham vergonha de mostrar o ânus, o qual chamava de “caminho da pamonha”, contou.

Aparecida Vilaça fez um relato não convencional de sua convivência com a tribo Wari, de Rondônia (foto: Walter Craveiro)

Aparecida Vilaça define Paletó como um homem extraordinário e intelectual:

– Paletó era um homem extraordinário, intelectual, um pensador, uma pessoa completamente aberta a novidades, um fabulador, tentava entender tudo o que via diferente. Me ajudou a me descobrir, me fez entender minha própria vida na cidade. Ele me ajudou a descobrir sobre meu mundo, e além disso era um homem super bem humorado, embora tenha passado por momentos drásticos, como massacres. Foi uma grande sorte na vida ter conhecido essa pessoa. Se tornou um grande parceiro. A maioria dos meus livros é fruto desse pensamento conjunto entre duas pessoas que estavam se olhando.

Na parte mais política do debate, a antropóloga destacou a riqueza humana e intelectual das comunidades indígenas, em especial os Wari, objeto de estudo dela. Para a pesquisadora, a diversidade é a chave para entendê-los:

– A gente tem que amar a diversidade, abrir a mente e o coração para essa diversidade, para os índios, que ali tem uma riqueza incrível. Não é só artesanato ou uma dancinha, eles são intelectuais. Se estivessem vivendo aqui, na universidade, estariam ganhando prêmio Nobel. É abrir nosso coração. Na hora que tivermos essas pessoas no coração e na mente, aí vai ver como coisa natural

Mesmo sem citar o nominalmente o nome do presidente da República, o governo Bolsonaro entrou na pauta do debate. A polêmica das demarcações de terras indígenas trazem à tona novamente a possibilidade de mais massacres contra povos indígenas no país, o que já começou a acontecer no interior do país.

A antropóloga chama a atenção para o fato das tribos que lutam para se manter em suas terras de origem virarem alvo novamente de especuladores e grandes latifundiários:

– (os indígenas) Viraram um alvo novamente. (vivemos um) momento de retrocesso absoluto. Os direitos dos indígenas, de suas terras e cultura estão ameaçados, embora há uma certa confusão em relação aos decretos e demarcações. Felizmente o Congresso tem sido atuante de não deixar o decreto passar até agora, mas há um desprezo pela cultura indígena e tem muita mentira sendo espalhada sobre eles. As terras indígenas são muito cobiçadas. Os Wari têm me ligado para dizer os fazendeiros entram nas terras dizendo que as demarcações já não valem nada. Por telefone aciono o Ministério Público, mas a situação dos povos indígenas é muito drástica e a gente não tem ideia do que está acontecendo. São eles que preservam nossas florestas.

A família de Paletó foi metralhada por criminosos. A mulher e a filha foram mortas uma em cima da outra. O assassino atirou contra a vagina da indígena, que ainda permaneceu viva por umas horas até morrer. Segundo a antropóloga, 2/3 da população Wari foi dizimada. Ao final da mesa, Aparecida Vilaça fez um apelo:

– Se a gente não tiver diversidade, a gente morre. Um mundo feito só de gente igual é ruim, é pobre. Somos nós que devemos nos civilizar com eles, e não o contrário”, desabafou sob aplausos da Flip.

 

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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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