OPINIÃO

“As histórias que eu não contaria a meus netos” – parte 1

Antônio Belo, cabeleireiro. Não, cabeleireiro não, ele era barbeiro, barbeiro à moda antiga, e sempre que eu ia ao seu salão, quando atendia na Rua Apodi, Centro, normalmente aos sábados, ele começava a falar de futebol, torcedor apaixonado do ABC. Me apresentava aos clientes que não me conheciam pessoalmente e acrescentavam, afirmando, que eu tinha duas personalidades, o Edmo fora de campo, que ele achava educado, tranquilo, simpático e o outro Edmo, esse dentro de campo, irritadiço, reclamão, exageradamente brigão e muito raçudo, capaz de encarar e brigar com qualquer adversário, seja de que tamanho fosse, tudo pela vitória do seu Alecrim.

Me comparava ao lendário atacante do Botafogo, Heleno de Freitas. Dizia isso e dava uma risada gostosa afirmando ser um elogio e sempre repetindo que queria me ver vestindo a camisa alvinegra. Tenho que reconhecer que ele tinha razão. Se eu jogasse hoje, com tanta frescurite, punição, os caras filmando e gravando tudo que você diz e faz em campo, certamente, não duraria uma semana como profissional. Não sabia fingir, sempre fui transparente demais, nervoso demais.

Gente, nos meus mais de 20 anos de futebol, contando o tempo de escolinha, juvenil e profissional, passagem rápida no futsal, foram tantos os casos de confusão, dentro e fora de campo que, certamente, não tenho esses dados, mas acredito ter sido o jogador mais vezes expulso da história do futebol do Rio Grande do Norte. Péssimo isso, reconheço. E já são passados mais de 30 anos desde que encerrei minha carreira, por isso resolvi iniciar aqui no portal da agência Saiba Mais a série “Histórias que eu não contaria ao meus netos”. Espero que vocês tenham paciência e não fiquem com tanta raiva de mim.

Por conta desse meu jeito em campo, não foram poucas as pessoas que me escrachavam mesmo sem me conhecer. Tinha um radialista famoso, não vou citar seu nome,  já falecido desde os anos 80, acho, que sempre que eu passava na porta da sua casa, na Rua Santo Antônio, pertinho da igreja do Galo, olhava com uma cara de bode quando come urtiga e virava, rapidamente, o rosto para o outro lado, quando o normal, por ser ele narrador e eu jogador de futebol, pelo menos me cumprimentasse. O ranzinza falava mal de mim para quase todo mundo. Tinha ódio de mim, soube depois, era somente por conta do meu comportamento em campo, eu reclamava demais. Verdade, mas era motivo para tanto?.

Mas vamos às histórias. Já contei em outros textos que escrevi sobre minha passagem pelo América. Do sonho realizado de, todas às quartas e domingos, eu e minha turma da Cidade Alta, rapaziada de classe média baixa (éramos lisos mesmo, uns mais, outros menos), fazer parte da equipe de futsal do América, do chique América, aquele clube que, nas festas de carnaval e formatura, todos, quase, ficavam brigando para arranjar um convite e um paletó. Eu me dava por muito satisfeito por fazer parte da escolinha do cara que era considerado o maior treinador de futsal da história do Rio Grande do Norte, mestre Olinto Galvão, já falecido. Pois é, gente, foi com ele, briguei com Olinto Galvão.

Eu tinha 14 anos. E foi assim: “Seu” Antônio Belo já falou lá em cima o quanto eu era reclamão, pois bem. Na quadra do América não poupava ninguém. Errou um passe, perdeu uma bola, falhou num gol, vacilou, eu ficava puto da vida, não gostava de perder nem jogo da moeda e do preguinho e por isso sobrava para quem estava  do meu lado. Lá no futsal, os colegas mais antigos falavam que Olinto protegia os “filhinhos de papai” que treinavam, mas não tinha nada disso, era coisa da cabeça da meninada pobre, coitados, com inveja dos tênis, calções e camisas e bolsas, enfim, do material de primeira que eles usavam. Vai ver encasquetei essa reclamada discriminação que, repito, não existia mesmo.  A maioria dos meninos ricos, porém, verdade seja dita,  não jogava nada mesmo, e os coitados eram meus alvos preferidos.

