OPINIÃO

As coisas que aprendi com a bola

O futebol é o esporte mais popular do mundo. Um entretenimento mundial que conquistou os mais diferentes países, sendo capaz de fazer com que a instituição que detém a propriedade sobre o jogo, a FIFA, tenha mais membros que a ONU. Do extremo oriente aos países nórdicos, da África aos Estados Unidos, passando por lugares como a Patagônia e a Europa Central, a bola domina interesses, monopoliza discussões, inspira os mais variados conteúdos e impulsiona mercados que consomem produtos, campeonatos, serviços e notícias acerca da mais brilhante invenção inglesa rivalizando com a revolução industrial, os livros de Douglas Adams, o Monty Python e o Punk Rock.

Acompanhar o centenário esporte bretão é mais do que se entregar a um hobby e está muito distante do que tentam fazer crer algumas pessoas de que o esporte se limita a uma mera atração vazia, alienante, equiparando-se à política de “pão e circo” da Roma antiga. Em tempos de Copa do Mundo, quando os olhares do planeta inteiro se voltam ainda mais para assistir à competição entre os melhores atletas desta modalidade, logo surgem opiniões preconceituosas e postagens oportunistas a tentar diminuir o esporte e acusar de inferiores todos aqueles que dispensam tempo a acompanhar as partidas. Mensagens que abordam temas econômicos e sociais como PIB ou IDH, culturais como Prêmios Nobel ou simplesmente dizendo que a energia e atenção investida na competição poderiam estar sendo canalizadas para “coisas mais úteis” pipocam em profusão, como costuma ocorrer em tempos tão intolerantes.

O que estas pessoas de olhar estreito a e opinião inflexível ignoram é que o futebol carrega consigo toda uma bagagem cultural, política, ideológica e econômica que ajuda a contar a história dos países e a formação das sociedades modernas, além de nos oferecer atalhos para compreendermos melhor o mundo em que vivemos e dinâmica dos povos e nações no último século. Assistir partidas de futebol ensinam tanto quanto algumas boas aulas; ler a respeito de clubes tradicionais e jogadores icônicos ajudam a aprender mais sobre História; procurar saber sobre a cidade natal e regiões das equipes nos levam a conhecer Geografia; acompanhar o mercado de transferências e contratações internas e internacionais auxiliam na compreensão do complexo mundo que envolve mercados, economia e globalização. Quem diz que o futebol é um instrumento de alienação interpreta um papel dos mais contraditórios, uma vez que está manifestando uma opinião totalmente descolada da realidade, revelando-se ignorante e preconceituoso com relação a um campo fértil não só de jogadas, mas de aprendizado, e nas mais diversas áreas.

Quando eu era jovem, tive um período de estudos na Espanha. Na sala, composta por alunos de diversos países, a professora dando aula sobre cidades espanholas ficou impressionada com o conhecimento demonstrado por diversos estudantes acerca do assunto. Como um brasileiro, um polonês, um russo e um suíço sabiam tantos nomes de municípios do país. Foi quando um colega abriu o jogo: “conheço o nome de qualquer cidade que já tenha tido um time na primeira divisão”. Estava explicado como sabíamos da existência de Valladolid, Numância, Extremadura e Málaga.

Na Copa atual, vários episódios são elucidativos com relação a questões geopolíticas maiores, provando que a expressão popular “o mundo é uma bola” tem total razão de ser. O jogo entre Sérvia e Suíça, por exemplo: o time suíço venceu com dois gols de jogadores naturalizados nascidos no Kosovo. Eu não sabia, mas grande parte dos habitantes do Kosovo é de origem albanesa. A região do Kosovo era um território pertencente à própria Sérvia quando iniciou um movimento independentista e o então governante sérvio Slobodan Milosevic empreendeu um massacre contra seus habitantes para colocar um fim à rebeldia que se insurgia ante o jugo Sérvio, promovendo também uma impiedosa perseguição étnica na região. Os jogadores suíços marcaram os gols e fizeram gestos alusivos à águia albanesa que estampa o pavilhão da pequena nação europeia. O curioso é que muitas pessoas hoje defendem a falaciosa tese de que “futebol e política não se misturam”. Pois, eu digo que não só futebol se mistura com a política o tempo todo como também a política recorre ao esporte mais popular do planeta para exercer comando ou obter mais poder.

Voltemos ao já citado Slobodan Milosevic. Quando ele quis abafar a insurreição kosovar, pensou numa estratégia “extra-oficial” sem usar as forças armadas do país de forma a maquiar os crimes contra a humanidade que estava prestes a cometer. Mas onde conseguir uma milícia violenta composta por mercenários dispostos às mais condenáveis ações de ódio contra os indisciplinados dos Bálcãs? Se você pensou no futebol, acertou. O livro “Como o futebol explica o mundo” do jornalista americano Franklin Foer narra, entre muitas outras histórias, como o mandatário Sérvio recorreu aos ultranacionalistas torcedores do Estrela Vermelha de Belgrado, financiando incursões para que estes “torcedores” aterrorizassem a população do Kosovo. Muito sangue, assassinatos, estupros, fuga em massa, refugiados buscando abrigo em outros países (como na Suíça, por exemplo) e uma posterior independência que não é reconhecida por muitos países ainda, tivemos o jogo da Copa de 2018 e os gols da desforra marcados por Xakka e Shaquiri.

O episódio em torno do gol me relembrou que o futebol, para aficionados como eu, é muito mais que um jogo. Trata-se, na verdade, de uma oportunidade de aprendizado permanente, sobre história, sociologia, condição humana. Conhecer a trajetória deste esporte bretão que conquistou o globo é poder saber mais sobre muitos dos aspectos que envolvem os povos que o tornaram tão popular e os lugares onde ele segue sendo disseminado.

Ver documentários sobre o esporte, bem como ler livros a seu respeito são excelentes para saber mais sobre o planeta. É como se lêssemos o best-seller mundial “Sapiens”, mas com uma bola envolvida.

 

Obras sobre futebol que recomendo:

“A Dança dos deuses” – Hilário Franco Júnior

“Como o futebol explica o mundo” – Franklin Foer

“Febre de bola” – Alex Garland

“Jogo sujo” – Andrew Jennings

Artigo anteriorPróximo artigo
Avatar
Carlos Fialho é escritor, publicitário, jornalista e escreve às segundas-feiras

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *