OPINIÃO

As histórias que não contaria aos meus netos – parte VI

Não tem efeito nenhum, me parece, o continuado e crescente número de casos de Covid-19 e de óbitos para os membros do Governo Federal e para o mundo do futebol, com algumas raras exceções. Luxemburgo, por exemplo, mesmo acometido da doença, lamenta a “vantagem” do Flamengo caso o Brasileiro comece mesmo na primeira quinzena de agosto. Aqui, Roberto Fernandes, escrevi sobre no portal nominuto.com, em entrevista coletiva direto da segurança de Camaragibe, CT retrô, onde o rubro treina, chegou ao absurdo de defender jogos com público e liberação de treinos para o futebol, como se todos os clubes tivessem a mesma condição estrutural para tratar a pandemia. Sandices de quem, certamente, é fã de Bolsonaro e Cia.

Por aqui, meu compromisso de domingo com o saibamais.com.br contando as histórias, minhas, que não deveria contar aos meus netos. Dessa vez, falo sobre um treineiro, desses caras que conversam muito e acabam convencendo pessoas de que realmente pode exercer essa profissão. Isso aconteceu no ano de 1982, um ano que considero de ouro para mim, talvez  o meu melhor, profissionalmente, mesmo não tendo conseguido nenhum título. Uma temporada que começou mal com um empréstimo para o Botafogo, de onde voltei por faltar comida na sede (já contei recentemente essa história aqui).

O Alecrim participou, meados do ano, segundo semestre, de um campeonato brasileiro do módulo amarelo, seria assim como uma Série B de hoje. Devo dizer, sem falsa modéstia, que tive grandes atuações, numa delas em Recife. Mesmo o Alecrim tendo perdido de goleada, 4 a 1, nosso goleiro estava numa tarde-noite infeliz, fui escolhido o melhor da partida e o vestiário do time verde foi invadido por um batalhão de repórteres, e todos para fazer entrevista comigo. Os torcedores do Santa Cruz me esperavam ao lado do ônibus do Alecrim – Periquitão – me parabenizando e, como todo torcedor, querendo que eu viesse, fosse, para o Santa Cruz. Essa sorte eu não tive.

Bom, final do Módulo Amarelo, nosso treinador, queridíssimo e saudoso Ivo Egon Hoffman adoeceu seriamente e não poderia continuar comandando a equipe, pelo menos por enquanto, passaria por um tratamento. Um novo comando teria o Alecrim a partir de então. O escolhido foi Hélio Lopes (acho que posso falar o nome dele, pois não existe mágoa, são coisas que acontecem), treinador que tinha passado por equipes menores, inclusive fazendo um bom trabalho no Riachuelo. Hélio, nos tempos de jogador profissional, era lateral esquerdo, tinha no currículo uma passagem pelo Santos de Pelé. Isso mesmo, jogou ao lado do Rei.

Pois bem, numa segunda-feira, programa de sucesso na rádio Trairi de Natal, comando de Assis de Paula, Hélio Lopes era o convidado, um dos, a falar de futebol. Durante a entrevista, minha opinião que não mudou, ele cometeu um dos pecados que um treinador não pode cometer. No ar, sabendo-se ouvido por todos, quando perguntado sobre reforços que ia pedir, o que pensava fazer no trabalho que iniciava no novo clube, afirmou textualmente, inclusive para surpresa do saudoso apresentador Assis de Paula que, posso dizer, era quase fã de meu futebol: “precisaremos de reforços, principalmente no meio-campo, pois veja bem, o nosso meia, o Edmo, não tem biotipo para jogar na posição”. No que Assis ainda ponderou dizendo que eu havia sido o maior destaque do Alecrim na competição se encerrava. Ele meio que tartamudeou, parece que viu a besteira que tinha dito, mas já era tarde.

