OPINIÃO

Arte e resiliência

No último dia 22, lá no espaço do Memorial Câmara Cascudo, Alexandre Gurgel lançou o livro Autorretrato do Poeta: Deífilo Gurgel – poesia inédita e a fotografia de uma vida feliz. O livro é fruto de dois anos de intenso trabalho de pesquisa de Alexandre no acervo particular de seu pai Deífilo, nome que dispensa comentários e que certamente figura lado a lado junto a outros medalhões dos estudos folclóricos do RN, tais como Câmara Cascudo e Veríssimo de Melo.

O livro, enquanto objeto cultural, bem como a festa de celebração a mais este rebento no mundo das letras potiguares, só foi possível a um esforço coletivo de pessoas diversas que partilharam com Alexandre a mesma vontade de reverenciar o poeta e folclorista que neste ano, exatamente naquela segunda-feira dia 22 de outubro, completaria 92 anos se vivo fosse.

Nessa soma de forças, podemos citar nomes vários como Rita Nataly, Dorian Lima, Raquel Lucena, Giovanni Sérgio, José Aglio, Ivan Junior, Tarcísio Gurgel, Fernando Pinto, Alexei Bueno, Gilberto Alves, Severino Ramos, João Salinas, Mirabô e outros que, em frentes diversas, participaram dessa batalha que é concretizar uma meta-sonho por meio de um livro.

Sobretudo nestes climas sombrios de disputa eleitoral em que a truculência e a intolerância arraigadas a certos seres (humanos mesmo?) e segmentos acenam para um governo neofascista, sem respeito às diferenças e diversidades, sem abertura ao diálogo e ao debate, aspirando ao retorno de um Estado autoritário onde prevalecem o medo e o terror.

A festa foi linda. Um momento de intervalo nestes tempos tristes e temerários. Uma constatação de que o filósofo Nietzsche estava mesmo certo: necessitamos de toda arte exuberante, flutuante, dançante, zombeteira, infantil e venturosa para não perdermos a liberdade de pairar acima das coisas (“Gaia Ciência”, 107). Para poder extrapolar o peso destas coisas terríveis que estamos presenciando, e que talvez possamos, tomara que não, presenciar (agressões e ameaças de todas as ordens), somente o consolo da arte e da poesia.

O livro de Alexandre Gurgel, editado com o apoio do Programa Djalma Maranhão, é uma delícia que nos permite um ligeiro descanso dessa triste realidade. Folheando as páginas repletas de documentos diversos, como fotografias e de poemas inéditos de Deífilo, além e poemas do próprio Alexandre, é possível crer numa vida feliz. É possível ter esperança diante de toda má sorte que possa se anunciar, num gesto de resiliência, tal como “o exemplo das xananas” de que nos fala Deífilo Gurgel:

Mas, amanhã, num gesto de ternura,

As xananas despertam novamente,

Num chão de areia, ou entre pedras duras.

 

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