OPINIÃO

Apesar da crise, o jornalismo não toma jeito

Os dias andam ainda mais estranhos desde o último 28 de outubro. As notícias que anunciam as medidas do futuro governo serão fatalmente seguidas de outras notícias desmentindo ou desfazendo as decisões. São cada vez mais comuns nas manchetes verbos e expressões como “rever”, “desistir” e “voltar atrás” tornam ainda mais incerto os rumos que o país vai tomar no próximo governo.

Alguns chegaram a apontar que a tática do “disse e desdisse” como parte de uma estratégia maior para minar a credibilidade da imprensa brasileira. O próprio presidente eleito chegou a recomendar, em suas concorridas lives nas redes sociais, que seus seguidores não confiassem na imprensa e que buscassem informações apenas nas páginas e perfis do político – somente lá estaria a verdade.

Não causa surpresa alguma que o governo do pai e filhos ataque frontalmente a liberdade de imprensa – um dos fundamentos da democracias liberais. Eles barraram jornalistas já na primeira entrevista coletiva e, três semanas depois de eleitos, ainda não sabem se vão contratar um profissional de comunicação para lidar com a imprensa. O filho – vereador licenciado para atuar como tuiteiro na campanha – crê piamente que pode deixar tudo como está mesmo depois de assumirem a Presidência da República (inclusive com fotos do churrasco de domingo na Alvorada?).

A grande questão é que, hoje, a verdade não está nas redes sociais. Dos perfis pessoais dos nossos amigos às páginas e perfis de figuras públicas, tudo é massivamente editado e planejado minuciosamente para garantir um efeito positivo – seja uma chuva de likes na sua nova foto de perfil, seja uma enxurrada de compartilhamentos no anúncio da decisão polêmica da equipe de transição.

É aí que mora o perigo.

Nas democracias estabelecidas ao redor do mundo, a mídia cumpre importante papel na apuração de informações e notícias, e contribui para que os cidadãos possam detectar informações falsas. O jornalismo é regulado pela sociedade e cumpre princípios éticos estabelecidos coletivamente.

E no Brasil?

Por aqui, os interesses das empresas midiáticas são opostos aos ideais de liberdade e democracia. Na mais recente ditadura – a de 21 anos –, nossas empresas midiáticas colaboravam com a censura e, até mesmo, dava uma carona aos torturadores e assassinos estatais. Se é objetivo do presidente eleito minar a credibilidade do jornalismo, nem precisa se dar ao trabalho.

De acordo com uma pesquisa divulgada em março – o relatório global do Edelman Trust Barometer 2018 –, 67% dos brasileiros acreditam que a mídia defende uma ideologia ao invés de informar o público e 74% acreditam que a mídia está mais preocupada em atrair audiência que em noticiar fatos.

O pior, segundo a pesquisa, é que 58% dos brasileiros não sabe diferenciar uma notícia verdadeira de uma informação falsa.

A pesquisa aponta que o fenômeno das “fake news” pode ser responsável pela perda de credibilidade da mídia, mas a história recente da mídia brasileira traz episódios que também podem ser colocados nessa conta: o silêncio sobre as Diretas já; as manipulações bem sucedidas nas eleições dos anos 1990, as manipulações mal-sucedidas nos anos 2000, a diferença na cobertura dos atos de rua contra e a favor do Impeachment de Dilma e a cobertura das eleições deste ano, por exemplo.

Tudo isso sem falar na precarização do trabalho dos colegas jornalistas – cada vez mais raros nas redações, cada vez mais impelidos a buscar informações pelas redes sociais.

Afinal, onde anda a verdade mesmo?

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo