OPINIÃO

Ao mestre Moacyr, minhas desculpas

Atestado de idiota. Acho que mereço. Sim, eu fui “boi de curral” e embarquei com canga e tudo na conversa da Arena da Copa do Mundo que seria uma redenção para o futebol do Rio Grande do Norte. Cometi a sandice de ignorar um projeto lindo, infinitamente melhor economicamente de Moacyr Gomes da Costa, o idealizador, criador de nosso lindo “Poema de Concreto Armado”. Ele, na sua sabedoria, queria o óbvio: valorizar nosso Machadão, dar uma roupagem nova, e por fora promover uma linda urbanização, onde teríamos áreas, verdadeiramente de lazer, restaurantes, bares e convivência. Perdemos tudo isso.

O Machadão não transformaria sua arquitetura única, com cara de estádio de futebol. Continuaríamos a passar de carro e ver, por entre brechas da arquibancadas, o jogo se desenrolando, o barulho das torcidas. Ainda veríamos, a quilômetros de distância, as enormes torres de iluminação clareando todos os quatro cantos do miolo de nossa Zona Sul, ao mesmo tempo que nos guiava para suas dependências. O miolo, salas, banheiros, vestiários, os sistemas elétricos, hidráulicos, as estruturas reforçadas, tudo seria reformado, modernizado, embelezado e continuaria, claro, a ser o lugar do esporte de Natal, como era no tempo da FENAT – Fundação de Esportes de Natal.

“Eles” não quiseram. E com apoio da grande maioria, burra, inocente ou conivente, que me incluo, nos fizeram embarcar nessa canoa mais que furada. Construímos uma Arena de Copa do Mundo que dizem ser a mais bela do Brasil, hoje, confesso, não vejo nada de beleza naquela caixa redonda branca, fechada e sem brilho. E quando entro, me sinto mal, asfixiado, parece que estou numa festa de elite, com tantas frescurites, cuidados, corredores e bobagens que se assemelha a tudo, menos a um estádio de futebol. Aliás, se foi construído para abrigar jogos de futebol, isso agora, fica evidente, me parece distante.

Perdemos, volto a dizer, nosso “Poema de Concreto”, que era único e lindo. Contudo, as porradas foram muito maiores. Não temos mais o ginásio Humberto Nesi, palco de tantos momentos lúdicos de nosso esporte. Além disso, até nosso Kartódromo, que colocava Natal no calendário de grandes eventos de automobilismo de kartismo, sem falar nos vários talentos que estávamos criando, moldando, para o futuro do Brasil. Teríamos, vejam só, tudo dentro do projeto do arquiteto, um complexo esportivo dos mais belos do mundo- estádio, ginásio, kartódromo, área de convivência no lugar mais central de nossa cidade e gastando, minha gente, tenham certeza, cinco vezes menos e que seria administrado por nós, bem ou mal, mas da terra da gente.

Nossas praças de esportes mantidas e muito menos prejuízos, sem o absurdo da cobrança mensal que chega ao cúmulo de R$ 10 milhões. Sem falar nas irregularidades apontadas antes, durante e depois de sua inauguração. Um relatório do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RN) mostra que a OAS recebeu R$ 124,7 milhões em 2015 e R$ 116,8 milhões em 2014. Pasmem: era uma obra orçada em R$ 400 milhões que saltou para mais de R$ 1 bilhão aos cofres públicos, sem falar no absurdo do custo mensal de quase R$ 10 milhões. O estádio está sob auditoria,  pedida pelo deputado estadual Sandro Pimentel (PSOL).

O que será que vamos ter na apresentação do texto final na conclusão?
Arena das Dunas não melhorou nosso futebol, muito pelo contrário. Os números de média de público pouco diferem de antes, sem falar que os custos para a realização de jogos inviabiliza partidas do Estadual, realizadas por conta de um acerto, contrato, não se sabe ao certo, de um contrato nunca bem explicado entre federação, OAS e clubes. Evidentemente, como diria Judas Tadeu, nenhum dos objetivos apresentados para justificar nossa Arena foi alcançado.

O RN, Natal, não tem um estádio alternativo, já que o presidente da FNF, José Vanildo, agora conhecido como o “Coveiro do JL”, abandonou o estádio do Tirol, tirou a sede da entidade de lá e o berço do nosso futebol, que poderia ser uma palco ideal, adequado para jogos do Estadual e até da Série D do Brasileiro, se encontra interditado, tomado pelo lixo, pelo desleixo e abandono.

Muita gente lucrou com a construção da Arena das Dunas, muita coisa ainda vamos ouvir falar deste  quase “elefante branco”, mas o torcedor de verdade, aquele que trabalhava um pouquinho a mais para juntar seu dinheirinho e comparecer ao estádio para torcer pelo seu time, esse, não entra na Arena. O preço não cabe no seu bolso. A Arena das Dunas é um caso de absurdos repetidos. Tudo custa muito caro – pipocas, refrigerantes, sanduíche, água mineral. O torcedor reclama que o cachorro é frio e o refrigerante é quente, além do que, todos os preços são salgados demais.

Além de tudo, basta que aconteça um jogo com um público um pouquinho maior para que os torcedores sejam penalizados, passando horas na fila tomando sol ou chuva, enfrente, indignado, impotente, problemas nas catracas eletrônicas e até denúncias de uso de ingressos com duplicidade. A Arena das Dunas é palco para shows, talvez, não sei, nunca fui, nesse quesito tudo funcione.  Agora, da Arena, confesso, só espero apuração de fatos, moratória do Governo do Estado e que corruptos e corruptores sejam punidos.

A mestre Moacir Gomes da Costa, minhas desculpas!

 

 

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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