ENTREVISTA, Principal

As bodas de prata do Clowns de Shakespeare: “De certo, apenas a urgência em resistir”

O Clowns de Shakespeare celebra em 2018 as bodas de prata num casamento duradouro como manda o figurino: com amor, paixão, rotina, crises, idas, vindas e maturidade. Grupo de teatro potiguar de maior expressão fora do Rio Grande do Norte, o Clowns chega aos 25 anos com uma trajetória invejável.

O grupo coleciona 19 no total já apresentados; reconhecimento do público e da crítica; apresentações por todos os estados do país e vários países da América Latina e Europa, intercâmbio com grupos de teatro do Brasil e do exterior; prêmios nacionais;  um espaço alugado para ensaios e apresentação de espetácilos e a criação de uma festival anual que, em 2018, não foi possível realizar.

Para avaliar o balanço desta trajetória, a agência Saiba Mais procurou o diretor e um dos fundadores do grupo Fernando Yamamoto. Nesta entrevista, ele relembra etapas desses 25 anos e projeta um futuro sombrio com um presidente eleito que já demonstrou não ter apreço nenhum pela cultura.

O Clowns de Shakespeare hoje é: Rafael Telles (produção), Dudu Galvão (ator e cantor), Renata Kaiser (atriz), Fernando Yamamoto (diretor), Diogo Spinelli (ator e diretor), Camille Carvalho (atriz), Myllena Silva (secretária) e Paula Queiroz (atriz)

Fernando Yamamoto: diretor e um dos fundadores do Clowns de Shakespeare (foto: Ramon Vasconcelos)

Saiba Mais: Que avaliação você faz da trajetória do Clowns nesses 25 anos?

Fernando Yamamoto: Não há como não me orgulhar desse marco. Sem dúvida, é uma trajetória de resistência, de superação da condição de precariedade que os grupos de teatro brasileiros são obrigados conviver. É uma história de superação das próprias contradições internas, da dificuldade de manter a convivência diária em um casamento com muitas pessoas, uma família que precisa trabalhar diariamente, sobreviver às partidas, aos rompimentos, às permanentes crises.

O que mais marcou o grupo nesse período? Prêmios nacionais, reconhecimento do público, oportunidade de ter o próprio espaço, algum espetáculo em especial, união…

Claro que há espetáculos muito especiais, como o Muito Barulho por Quase Nada, que abriu as portas do Brasil pra gente, O Capitão e a Sereia, que eu entendo como o mais autoral e político da nossa trajetória, o Sua Incelença, Ricardo III, que nos levou mundo afora, dentre outros. Há também os grandes mestres, como Sávio Araújo, Adelvane Néia, João Marcelino, Lenilton Teixeira, Eduardo Moreira e demais integrantes do Galpão, Ernani Maletta, Babaya, Gabriel Villela, Márcio Aurélio, Márcio Marciano, Maurice Durozier, Charo Frances, Arístides Vargas, Hélder Vasconcelos, Francesca della Monica, Tânia Farias, Maria Thais, Jesser de Souza e LUME, Marcelo Bones, e tantos, tantos outros.

Também consigo lembrar de momentos e conquistas muito especiais, como a primeira temporada em São Paulo, no icônico Teatro SESC Anchieta (2005), o prêmio Shell (2009), a primeira viagem internacional com O Capitão e a Sereia no Equador, a participação no festival Santiago a Mil, no Chile, por quase um mês – em especial a apresentação em frente ao Palacio La Moneda –, encerrar o Ano do Brasil em Portugal, na cidade do Porto, a apresentação do Ricardo III no Complexo do Alemão com uma vista de 360 graus do Rio de Janeiro, o festival O Mundo Inteiro é um Palco, o Laboratório da Cena, que acontece todo ano e recebe artistas de todo o Brasil e outros países, os tantos outros prêmios e editais, as duas participações no projeto Palco Giratório (2006 e 2017), circulando por todo o país, etc.