Tudo isso, a entrevista, eu fiquei sabendo depois, na terça-feira à tarde, quando cheguei na sede da Alexandrino de Alencar, pois não acompanhava os programas de rádio ou notícias de jornais, nunca tive essa preocupação. O massagista Lima veio me contar o que o novo treineiro declarara na entrevista. Fiquei sem acreditar, pasmo, nervoso, furioso, devo dizer. Um outro jogador, não lembro quem, confirmou o disparate do Hélio Lopes no programa. Fumaçando, cego de indignação, imagine, era essa a recompensa que receberia pelas minhas boas atuações. Depois me falaram que Lopes queria trazer alguns valores do RAC, entre eles um meia, Roberto Araújo, bom jogador, para ser o titular da equipe. Fui lá pra fora e não quis mais conversar com ninguém. Em frente à sede, no canteiro, algumas árvores, me escorei numa delas e fiquei esperando a sua chegada.

Os colegas se aproximavam reticentes, me cumprimentavam, eu respondia monossilabicamente. Quem perguntava eu respondia que estava esperando o técnico para uma conversa, e como a maioria já sabia da entrevista foi sendo criado um clima de tensão, de espera, naquela época, vejam só, o Alecrim tinha um gerente de futebol que certamente estava ciente do assunto, bem que poderia ter se antecipado, conversado comigo, me aconselhado, talvez tivesse evitado o caso. Bom, lá pras tantas, chega Hélio Lopes, com o seu jeito bonachão, cercado de alguns amigos. Fiz sinal, ele olhou na minha direção e, falando alto, disse que queria falar com ele.  Atravessou a rua e veio ao meu encontro, na árvore onde eu estava. Quando ele chegou perto eu fui logo despejando: “que treinador é você que chega numa equipe e na primeira entrevista que concede já vai desqualificando um jogador do seu time…”, eu ia falar muito mais, mas ele levantou a mão, me mandou parar e disse com sua voz empostada: “não devo satisfação a jogador…”

Se já estava completamente descontrolado, tomado pela revolta, raiva incontida, o desprezo com que ele falou me fez explodir: “Não tem que dar satisfação o quê, seu treinador…” e proferi alguns impropérios ao mesmo tempo que o empurrava com as mãos em seus peitos. E quando ele veio de novo na minha direção, me apoiei no galho da árvore e iria, certamente, acertar o rosto do camarada com meu pé direito já direcionado…neste exato momento senti alguém me agarrar pelas costas e me suspender no ar, sorte de todos que eu era muito magrinho, pesava somente 59 quilos. Esse “anjo” salvador foi o médico Roberto Vital. Me enlaçou, me puxou, me levou para o outro lado lado da rua procurando me acalmar, enquanto Hélio Lopes era levado pelo gerente de futebol (salafrário que passei muitos anos pensando ser meu amigo, esse não posso revelar o nome) para dentro da sede.

Fui embora para casa. Suspenso pela diretoria. Muito provavelmente, seria emprestado mais uma vez. Fiquei em casa. Para minha sorte, o Verdão tinha jogos seguidos. O novo Alecrim de Hélio Lopes (ele era muito falador) perdeu para o ABC, clássico, jogando muito mal, empatou sem gols com o Riachuelo, ex-time dele e nos dois jogos, o Roberto Araújo, jogador clássico, mas muito lento, se saíra muito mal. No campo, a FERA já pedia a minha volta e a saída do comandante. Numa quarta-feira, como sempre fazia, cheguei no Chapinha (lanchonete da Cidade Alta, nosso point de todos os dias) depois das 10 da noite. Naquela dia, o Alecrim iria enfrentar o Atlético, lanterninha deste começo de campeonato. Não procurei escutar.

Certamente, contava ele, treinador, ganharia e teria uma sobrevida no cargo. Quando botei o pé na porta, Silvano, caixa da lanchonete, alecrinense apaixonado, me disse gritando: “se prepare para voltar, o treinador safado caiu”. Eu indaguei o motivo e ele disse que o time havia perdido de 2 a 0 para o Atlético e a diretoria demitiu Hélio Lopes no vestiário.

Voltei ao time verde. O Alecrim começou a remontagem do elenco e com várias boas contratações a equipe rivalizou com o América que, naquela temporada, foi bicampeão, pois tinha um timaço. E pronto. Só sei que foi assim, mais um capítulo de minhas intermináveis “maquerenças” do futebol.

 

 

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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