Eu era um velho conhecido das peladas do campo onde o Força e Luz tinha sua sede. Batíamos peladas nos campos que serviam também de preparação para os profissionais. Os caras mais velhos, que jogavam depois da gente, quando o sol esfriava, já sabiam. Dois deles, Pedrinho (apelidado de Pedro Galinha Branca; tinha outro Pedro, chamada de Galinha Preta)  e Cabila, irmão falecido do mestre Jucivaldo Félix, faziam questão de assistir e torcer contra, claro, para me ver reclamar. Depois, quando eu perdia nas peladas, e sempre dava meu “show” de revolta, faziam todos rir  imitando, repetindo os palavrões, meu jeito de andar, de falar, de colocar a mão no cabelo, enfim, copiavam meus desabafos, quase choro, tirando sarro com minha cara.

Voltando ao América:  numa quarta-feira, Olinto chegou atrasado, disseram que ele tinha tomado uns uísques, não sei. A quadra estava meio molhada, tinha chovido, nem ia ter treino, mas insistimos, pedimos, fizemos o mutirão, aliás, repetimos o mutirão de enxugamento e ficamos na torcida para o tempo estiar. Olinto concordou e a bola começou a rolar. E eu já comecei a pegar no pé de um dos meninos fraquinhos do meu time. Uma, duas, três vezes, nessa terceira eu quase partia para cima do coitado, pois ele “tinha” dado um gol ao time rival. Olinto, que já tinha chamado minha atenção umas três vezes,  deu um grito alto mandando parar a bola. Todos ficaram estáticos, assustados, ele veio na minha direção, furioso, gritando,  super irritado: “Sai, sai PPO, sai do treino e tá suspenso, até eu mandar você voltar a treinar!” Eu, cabeça fervendo por conta da derrota e da vergonha, mandei o mestre Olinto “praquele canto” e repeti outros tantos palavrões…fui dizendo e saindo; de repente, acho que na minha visão periférica senti aquela presença perto de mim, olhei de lado e notei que Olinto vinha furioso na minha direção, quase correndo, na certa ia me dar uma lição. Não sei como fiz, saltei para fora do seu alcance numa ligeireza de um gato, disparei numa carreira tão grande, mas tão grande, que só parei já chegando na Princesa Isabel. Imaginem aí, do América, lá da Rodrigues Alves, correndo sem parar, morto de medo, achando que o treinador ainda estava bem atrás de mim.

O pior de tudo é que, mais tarde, quando a turma estava reunida na esquina do encontro de todas as noites, fiquei sabendo o pior: quando correu na minha direção para me expulsar ou agredir, sei lá, Olinto escorregou numa parte da quadra que não estava bem enxuta e caiu feiamente batendo com a cabeça no chão. Coitado! Depois, sem jeito, se levantou e encerrou o treino.

Triste né, essa história. Mas o final dela é feliz. O tempo foi passando. Claro que não voltei mais a jogar com Olinto Galvão. Antes mesmo de fazer parte da equipe adulta, quando o querido Artur Ferreira já era o novo comandante, tive um encontro com Olinto, na Praia dos Artistas. Eu ia passando, já jogava no Alecrim, ele mandou um garçom da barraca me chamar, começamos a conversar como se nada tivesse acontecido. Me fez muitos elogios, elogios que eu já havia ficado sabendo por intermédio de outras pessoas. Enfim, essa é, sem dúvida, a briga que eu mais lamento ter tido na minha vida de atleta. E devo dizer que sofri, por muitos anos, ao ver todos da turma, às quartas e domingos, continuar os treinos, fazendo jogos no interior, campeonatos e tudo mais, coisas que sempre sonhei, vestindo a camisa do América. Infelizmente nunca tive a coragem e nem humildade para ir até o velho mestre e pedir desculpas.

No próximo episódio (é muita pretensão) conto a minha briga com um treinador boçal, isso nos meus tempos de Atheneu, e as rusgas quando já fazia parte de uma equipe federada de nosso Estado, o Centro Esportivo Força e Luz, de Ranilson Cristino.

 

 

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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