OPINIÃO

Apartidária e com pauta definida, manifestação desta quinta pode assustar Bolsonaro

Como definiram com bom humor nas redes, o Brasil vive uma gincana de manifestações. Quando a Esquerda faz um protesto, a Direita inventa outro em seguida e vice-versa, e assim o povo sai cada vez mais às ruas para se manifestar politicamente, embora alguns dos atos se assemelhem mais a micaretas.

Humor de rede social e ironias minhas à parte, vamos aos fatos concretos: após a movimentação do último dia 15 em defesa da Educação e contra os cortes nas universidades, entidades estudantis como a União Nacional dos Estudantes (UNE) e a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) decidiram convocar – antes mesmo da confirmação do ato pró-Governo realizado domingo e que depois falaremos com mais calma – mais um dia de manifestações, desta vez 30 de maio, quinta-feira, amanhã.

Mesmo o Governo sabe que o ato do dia 15 foi bem sucedido. Segundo cálculos da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), cerca de um milhão de estudantes, professores, e defensores da educação pública foram às ruas de 222 cidades brasileiras no dia 15. A pressão surtiu efeito e no dia 22, o governo anunciou que usaria parte da reserva orçamentária para diminuir o tamanho dos cortes da educação. Com o recuo, os R$ 5,8 bi que seriam cortados foram reduzidos para R$ 4,25 bi.

A mobilização engajou muitos eleitores descontentes com Bolsonaro, que já em início de mandato soma problemas, desgastes, escândalos (como o do filho Flávio, às voltas com dinheiro sem fonte e envolvimento direto com milicianos), recuos e medidas impopulares. Segundo a pesquisa Ipesp/XP divulgada sexta (24), 36% dos entrevistados avaliam o governo como ruim ou péssimo, número bem mais elevado que o de todos os presidentes anteriores.

Com este somatório de fatores, a previsão é que os atos deste dia 30 reúnam ainda mais gente que os do dia 15, gerando uma pressão intensa no Governo. Um dos trunfos da manifestação é ser caráter apartidário. O movimento é organizado e protagonizado por estudantes e docentes, atingidos diretamente pelos cortes na Educação. Este contingente de pessoas atingidas direta e indiretamente envolve eleitores de Direita, eleitores do próprio Bolsonaro e antipetistas em geral que ao dissociarem os atos do petismo tem amplas chances de aderirem. A pauta definida – centrar forças contra os cortes na Educação – é outro trunfo da manifestação.

Outro fator que pode inflamar a manifestação de quinta foram as provocações dos manifestantes pró-Governo no dia 15. Oficialmente, os atos eram pela Reforma da Previdência e pró-Pacote AntiCrime do ministro Sérgio Moro, mas parte dos manifestantes mostrou na prática que a pauta da Direita bolsonarista é de conflito, como os cartazes em diversas cidades pedindo Intervenção Militar e, pior, a arrancada da faixa que pedia luta pela Educação na UFPR, em Curitiba. A provocação do próprio presidente em chamar os estudantes de “idiotas úteis” também deverá servir como combustível para os atos.

Parece claro que a manifestação de quinta reunirá bem mais pessoas em mais cidades do que a pró-Governo, o que vai consistir em um gol no Fla x Flu nas ruas atual. Mais que isso, colocará o Governo sob pressão, tornará a situação do polêmico (para dizer o mínimo) ministro da Educação Abraham Weintraub delicada e ainda atrairá a atenção da mídia internacional para o caos no Governo Bolsonaro.

Muita gente vem lembrando que entre as crises de gestão e diálogo de Collor entre 1990 e 1991, a queda dele começou de verdade com o simbolismo dos “caras pintadas” na rua. Será que a história se repetirá, como tragédia ou farsa mesmo?

 

 

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