OPINIÃO

Arroz, fogo e perdas

Algumas semanas atrás o vento cortante da pandemia bateu palmas na minha porta da frente e levou meu pai. Estou tentando escrever esse texto há dias, mas um peso que há tempos não sentia se abateu sob as minhas mãos e as deixaram inertes, pesadas e densas.

Nos dias que se seguiram não ouve música, texto, coluna, não teve rede, sorrisos, trabalho, cozinha… Não houve nada a não ser o peso inerte de minhas mãos densas.

Um processo de luto repentino, onde não há nenhum “preparo” do subconsciente, é algo desconcertante, repetindo o que venho dizendo, é uma sensação de estar querendo correr dentro de um quarto fechado e sem saída de ar, e que mal me cabe.

Apesar de toda a liberdade que esse portal me dá, e sou muito agradecido por isso, para mim é muito nítido que se espere textos descontraídos para serem lidos em um sábado pela manhã, falando das aventuras e curiosidades gastronômicas, minhas ou de terceiros, o que para mim é um dos maiores prazeres da vida.

Mas falar sobre alimento é falar sobre alma, e há coisas que a minha precisa gritar, principalmente pelo fato de que eu perdi a pessoa que me apresentou o sabor da cozinha e da música, e que me ensinou que não é feio se emocionar, talvez por isso eu escreva. Talvez eu escreva o agora, pelo simples motivo de conseguir escrever amanhã.

Tudo que é noticiário nas últimas semanas vem falando do aumento do preço do arroz e da incapacidade do governo federal de lidar com essa pequena crise que pode se tornar grande, devido à diminuição do valor repassado pelo auxilio emergencial.

O nosso arroz foi domesticado pelo bicho gente há mais de 10.000 anos, provavelmente no sul da china. Em nosso mundo moderno ele é o terceiro cereal mais consumido no mundo, e é responsável pela nutrição cotidiana de um terço da população humana mundial. É um dos alimentos base de nossa frágil espécie. Sem a tríade do arroz, trigo e milho, teríamos chegado onde?

O grande capital especulativo insiste em chamá-los de commodities, mas se Wall street fosse dominada por cozinheiros e agricultores, com certeza chamaríamos de vida. Não é à toa que a palavra semente significa “embrião ou vida latente”, em algum momento igualamos em importância e cuidado os nossos alimentos aos nossos próprios filhos, e não vejo o capital chamando a prole de commodities.

É interessante como agora o arroz orgânico do MST já não é visto como um produto “inimigo” e sim como uma alternativa real e tátil para o absurdo que o presidente chama de falta de patriotismo dos supermercados do Brasil. Se alimentar bem é respeitar o que se come e não tratar a nossa segurança alimentar como número nas gritarias das bolsas de valores.

Falando em respeito, o que se esperar do futuro de uma nação que assiste inerte e de mãos atadas à aniquilação de três biomas que estão entre os mais importantes do mundo e que representam a sustentação da vida no planeta?

O mundo está doente e não é só a Covid-19 que entope nossos corpos de lastimas e perdas, e nem entro no discurso fácil de que “nós somos” a doença. A vida jamais pode ser confundida com a moléstia, mas o modo que estamos vivendo, sim.

A gastronomia e a ciência correm grande risco, as chamas consomem sabores, saberes e curas. As chamas consomem nossas sementes, nossos filhos e nossa vida. E se não respeitarmos isso, respeitaremos o que?

Já me “alertaram” de que cozinheiro não deve ter “lado”. Mas se nós não tomarmos posição diante a situação que nos encontramos, quem o fará? Alimentar pessoas não é só um negócio, a missão de quem alimenta é a missão de quem cuida. Então, sim, a gastronomia pode e deve ter lado. Ou iremos alimentar as pessoas com tabelas?

O arroz é alimento básico, assim como o afeto, e temos que fazer um paralelo necessário entre eles. Perder a capacidade de se emocionar com a fome que grita na rua, com o aumento dos pedintes, com a iminência de flagelados, é deixar um pouco de lado nossa humanidade.

Quais as lições que deveríamos ter tido nesses últimos meses de tanta dor? Nunca acreditei que sairíamos dessa tempestade cantando We are the world em um grande coral universal, mas também não dá para sair tendo como consequência a fome e a destruição de mais vida por omissão criminosa enquanto bilionários ganharão dinheiro que nunca irão gastar.

Já que estamos em ‘ais’ de transformar o arroz em caviar, vou transmitir a vocês a primeira receita que me foi ensinada por meu pai. Arroz solto, sincero e que demora a azedar, tendo em vista que azedume é uma das poucas que há em fartura atualmente.

Para uma xícara de arroz, você irá colocar três xícaras de água para ferver. Dentro dessa fervura você irá colocar um dente de alho, meia cebola e sal a gosto. Em outra panela, iremos dar uma leve fritada no arroz com um fio de gordura vegetal (óleo, azeite, etc), quando estiver bem quente, se adiciona a agua fervente do alho e cebola (você deve coar essa agua a fim de tirar o alho e a cebola, o sabor já estará na agua).

Fogo baixo e panela tampada, evite mexer para que o amido não deixe o arroz ‘liguento”, a quantidade de água será o suficiente, não precisa colocar mais, evitemos choque térmico. Esse tipo de preparo de arroz, dura facilmente 10 dias na geladeira e é perfeito para a vida corrida de se fazer comida uma vez na semana.

 

 

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