Mas acho que, de tudo, o que mais me toca nessa história é pensar que conseguimos chegar onde chegamos, estando onde estamos. Essa história começa como uma brincadeira, vira um hobby sem maiores pretensões e, 25 anos depois, mesmo com todas as dificuldades e precariedade, temos uma estrutura rara para a média do teatro de grupo nordestino e brasileiro. Jamais imaginava que iríamos apresentar em todos os estados brasileiros (e Distrito Federal), além de diversos países, construir um espaço como a Casa da Ribeira (mesmo que depois tenhamos nos desligado), ter um espaço – apesar de alugado – como o Barracão que, apesar de alternativo, abraça nossas necessidades de uma forma muito digna e, principalmente, nos dando a possibilidade de viver disso, ainda que com muitos apertos. E tudo isso estando em Natal.

Deixando a modéstia de lado, acho que isso só foi possível pela associação de alguns fatores: uma incansável obstinação pelo trabalho, pelo suor; a busca constante por um rigor estético, uma linguagem teatral de qualidade; e a conduta ética, engajada, posicionada, que coloca o humano e o afeto sempre em primeiro plano.

Qual a receita pra manter um grupo de teatro unido por tanto tempo?

Resiliência, persistência, resistência, paciência… A nossa vida é solucionar uma crise pra começar outra. Mas o foco no que é comum a todos, no que nos une, nesse projeto de vida, nos faz superar todas as agruras e dissabores. Se é difícil, é também muito prazeroso e recompensador. Me considero um privilegiado por poder viver do que eu faria de graça, se tivesse que trabalhar com outra coisa. Costumo dizer para quem está começando, que um grupo só começa a existir de fato após a sua primeira década, que é quando alcança um patamar de mínima estabilidade. E isso se dá quando você começa a entender a justa equação entre o indivíduo e o grupo, de quando e onde se deve ceder em prol do coletivo.

O que Shakespeare ensina ao grupo até hoje?

Nossa, que pergunta difícil! E muito fácil, ao mesmo tempo. O Shakespeare, como diz o Harold Bloom, inventou o humano. Ele apontou teorias e conceitos fundamentais para a humanidade que seriam desenvolvidas pela ciência, pela filosofia, pelos pensadores, nos séculos seguintes. Então o aprendizado com Shakespeare é contínuo, diário e infindável. Quanto mais camadas dessa cebola descascamos, mais encontramos. Ele toca a essência do humano como nenhum outro.

Espetáculo Nostra Senhora de Las Nuves (foto: Rayane Calistrato)

Como tem sido a experiência de criar o próprio festival? O que levou o grupo a partir pra essa empreitada? Falta de investimento público no teatro, vontade de fazer intercâmbio com outros grupos?

O festival O Mundo Inteiro é um Palco surgiu como um evento isolado, para comemorar os 20 anos do grupo. Com um ínfimo investimento do próprio bolso, trouxemos pra Natal uma programação com nomes como o Grupo Galpão (MG), Magiluth (PE), Bagaceira (CE), Alfenim (PB), etc, graças à generosidade desses parceiros que toparam essa “furada” pra vir comemorar esse aniversário conosco. A experiência foi tão potente que, aliada à ausência de um festival dessas características na cidade, tivemos uma pressão muito forte externa e, principalmente, interna, pra que isso continuasse. Com uma estrutura muito variável (alguns anos com editais, outro com financiamento coletivo, etc.), conseguimos tocar o festival a duras penas, sempre contando com o suporte de muitos parceiros locais (hotéis, restaurantes e outras empresas, que fidelizaram uma relação conosco) e dos grupos que conseguiam chegar a Natal graças a seus projetos de circulação, que já previam a participação no festival. Assim, além dos que já citei, conseguimos trazer pra cidade nomes como Ói Nóis Aqui Traveiz (RS), LUME (SP), Júlio Adrião (RJ), Caixa de Elefante (RS), Malayerba (Equador), dentre tantos outros.

Após 5 anos de festival, 2018 não haverá O Mundo Inteiro É Um Palco. O que houve ? 

