DEMOCRACIA

As digitais de Flávio Azevedo no editorial da Tribuna do Norte

O septuagenário jornal Tribuna do Norte avisa em tom de ameaça, em editorial publicado nesta quarta-feira (23), que a história condenará os culpados. Antes a culpa fosse pelas vítimas fatais da Covid-19.

O texto trata da morte das empresas do Rio Grande do Norte e joga toda a responsabilidade nas costas do Governo do Estado que, na visão do editorialista, sucumbiu à pressão de uma minoria de promotores, autores da recomendação acatada pelo Executivo impedindo a reabertura do comércio local, prevista para hoje, antes da redução na taxa de ocupação dos leitos de UTI no sistema público de saúde.

O editorial, por óbvio, tem as digitais do proprietário da empresa que, desde o ano passado, está sob o comando do empresário e ex-presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte Flávio Azevedo.

Já há alguns anos, Azevedo só tem olhos para a principal cadeira da Confederação Nacional das Indústrias. E é para isso que tem usado a política (foi candidato a suplente ao Senado de Wilma de Faria em 2014) e a imprensa.

Na primeira tentativa, embarcou no projeto do já extinto Porta NoAr e, agora, tenta catapultar seu sonho usando a estrutura do principal veículo da imprensa tradicional do Estado. Não é de bom grado a guinada bolsonarista da empresa. Tem um preço, assim como a opinião do dono.

Flávio Azevedo foi secretário de Estado de Desenvolvimento Econômico no governo Robinson Faria, que não precisou de uma pandemia para sucumbir. Só pela pasta da saúde, entre 2015 e 2018, passaram cinco secretários: Ricardo Lagreca, Eulália Albuquerque, George Antunes, Pedro Cavalcanti e Sidney Domingos Ferreira, efetivado no apagar das luzes. Não há gestão numa área tão cara e estratégica que dê bons resultados e ofereça serviços razoáveis com tantos comandos diferentes. Foi esse caos gerencial e administrativo que o governo atual herdou.

Mas o editorial com as digitais de Flávio Azevedo não fecha os olhos apenas para a péssima gestão do governo anterior. Ele também poupa dois aliados: o presidente da República Jair Bolsonaro (sem partido), que com mais de 52 mil mortos no país segue menosprezando a maior crise sanitária do século, e o prefeito Álvaro Dias (PSDB), responsável pelo caos na saúde em Natal e após uma enquadrada do próprio secretário de saúde em entrevista na emissora de maior audiência no Estado, vem boicotando todas as medidas de combate a Covid-19 anunciadas pelo Governo. Todas.

Em qualquer país do mundo seria inconcebível crer que diante de uma proposta de pacto pela vida a principal cidade da região iria ignorá-lo por birra política. Mas foi o que aconteceu, por obra e graça de Álvaro Dias, o médico que, durante uma pandemia, só tem cabeça para a reeleição.

Aliás, quando o prefeito tentou contratar para o hospital de Campanha uma empresa ligada à própria família, o jornal de Azevedo não apontou suspeitos nem anunciou que a história condenaria os culpados.

No plano federal, o ministério da Saúde, que já trocou duas vezes de comando durante a pandemia, demorou quase três meses para enviar os respiradores solicitados pelo RN. Sem comando nacional, Estados e municípios precisaram se organizar entre si para buscar o mínimo de unidade entre ataques do presidente contra governadores.

Essa política acéfala levou o Brasil ao 2º lugar em número de mortes e de infectados. Números superiores a soma de todos os países juntos da América do Sul.

Agora, legislando em causa própria, o jornal de Flávio Azevedo ignora que o Rio Grande do Norte atravessa o pico da pandemia e que todos os estados que decidiram flexibilizar as medidas de restrição social e reiniciaram a reabertura do comércio tiveram aumento dos índices de óbitos e de novos doentes.

O empresário Flávio Azevedo ignora o básico da economia, que para consumir o cidadão precisa necessariamente estar vivo. Falando a língua de Azevedo, até ontem, segundo dados oficiais da secretaria de Estado de Saúde Pública, 750 consumidores desapareceram do Rio Grande do Norte. Essas pessoas, Azevedo, não vão comprar nunca mais nenhum produto em loja alguma no Estado.

Ninguém ignora 10 mil empregos perdidos nem a perda de R$ 200 milhões em faturamento, dados divulgados pelas entidades do setor. Nem esquece que, com menos de 30 dias da pandemia, a Tribuna do Norte jogou no meio da rua 22 profissionais, alguns com mais de 30 anos de casa. É preciso cobrar políticas do Governo Federal que socorram financeiramente sobretudo as pequenas e médias empresas, mas lembrar que há empresários se aproveitando da situação para enxugar custos e apelando para o Estado.

A retomada da economia, a partir de protocolos definidos e elaborados em conjunto pelo Governo com entidades empresariais, está condicionada à redução das taxas de transmissibilidade do vírus e da ocupação de leitos de UTI, seguindo as decisões técnicas, amparadas na ciência, que subsidiam os decretos do Governo.

A dona Maria não aguenta mais ouvir falar em pandemia, o seo João não aguenta mais obedecer restrições. Mas é um insulto à memória das vítimas da Covid-19 ler um jornal com a história da Tribunal do Norte lamentar a morte de CNPJ’s para satisfazer um segmento que decidiu fazer política no momento mais grave dos últimos 100 anos no país.

Mas a história encontrará os culpados. E os condenará !

Artigo anteriorPróximo artigo
Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

1 Comment

  1. Bela matéria, jornalismo sério e contundente, quanto ao prefeito apenas lembro que, “tecnicamente “ele não tenta uma reeleição visto que herdou o pífio mandato, já no que se refere a esse sr. flavio azevedo sua “competência” já foi vista quando foi auxiliar de robinson e, seus pesos e medidas diferentes ficaram claros no citado episódio do hospital de campanha assim ele só merece o jargão…Cala a Boca flavio!

    Ps*os nomes iniciados em letras minúsculas é proposital e proporcional a importância cidadã dos próprios.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *