OPINIÃO

As árvores do sul dão frutos estranhos…

A luta pelos direitos civis nos Estados Unidos tem muitos capítulos desde a década de 1950, ano do surgimento dos movimentos civis mobilizados por pessoas negras. Em alguns estados norte-americanos as pessoas questionavam o sistema de leis impostas pelo regime de segregação racial (apartheid), que acobertava as ações praticadas por grupos que pregava a supremacia racial branca desde fins do século 19 e que se reúne sob a denominação de Ku Klux Klan.

O boicote aos ônibus de Montgomery, no Alabama, tornou-se o primeiro evento público organizado pelo movimento pelos direitos civis em dezembro de 1955. No dia 1 de dezembro daquele ano, a ativista do movimento pelos direitos civis Rosa Louise MacCauley (1913-2005), a Rosa Parks, se recusou a seguir a ordem dada pelo motorista de um ônibus para ceder o seu assento a um homem branco, conforme constava em uma das várias leis de segregação racial em vigor à época.

Antes mesmo do boicote provocado por Rosa Parks, individualmente pessoas afrodescendentes com alguma influência social também levantavam a sua voz contra os linchamentos públicos, os recorrentes enforcamentos e o emprego de elementos simbólicos (cordas com nós de enforcamento, cruzes queimadas, frases pichadas nas casas) implantados para manter o medo na população.

Uma dessas personalidades públicas que criticou abertamente as leis de segregação racial foi o judeu de origem russa nascido em Nova Iorque, escritor, compositor, poeta e ativista político Abel Meeropol (1903-1986). Como a crítica aos movimentos supremacistas infringiam as leis de segregação racial, Abel Meeropol escrevia sob o pseudônimo de Lewis Alan.

No cenário de intensos conflitos sociais de fins da década de 1930, Meeropol viu numa revista a foto do enforcamento de dois homens negros. Isso o motivou a publicar em 1937 uma poesia intitulada Fruto Amargo (Bitter Fruit), modificada posteriormente para Fruto Estranho (Strange Fruit):

As árvores do Sul dão frutos estranhos

Sangue nas folhas e sangue na raiz,

Corpo negro balançando na brisa do Sul,

Fruto estranho pendurado nas copas.

Cena pastoral do Sul galante,

Os olhos esbugalhados e a boca retorcida,

O cheiro de magnólia doce e fresco,

E o cheiro repentino de carne queimada!

Aqui está uma fruta para os corvos colherem,

Para juntar água de chuva, para o vento enxugar,

Para o sol apodrecer, para cair da árvore,

Aqui está uma colheita estranha e amarga.

 

A história desta canção é igualmente dolorosa para aqueles que ousaram fazer a sua gravação e cantá-la diante do público. Primeiro porque a letra relata a cena de linchamento de pessoas negras, cuja morte era uma penalidade executada publicamente, após a acusação de cometimento de pequenos delitos ou mesmo crimes graves. Após o enforcamento o cadáver pendurado ficava à observação pública durante semanas.

Segundo porque o fato de cantar esta música diante do público fatalmente tornava o/a artista alvo de uma perseguição judicial (lawfare), levado adiante sob o aparente manto da legalidade. Mesmo que não houvesse um impedimento legal para executar a canção publicamente, a sua mensagem incitava o descontentamento contra a política de segregação racial.

A política de guerra às drogas era um subterfúgio utilizado contra artistas como a cantora e compositora de jazz, também nova iorquina, Billie Holiday (1915-1959). Holiday gravou Fruto Estranho em 1939 e ousava apresentá-la diante de um público misto de pessoas brancas e pretas na boate Cafe Society.

No filme “Os Estados Unidos x Billie Holiday”, lançado no ano passado, a perseguição do governo norte-americano à cantora, após incorporar a canção em seus espetáculos em 1943, é bastante explícita. Apesar de sua mensagem triste, a música foi aclamada pelo público. Mesmo no auge do sucesso, Billie Holiday foi presa em diversas ocasiões por posse de drogas, até a sua morte.

Outra cantora e compositora que também sentiu o peso da letra de Fruto Estranho foi Nina Simone (1933-2003), nascida na Carolina do Norte. Ao passo em que Fruto Estranho destoava do repertório de Holiday, composto em grande parte por músicas românticas, na década de 1960 as músicas com temas antirracistas eram mais comuns.

De modo que, além de outras canções com temas sociais, Nina Simone gravou Fruto Estranho em 1965, mas não gostava de executá-la em público porque dizia que a canção evocava a imagens feias e violentas, que a dilaceravam quando tocava. A canção ainda hoje desperta a ira de pessoas brancas nos Estados Unidos devido ao seu caráter explícito.

Por outro lado, Fruto Estranho transformou-se num verdadeiro patrimônio dos movimentos civis norte-americanos e, sobretudo, para os afro-americanos. No ano de 1999, a Revista Time nomeou a música como a canção do século, tendo sido regravada inúmeras vezes.

Mais recentemente a letra de Fruto Estranho ressurgiu com toda a força em 2020, devido a um acontecimento histórico nos Estados Unidos: a aprovação do Projeto de Lei Anti-linchamento Emmett Till (Emmett Till Antilynching Act), que traz o nome de um adolescente morto aos 14 anos, em 1955.

Infelizmente, em maio do mesmo ano, apenas três meses depois da aprovação do Projeto de Lei Anti-linchamento Emmett Till para revogar uma das leis mais cruéis ainda em vigor nos Estados Unidos, aconteceram novos casos de assassinato contra pessoas negras em locais públicos, dentre eles o mais conhecido, ocorrido em Mineápolis, onde George Floyd (1973-2020), um homem negro, foi morto por um policial branco por asfixia.

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Gilmara Benevides
Gilmara Benevides é doutora em Direito, interessada em história e relações culturais internacionais.

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