Apesar desses cinco belos anos do festival, esse ano não conseguimos realizá-lo, tanto é que estamos trazendo o Boi, que sempre abriu o festival, para abrir no sábado (17) a programação de aniversário que estamos conseguindo realizar. Sempre entendemos que, após algumas edições, o festival iria conseguir caminhar com uma estrutura minimamente estável, começar a andar com as próprias pernas. Mas nos vimos, após cinco edições, em condições mais precárias do que nas anteriores. Tenho certeza que, tivéssemos nós nos empenhado em realizá-lo, conseguiríamos, mas entendemos que seria um preço muito alto que entendemos que não estávamos dispostos a encarar. Em setembro convocamos uma primeira reunião sobre a situação do festival. Discutimos a real necessidade da cidade em ter um festival assim, possibilidades de realização, etc. Vamos seguir com essas conversas para pensar na continuidade ou não. É muito triste, mas entendemos que é o mais justo a ser feito nesse momento.

Até ano passado vocês falavam das dificuldades de manter o barracão com recursos próprios. Como está a situação hoje?

Da mesma maneira. O Barracão está em um espaço alugado, e temos um custo considerável de manutenção, algo na ordem de R$ 7 mil mensais. Há mais de um ano estamos mantendo o Barracão no limite, criando oficinas, revertendo cachês de apresentações e outros projetos para pagar esses custos, e assim temos planejado mês a mês. Seguimos na iminência de ter que devolver o espaço, mas ainda estamos conseguindo. É uma conta que não fecha.

A maioria dos espaços de teatro abertos hoje em Natal são privados: Barracão, Casa da Ribeira, Gira Dança, Tecesol (é público, mas tocado por artistas), e teatro Riachuelo (com viés comercial). Os artistas e a iniciativa privada cansaram de esperar o poder público? Qual deveria ser o papel da prefeitura e do Governo do Estado nesse sentido?

É muito triste a situação dos nossos teatros, em especial do Alberto Maranhão, que sempre foi um espaço muito ativo e importante da cidade. Não há dúvidas que precisamos de equipamentos públicos para o teatro. Estive na Funcarte até pouco tempo atrás, e estive muito próximo de todo o processo do Sandoval Wanderley. Apesar de termos tentado ao longo desses seis anos reabrí-lo, nunca compartilhei desse romantismo que cerca o teatro. Sempre achei um equipamento inadequado, por inúmeras razões. Nós mesmos, dos Clowns, tenho a impressão que nunca nos apresentamos lá, nunca nos interessou. Mas isso não significa que o poder público municipal não deva ter um espaço teatral aberto, adequado, atuante. Tendo passado os últimos seis anos também “do lado de lá”, tenho clareza hoje que isso precisa acontecer de forma conjunta entre o setor e o poder público, independente de qual lado se esteja. É preciso pressionar, cobrar, mas de uma forma efetiva, propositiva, se levar projetos, documentos, propostas e, principalmente, que represente uma parcela significativa do setor. Ficar achincalhando em redes sociais é completamente inócuo, além de estúpido. Paralelo a isso, acredito também que o poder público tenha a obrigação de dar suporte aos espaços independentes, assim como à manutenção dos próprios coletivos teatrais. O papel que esses espaços que você citou na cena teatral da cidade hoje é de total protagonismo. Espaços como o Barracão, Tecesol, Casa da Ribeira, A3, Gira, e até algum tempo atrás, Aboca, têm realizado nessa última década o que há de mais relevante do teatro natalense.

Espetáculo Sua Incelença, Ricardo III levou o Clowns até o Complexo do Alemão, no RJ (foto: Rayane Calistrato)

Os espetáculos do Clowns trazem um viés social e político também. Diante do cenário que se avizinha, com o governo Bolsonaro, o que esperar do teatro e do Clowns nos próximos anos?

