OPINIÃO

As desigualdades de Natal precisam entrar na pauta das eleições municipais

Ontem foram realizadas as últimas conferências (ou convenções) partidárias para definir-se o quadro eleitoral que teremos para as eleições municipais desse ano, atípicas devido à pandemia. Natal, que já conta com inéditos 13 candidatos a prefeito(a), chama a atenção nesse quadro pois, com seus 890 mil habitantes, representa 25,4% de toda a população do RN, ou sendo mais claro, de cada 100 potiguares, 25 moram em Natal. Um olhar atento perceberá que 890 mil pessoas se espremem em 170 Km², ou seja, 5.200 pessoas por Km², enquanto 2,6 milhões de pessoas se espalham pelos demais 52.642 Km², o que dá, em termos de densidade demográfica, 49,9 habitantes por Km². Só esse dado já dá para mostrar o tamanho do problema que temos a enfrentar.

O que esses candidatos apresentarão aos natalenses? Para começar deveriam compreender o que é Natal, com suas desigualdades, que foram acirradas pela pandemia com toda a certeza. De acordo com dados retirados da proposta de revisão do Plano Diretor de Natal, feito pela Prefeitura, o mapa da desigualdade em Natal começa pelas disparidades de renda média, que se verificam entre as zonas urbanas e dentro dessas zonas.

O fato é que em Natal há riqueza na Zona Sul e pobreza na Zona Norte. Mas não se pense que essa riqueza social, vista na Zona Sul é grande, pois a renda média mensal dessa Zona é de 3,45 salários mínimos, aproximadamente R$ 3.600, só que a desigualdade se expressa quando se olham os bairros dessa Zona, com Capim Macio chegando a média mensal de 4,71 salários mínimos e Nova Descoberta 2,07.

O raciocínio acima serve para a Zona Leste, cuja renda média mensal é de 2,86 salários mínimos (R$ 2.990), mas cujas desigualdades se expressam claramente na paisagem urbana e social, pois o tradicional (termo cunhado pelas elites) bairro de Petrópolis, apresenta uma renda média mensal de 6,74 salários mínimos (R$ 7.043) enquanto Mãe Luiza apresenta uma renda média mensal de 0,87 salário mínimos (R$ 910).

Na Zona Oeste, a renda média mensal é de 0,99 salário mínimo (R$ 1.035), sendo que essa renda oscila entre os 1,67 salário mínimo (R$ 1.745) da Cidade da Esperança, e os 0,53 (R$ 554) do Guarapes. Já na Zona Norte, a mais populosa (361 mil habitantes), a renda média mensal é de 0,92 salários mínimos (R$ 961,4), sendo que a distribuição dessa baixa renda vai desde os 1,23 (R$ 1.285) salários mínimos do bairro Potengi, até os 0,86 salários mínimos (R$ 899) do bairro de Nossa Senhora da Apresentação.

Natal é sim uma cidade pobre, dado que sua renda média mensal é de apenas 1,78 salários mínimos, cerca de R$ 1.860, com pequenos bolsões de “riqueza social”, de onde geralmente emergem as “grandes lideranças” que historicamente arrastam as pequenas lideranças comunitárias, marcadas pelo pragmatismo da sobrevivência de si próprio, mas mesmo assim portador das demandas das comunidades, formando um sistema sólido de manutenção de uma cidade que tem, ao longo do tempo, mantido o abismo entre classe média e pobreza, já que as elites são um caso à parte.

Grande parte dessas candidaturas, já conhecidas, circulam na sala das elites locais e não apresentarão nada além de conhecidos chavões e nenhuma pretensão em tornar a cidade mais humana e não apenas um local em que os pobres estão condenados a apertar-se num péssimo sistema de transporte; viver precariamente devido à baixa remuneração (quando as tem); e sem acesso à cultura e lazer.

Natal merece ser mais humana.

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