Espero o pior, e ao mesmo tempo não sei ainda exatamente o que esperar. Estou em diálogo com um grupo de artistas que está à frente do pensamento teatral em todo o país desde a semana pós-eleição, e a perplexidade e a dúvida é a tônica por todo lado. Não sabemos a dimensão da catástrofe que se anuncia, do corte total do financiamento para a cultura como entendemos – o que é certo que aconteça – à necessidade de fugir do país, qualquer coisa é possível. No âmbito dos Clowns, temos três projetos para realizar em 2019, o que nos dá um mínimo respiro pra tentar entender a narrativa que está sendo construída e tentar desenhar uma resposta. De certo, apenas a urgência em resistir, em se posicionar cada vez mais ativamente, em atacar com as armas do afeto, da tolerância, do cuidado, porque precisaremos muito disso. Tentar refletir isso na nossa poesia. Usar a potência do teatro para tocar as pessoas, para abrir espaços de reflexão, de diálogo, de afeto.

Como está a programação que celebra os 25 anos do Clowns ?

Pois é, como é praxe entre os grupos, parece que fazemos mais quando temos menos. Em meio a tantas dificuldades, recorremos ao de sempre: amigos, parceiros, e uma boa dose de sorte, para juntar uma programação que começa hoje, 17 de novembro, o dia do aniversário do grupo, e se estende até o dia 15 de dezembro. Começamos sábado pelas ruas de Nova Descoberta com o Boi Galado, em parceria com o grande artista Helder Vasconcelos e Laura Tamiana, de Pernambuco. Domingo o grupo Boca de Cena, de Sergipe, que está no Rio Grande do Norte pelo projeto Palco Giratório, do SESC Nacional, apresenta “Os Cavaleiros da Triste Figura”, um trabalho sergipano, mas com forte sotaque potiguar, porque tem a minha direção, texto de César Ferrario, direção de ator de Paula Queiroz e figurino e cenário de João Marcelino. Nas próximas duas semanas estreamos as duas partes do nosso próximo trabalho, Tubo de Ensaio, que é o primeiro resultado da pesquisa atual do grupo, dos 25 anos. Depois receberemos um contador de histórias do Burkina Faso, ministraremos oficinas para crianças e adultos, e fechamos a programação com os parceiros potiguares do Facetas, Mutretas e Outras Histórias, com seus últimos dois espetáculos. Acredito que será um bonito mês de comemoração.

Confira a programação de aniversário:

Palco Giratório

  • Oficina “Iniciação ao teatro de rua”: 16 e 17/11, das 08h às 12h (grátis)
  • Espetáculo “Os cavaleiros da triste figura”, do grupo Boca de Cena (SE) e direção de Fernando Yamamoto: 18/11, 18h (grátis)
  • Parceria Sesc Natal

Estreia Clowns de Shakespeare

Novo trabalho do Clowns de Shakespeare

  • “Tubo de Ensaio A: saturação”: 23, 24 e 25/11, sexta e sábado 20h, domingo 19h, R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia)
  • “Tubo de Ensaio B: essência”: 01 e 02/12, sábado 20h, domingo com duas sessões 18h e 20h, R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia)
  • Edital Economia Criativa/SEBRAE RN

Atração Internacional

Residência do Griô François Möise Bamba, de Burkina Faso

  • Espetáculo “Contos Tradicionais de Burkina Faso”: 08/12, 20h, R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia)
  • Oficina “A oralidade como base para a educação”: 08 e 09/12, das 09h às 13h, R$ 100

Grupo Convidado

Espetáculos do grupo Facetas, Mutretas e Outras Histórias (RN)

  • “Sal, menino mar”: 15/12, 16h, R$30,00 (inteira) e R$15,00 (meia).
  • “A jornada de um imbecil até o entendimento”: 15/12, 20h, R$30,00 (inteira) e R$15,00 (meia)

Oficinas para crianças

  • Faz de Conta – para crianças de 07 a 11 anos: de 10 a 14/12, de 09h às 12h, R$ 250
  • Iniciação Teatral – para jovens e adultos a partir de 16 anos: de 10 a 14/12, das 18h30 às 21h, R$ 150
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Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

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